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Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

identificação



Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
João Cabral de Melo Neto
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.
Saiba mais sobre o poeta e sua obra em "Biografias".

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Marcel Marceau

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012


Um objeto
Imagem de um objeto
Fotografia da imagem de um objeto
Reprodução da fotografia da imagem de um objeto
Um clone
Imagem de um clone
Fotografia da imagem de um clone
Reprodução da fotografia da imagem de um clone

Cópia de cópias das reproduções de fotografias de umas imagens
E faremos cópias
E seremos sempre imitadores
Seremos sempre piratas
Nós os falsificadores
Imitaremos tudo
Imitaremos a graça
Imitaremos a desgraça
Imitaremos o delírio
Imitaremos o prazer
Imitaremos a dor
Imitaremos a vida

Seguiremos certos e certamente enganados
Somos sempre obra inacabada
Obra que não se copia

Rômulo 1990

Uma dessas noites
Especiais
O mundo comemora
Rememora, namora
E ela diz
Não vou
Não posso
Não estarei

Então ele finge
Um sorriso
Um desligar
Mas, mais uma vez
Ele se cala
E comemora só
Cotidianamente só

Ele e seus filmes
Ele e suas canções
Ele e seus escritos
E lágrimas secas

Rômulo Augusto 31/12/93

Vou usar meu poder de trabalho
Vou potencializar minha força
E sair atropelando
Atropelar os parados
E não esperar os atrasados
Quero intensa força pra superar a eterna crise
Esta crise que o comandante me meteu
Mete comandante
Mete a tua máquina
Vem com sua loucura
Vem com sua ousadia
Seu irresponsável
Mete os teus amigos
Vem com tudo
Meu cú já perdeu as pregas
Mas um dia, vou estourar as suas pregas
Vou conseguir me levantar
Vou te achar sozinho e comer seu cú
Eu mesmo com meu pau que irá cair após esse serviço sujo e vingativo.

Rômulo 12/98


Volto ao começo
Tenho que levantar novamente
Subo em minhas bases
E as sinto fortes!

Tudo que pensei perene acabou
Hoje tenho que reconstruir.
Sofro, que a vida é sofrer!
Mas com animo perene!

Sobreviver e viver é minha missão.
Sinto-me um leão com fome
E quero muito viver!
E quero com toda a força em mim!
Sobreviver.

Rômulo 02/2000

Você me diz palavras e eu sem reação.
Você me mostra a dor do prazer e eu sem entender.
Por vezes você é flor sem espinho e eu o espinho da sua flor.
Minha vida é quase o resumo de um folhetim barato.
Você vem assim sem mais nem menos reescrevendo minha vida.
Ela, assim, começa a se parecer um romance bom de se ler.
Esse folhetim tem agora a história de uma flor e seu espinho.
Amar é como aprender.
Amar é sofrer e aprender que se sofre para amar e aprender.
Amo-te mais e aprendo mais a cada dia.
E sofro menos a cada dia.

Rômulo Augusto
12/2003