Faroeste Caboclo Cinema

Faroeste Caboclo Cinema
Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

domingo, 30 de setembro de 2007

Classificados


Todos os dias, ao nascer do sol é possível ver uma revoada de pombos assustados saindo do beiral da janela do apartamento 305. Em horas variadas, às vezes mais de uma vez por dia, mas quase sempre ao nascer do sol. Os vizinhos sabem bem o motivo da revoada. A senhora, Amelita, moradora do 305 também sabe e sente na pele os pequenos sopapos de seu marido neurastênico que tomado por um de seus ataques de fúria, incisivo e bombástico acorda a sua senhora para fazer o café. Por vezes, os vizinhos pensavam em chamar a polícia ou invadir o apartamento para impedir a violência, mas o costume de ouvir os gritos tornavam as coisas normais e os vizinhos anestesiados, desistiam de tomar providências.
E sempre o Peixoto saía cuspindo fogo. Ao entrar no elevador, de repente, se tornava outra pessoa: Bom dia! Que belo Dia!
Era sempre assim com o casal. Meia hora depois, saía dona Amelita, meio envergonhada, rumo à quitanda. Pensava no cardápio do almoço e andava de cabeça baixa até que uma poça d’água impede seu percurso em linha reta e ela é obrigada a olhar para o lado onde vê uma pequena loja de Classificados do jornal de maior circulação de sua cidade. Súbito resolve fazer um anuncio.
- Bom dia! Posso ajudá-la?
- Sim, eu gostaria de fazer um anúncio.
- Pois não.
- Eu vou falando e você escreve?
- Sim senhora, pode dizer.
- Vendo ou troco...excelente estado... forte, conservado... branco, funciona perfeitamente quando manuseado com jeito... Troco por carro velho que ande ou vendo por dois mil reais... Tratar com Amelita.
- Só isto, Senhora?
- Só.
- Mas esta incompleto.
- Como?
- A senhora deve botar o seu telefone e o que propriamente a senhora esta anunciando.
- O telefone eu digo. Agora a coisa? Tem que ser coisa?
- Como assim?
- Não pode ser pessoa?
- Não senhora!
Saiu daquele lugar bufando. Sentou por um instante no banco da praça com vários pombos em volta. Mirou um em particular que se movimentava com dificuldade, tomou distância e correu para a bicuda que pegou o pombo em cheio. O coitado voou por uns metros e caiu em seguida meio morto. Ele não esperava uma reação como esta daquela senhora, que parecia tão pacata. Voltou para casa, não sem antes passar pela quitanda como sempre.
Na manhã seguinte com a habitual revoada de pombos só se ouviu o grito do seu Peixoto, que com aquela rotineira truculência não esperava ser o pombo da vez e levar daquela Senhora tão pacata uma bicuda certeira na região escrotal. Seu Peixoto nem saiu naquela manhã. Só dona Amelita saiu de casa hoje. Alegre e altiva ela cantarolava enquanto seguia rumo à quitanda e de olho nos pombos do caminho. Depois da quitanda pretendia sentar na praça para continuar seu treino, que agora seria diário.
Rômulo Augusto 29/03/2006

Picolé de uva

O transporte público da minha cidade é muito precário. É bem ruim... É mesmo uma catástrofe. Os ônibus não passam com assiduidade, são velhos e quebram no meio do caminho. Alguns emperram e a porta trava e só abre com a ajuda do trocador, ou segue de porta aberta até acabar o roteiro do dia. Além disto são tão barulhentos que não se pode nem trocar uma idéia dentro do ônibus e o pobre motorista acaba se tornando, com o tempo, ou surdo ou louco. Nas paradas de ônibus o espaço é disputado com truculência pelos motoristas de vans, carros particulares, táxis fazendo lotação e claro o nosso protagonista o gigante ônibus. Uma vez avistei, depois de esperar muito, o meu ônibus. Aquele letreiro era quase explicito em minhas retinas: “casa”. Feliz, acenei para ele parar e do nada se enfiou em minha frente uma van espaçosa que impede que o motorista do ônibus perceba meu aceno. O resultado foi que além de eu ter perdido o tão esperado ônibus fui obrigado a entrar naquela lotação pequena e velha, depois da insistência daquele cobrador mal educado, que me pegou pelo braço quase provocando uma luta corporal. A saga continuou. A van estava abarrotada de homens. Uns perfumados e outros realmente fedidos. Todos espremidos e com cara de mal. Seguimos disfarçando as escoradas e fingindo certa naturalidade. O perueiro empurrava mais pessoas para dentro, até que alguém protestou irritado: Não cabe mais não porra! Esse protesto desencadeou uma revolta conjunta que obrigou o perueiro a parar de botar gente para dentro. A cada parada, todos que se aglutinavam na porta eram obrigados a descer da van para que os que estavam atrás pudessem sair. Enfim, uma situação que só se vê aqui na minha cidade. Será?
Toda manhã, rezo para passar ônibus e não van. Acho que colocar Deus nesses assuntos de transporte coletivo é uma heresia sem medida, mas às vezes se faz necessário quando preciso ir a alguma reunião importante e a necessidade de usar uma roupa mais elegante é premente, não sendo possível entrar em uma van fétida e apertada e sair todo amarrotado.
Não pensem que os ônibus são bons e limpos. Existem ônibus de quinze anos, dez anos iguais aos meus filhos e ao contrário do meu adolescente os ônibus parecem velhos decrépitos e moribundos com acessos de tosse e paradas cardíacas manifestadas sem nenhum aviso prévio aos passageiros, que são obrigados a descer e esperar a próxima condução que, talvez, venha atrás.
Existe uma empresa que ironicamente possui alguns ônibus novos e até mesmo confortáveis. E graças as minhas rezas, eles estão sempre na linha que atende o percurso do meu trabalho. Entro no veículo e me sinto um magnata até o motorista arrancar e demonstrar a sua absoluta falta de delicadeza com aquele automóvel quase de luxo e com este passageiro de estilo. Apresentados cenário e circunstâncias vou aos fatos. Certa vez, fui aos píncaros da cidadania quando sentado em uma das últimas cadeiras, perto da porta de saída, vejo do lado de fora uma menina gordinha de uns doze anos sentada em sua cadeira de rodas, chupando um picolé de uva, empurrada pela mãe com a intenção de subir no ônibus. Mais que depressa desço, apanho a menina no colo e em sincronia perfeita a mãe apanha a cadeira de rodas. Subo com a menina no colo com um certo receio de me sujar com o picolé de uva e pensando que ela ao invés de estar se esbanjando com um picolé daqueles deveria pensar em uma dieta urgente para emagrecer e facilitar situações como aquelas. Mãe e filha me agradeceram muito, muitíssimo, após eu, com muito esforço, ter colocado a gordinha na poltrona. Toda a situação me fez feliz e quase chorei comovido com a minha iniciativa solidária. Veio-me um arrependimento profundo de ter pensado em uma dieta para aquela pobre menina que, privada da alegria de correr e pular como as outras crianças, estava se lambuzando feliz com aquele inocente picolé. Realmente estava sendo frio e egoísta em querer privá-la de tal prazer degustativo. Em questão de segundos a minha opinião mudou ao sentir um certo frio na perna que estava com duas gotas de picolé de uva na calça bege. Quase reclamei com a mãe da menina, mas isto tiraria o brilho da minha boa ação. Aquelas gotas poderiam despertar o interesse de alguém no trabalho e eu poderia narrar os fatos e até ganhar um elogio rasgado. Ficaria no lucro apesar da calça suja de picolé de uva. Uns meses depois estava feliz novamente por ter embarcado naquela linha de ônibus. Entrei, dei bom dia ao motorista e ao cobrador ao qual paguei feliz a maior tarifa do Brasil e segui civilizadamente para o fundo do ônibus, sem esquecer de proferir um sincero e rotineiro obrigado.
Desde pequeno costumo observar as pessoas. Hoje ainda as observo, até por precaução. Observei que havia no ônibus vários passageiros bem fortes. Esta observação parece inútil, entretanto vai servir no percurso da história.
Depois de alguns quilômetros o ônibus pára e aparece um cadeirante na porta com um sorriso amarelo direcionado a mim, que estava justamente na direção da porta. Prontamente me levantei para ajudar e ao mesmo tempo retardo minha ação esperando um pouco para que os robustos em volta tenham alguma reação antes da minha. Nada. Aquele homem do lado de fora não precisaria se humilhar para nenhum troglodita. Se dependesse de mim ele não seria excluído. Sou um cidadão e garanto os direitos dos outros cidadãos. Desci observando o olhar alheio daqueles nutridos e inertes senhores. Alguns ao perceberem a situação e a minha prontidão diante dos fatos viraram o rosto olhando a paisagem na janela e ignorando a urgência da situação.
Perguntei ao cadeirante como poderia ajudar:
- Me pega aqui.
O cara respondeu apreensivo observando meu corpo franzino. Acho que teve medo de eu não agüentar o peso, mas como ele não estava, definitivamente, em condições de escolher um melhor ajudante e apesar de meus 60 quilos meu semblante inspirava confiança, teve que aceitar.
Peguei o cara no colo com jeito e lembrei com saudades da gordinha do picolé que parecia uma pena em comparação com o cara. Senti que poderia não agüentar o peso do rapaz, mas não tinha como voltar atrás. Seria uma humilhação desistir e pedir ajuda aos robustos trogloditas. Respirei fundo e subi. No segundo degrau senti uma forte fisgada na lombar direita. Quase soltei o indivíduo, mas novamente respirei fundo e fui até o fim. Depositei o homem na cadeira e ajeite suas pernas rapidamente caindo na minha cadeira ofegante. Logo em seguida um dos robustos se deu ao trabalho de pegar a cadeira e sem jeito entregá-la ao moço paraplégico que só sabia agradecer. Eu fiquei disfarçando a dor e resolvi perguntar:
- Quantos quilos?
- Setenta... normalmente.
Não sei bem o que ele quis dizer com “normalmente”. Normalmente para mim não era algo que se assemelhava ao normal ou comum. Aquele peso definitivamente não era normal. Pensei, depois do ocorrido, que eu deveria mudar certas praticas no ato de ir e vir.
Em primeiro lugar eu não me sentaria próximo à porta traseira dos ônibus.
Em segundo lugar seria menos atento e observador.
Em terceiro lugar eu não seria mais tão prestativo em coletivos.
Em quarto eu não poria mais Deus nestes assuntos, pois o fato de rezar atraiu para mim os necessitados de ajuda. Aconteceu uma espécie de milagre da caridade ao meu redor. Ainda me recupero da dor. Acho que as minhas limitações físicas impedem certas praticas caridosas. Ia me esquecendo de concluir que o transporte público da minha cidade é uma merda e não foi feito para todos os que precisam dele. Parece óbvio, mas não é para todos. Vai aí um recado para os políticos: Para saber o sabor do picolé de uva é necessário chupá-lo.
Rômulo
01/02/2006

Matar o Tempo

Arrumou aquele emprego público por influência de um parente depois de três anos desempregado mesmo tendo nível superior. Era jornalista. O salário daria para o básico e mais algum luxo. Não trabalharia em sua área, faria serviços burocráticos em geral. Estava decidido a aproveitar cada momento de ócio, comum no serviço público federal, para a observação distanciada dos aspectos mais mundanos e corriqueiros dos futuros colegas de trabalho.
Achava que os colegas seriam fontes inspiradoras de um belo livro sobre o comportamento e personalidade de personagens problemáticos e mesquinhos. Imaginou encontrar um mar de carências e um oco de intelectualidade.
“Os Funcionários”, seria, provavelmente, o título do livro.
O dia anterior:Expectativa de ingressar no trabalho. A vontade de começar deixava-o com frio na barriga e sem sono. Lembrou-se de todos os primeiros dias de aulas de sua vida, todos cercados de muita apreensão e medo do desconhecido. Teve um fatídico dia que urinou nas calças em plena sala de aula na frente de todos os colegas. Um vexame traumático que está gravado em sua memória até hoje.
Hoje, já com 35 anos, era apenas insônia, provocada pela ansiedade, o que sentia. Sabia que suas funções orgânicas eram controláveis, pelo menos algumas delas.
Dormiu mal e só como era habitual. Teve pesadelos e suores noturnos que o levou a acordar durante a madrugada. Por volta das cinco da madrugada caiu em um sono profundo.
O primeiro dia:Acordou atrasado e não muito bem. Ainda zonzo chegou e já foi apresentado a todos os colegas, sentindo que além de frias boas vindas nada mais lhe seria dito ou aconteceria, nenhuma instrução sobre o serviço, nada. Tanto melhor. Tentou se situar em uma mesa que estava desocupada e mal colocada num canto não muito iluminado da sala.Gavetas duras de abrir.Superfície gasta e encardida.Computador lento e obsoleto conectado à internet. Dissimulou alguma concentração que mal o convencia e que ninguém na sala se importava. Lembrou de uma musica do Arnaldo Antunes que dizia em seu refrão: “Vamos matar o tempo!” e essa não saía de sua cabeça. O tempo passou até bem rápido, mas nada de interessante aconteceu além da morte do tempo sem choro nem enterro.
O segundo dia: A caminho do trabalho se gabava em pensamento de sua pontualidade e disposição para matar o tempo. Começou a cantar a musica do Arnaldo e se distraiu passando do trabalho alguns quarteirões e se atrasando alguns minutos.
Lamentou: Estava indo tudo bem. Sabia que teria de repor o atraso. O ponto eletrônico passou a ser uma preocupação. Chegou, se desculpou meio ao vento, ainda não tinha sido apresentado ao chefe e não sabia a quem prestar satisfações. Sentou e ligou o computador. Enquanto ele começava a funcionar observou que a moça magrinha da segunda mesa depois do banheiro vertia lágrimas discretas e sentidas. Cíntia chorava profundamente e em silêncio. Olhava com olhos perdidos a paisagem urbana da janela e suspirava. Pronto, sentiu que o ócio criativo tomou o espaço cerebral e enfim daria início ao seu estudo literário. A sala ainda estava meio vazia e assim ele iniciou:
“Ela tentava pensar em Deus para suportar a dor de ser o que era, uma mulher sem amigos e sem filhos e sem esperança de ao menos se casar. Pensava no tempo de escola....
Ele parou, olhou para ela que já não chorava mais e simplesmente sorria a olhar a tela do computador.
Uma moça magra e inexpressiva como ela não poderia se casar facilmente e nem ter muitos amigos...
Parou, olhou novamente e começou a pensar ao contrario.
A moça, afinal, havia despertado o seu interesse. Não conseguiu se concentrar mais e perdeu o fio da meada, deveria começar a escrever novamente e de outra forma. O tempo passou mais devagar que ontem e matar o tempo já não foi tão agradável quanto ontem, veio recheado de alguma angustia e incômodo. Foi pra casa com uma sensação de inutilidade, com a imagem da moça pregada na memória e com seu nome na cabeça. Cíntia.
Terceiro dia: Chegou pontualmente e cheio de idéias sentou e começou de onde tinha parado, do choro de Cíntia. “Ela tentava pensar em Deus para suportar a dor de ser o que era, uma mulher sem amigos e sem filhos e sem esperança de ao menos se casar. Pensava no tempo de escola do quanto era radiante e de como viu todos os amigos serem felizes realizando seus sonhos e ela ali, naquela repartição mastigando suas vértebras sentada naquela cadeira dura. Cíntia chorava e já nem sabia porque...
Ele parou de escrever para tomar um café e ficou observando a sala de longe. Não se sentia tão diferente dos outros colegas, ao contrario, estava ficando um pouco preocupado com uma certa dor nas costas que sentiu na noite anterior, dor jamais sentida. Veio o Arnaldo em sua cabeça, “vamos matar o tempo”, em seguida foi se sentar na cadeira sem pensar, automaticamente.Tentou iniciar a escrita.
“Cíntia chorava e já nem sabia porque. Nunca lhe faltou o necessário para viver e ela ainda precisava de mais, só não sabia o quê. De repente na cabeça de Cíntia veio a imagem de um corpo masculino castrado, sem pênis...”
Parou de escrever, já havia ido longe demais. Um corpo masculino castrado podia não levar a nenhum lugar, tinha de recomeçar a escrita.
Pensou em algo interessante e percebeu que da sua cabeça só vinham coisas descabidas e nada concistentes, então parou. Começou a reconhecer que não estava muito distante de seus colegas e que seu modo de vida era o mesmo. Estava se sentindo cada vez mais envolvido com aquelas pessoas, que até então ele só tinha críticas distanciadas e cheias de estereótipos.
À noite:Viu um pouco de tv e tentou dormir cedo.
Fechava os olhos e a imagem de Cíntia chorando vinha aos seus sonhos como um pesadelo. Levantou e pegou um livro para ler, quem sabe dormiria com outras coisas na cabeça. Uma idéia é só o que queria, uma idéia. Teve um sonho estranho. A sua casa havia sido invadida por uma tropa do exército que lhe acusava de ter abusado sexualmente de uma moça virgem chamada Cíntia. Foi preso e condenado à morte. Quando estava pronto para ser fuzilado desmaiou.
Quarto dia:Acordou de súbito e saiu apressado. Atrasado, já quase meia hora, pegou uma via expressa que o levaria mais rápido ao trabalho. Dessa vez algo havia acontecido, além da canção do Arnaldo ele tinha uma idéia na cabeça. Por um instante sentiu um prazer enorme e quase um desejo sexual por Cíntia. Cerrou os olhos por um segundo e pisou mais fundo o acelerador. Um segundo eterno e silencioso sem a trilha do Arnaldo. De repente, um barulho inédito para seu ouvido e um impacto na lataria de seu carro o fez frenar com violência e abrir os olhos. Sabia. Atropelou. Um segundo rápido. A canção do Arnaldo. Gente? Animal?Desceu do carro e correu em direção ao pequeno pacote sangrento no chão. Uma mulher. Um olhar. O ultimo desejo. Um beijo. Não ia mais matar o tempo. Cíntia iria se atrasar para sempre.
Rômulo Augusto 01/2004

sábado, 29 de setembro de 2007

Meninas

Fiquei muito molhada esta noite. Meu vestido se perdeu na água. O dinheiro voou no vento. Eu vi de longe Jéssica pequenininha e linda no colo da minha mãe. Ela não chorava, só me olhava como um anjo! Ela era anjo no colo de uma santa. Minha mãe é uma santa. Ela sempre vem no meu sonho vestida de branco. Acho que minha mãe ajuda Deus a cuidar da gente, lá no céu. Adoro sonhar com ela. Eu adoro sonhar. A Jéssica tem dois anos. Eu tenho quinze.
Eu parei de sentir frio quando sonhei um sonho muito bom. Sonhei com um homem lindo! Parecia um Príncipe de olhos verdes e era gentil. Cuidava da minha filha e levava a gente para tomar sorvete e brincar no parque. Brincava e ria com a gente o dia inteirinho. Cantava e lia histórias de um livro que não acabava nunca. Toda noite tinha mais história no livro. Toda noite eu fico esperando sonhar com ele para ouvir mais história do livro.
Não sei ler direito. Quando eu fiquei grávida da Jéssica eu parei de estudar. Ela nasceu no dia do aniversário da minha mãe. Quando ela entrar para a escola eu vou voltar a estudar também, que eu já esqueci quase tudo.
Toda vez que estou trabalhando eu tento pensar em coisa boa, assim a dor passa. Penso no príncipe dos meus sonhos e na minha mãe tirando piolho da minha cabeça. Eu lembro que ela ficava um tempão tirando piolho e era tão bom, que eu até dormia.
Hoje eu já deitei duas vezes.
Um velho mal cheiroso e um moço bonito e rápido.
Têm outro moço que sempre vêm na quarta e fica comigo até sexta. Ele é bom e paga bem.
Ele tem um caminhão que dentro parece uma casa, mas ele não dorme nele.
Acho que ele é rico. Teve uma vez que ele me levou pro hotel e disse que gostava de mim. Com ele eu ganho por três dias e me deito só um pouco. Ele é meio triste, não fala muito.
Na ultima vez eu brinquei bastante, contei até piada. Puxei assunto para ver se ele alegrava. Ele não arredou o pé. Tava triste de verdade. Eu fiquei com dó dele. Não sabia o que fazer para agradar. Aí eu comecei a contar história da minha filha. As gracinhas é bem bonitinha. Eu enfeito ela, ponho a roupinha, o sapatinho. Ela fica igual às bonecas da minha mãe.
Quando minha mãe morreu, ela deixou dez bonecas para eu cuidar.
Quando eu morrer a Jéssica que vai cuidar delas. Eu já tenho quinze bonecas. Quinze com as dez da minha mãe. Eu adoro brincar de boneca. Eu até converso com elas.
Teve uma noite que eu sonhei que elas falavam comigo. Elas respondiam tudo o que eu perguntava. Eu conto tudo para elas. Agora eu conto também para a Jéssica. A Jéssica ainda não fala, mas ela vai falar. Eu vou contar tudo para ela, para ela saber como é a vida. Eu não sei direito como é a vida, mas eu sei que tem coisa boa e coisa ruim nessa vida. Isso eu sei porque eu sei. Vivendo. Sem viver não dá pra saber.
Esse rapaz que eu contei é bom! Eu sei, eu olho nos olhos dele e vejo. Tem uns que eu olho e não vejo nada. Tem uns que chegam aqui, que eu vejo ruindade. Esses graças a Deus vão embora rápido. Às vezes não pagam. Dizem que não foi bom e não querem pagar. Aí eu chamo o soldado. O Soldado é um moço meio pancada que protege as meninas aqui e caminhoneiro que deita e não paga fica marcado. O Soldado bate no cara todinho se ele não paga.
O Soldado não tem medo de ninguém. Um dia ele levou um tiro e não morreu. Acho que é por isso que ele não tem medo de nada. Eu acho que ele não é louco. Ele parece meio doido, mas não é. Quando alguém vai morrer e não morre fica corajoso. Eu não acho ele doido. Ele só é sozinho e é muito forte, corajoso. Ele é bom.
Eu já quis deitar com ele de graça, mas não agüentei, porque ele é muito grande. Acho que é por isso que ele é sozinho. Não têm mulher que agüenta ele.
Eu contava da Jéssica pro moço e ele chorava mais. Eu falei para ele que a Jéssica era alegre e que não era para chorar. Toda criança traz alegria para o mundo.
Minha mãe dizia que quando uma criança morria o céu ganhava mais um anjo em forma de estrela. Não é só quando morre que a criança vira anjo. A minha Jéssica é um anjo e ta viva.
Deus me livre, que se ela morrer eu morro também. Ele chorou muito, de soluçar. Eu respeito tristeza. Quando a gente ta triste não adianta. Eu quando fico triste fico e pronto! Não tem nada que me alegra, só a Jéssica. A tristeza de adulto eu acho que é maior que a de criança. A tristeza da criança passa com o tempo, porque criança é anjo. Eu sou criança, mas não sou mais anjo não. Quando eu deitei com o primeiro eu deixei de ser anjo e to deixando de ser criança porquê eu to crescendo, tenho a Jéssica. Meus peitos tão cada dia maior. Mas eu ainda adoro boneca. Acho que eu nunca mais vou deixar de gostar de boneca. Ah! Coitado do moço! Chorou até dormir. Dormiu chorando. Acordou com pressa pagou e foi embora no caminhão. Fui para casa morrendo de saudades da Jéssica. Quando eu to trabalhando ela fica com meu pai. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos e meu pai é que cuida de mim. Ele adora a Jéssica. Meu pai acha que eu trabalho na rua pedindo. Ele não sabe que eu me deito. Se sabe não fala. Eu nunca vou contar para ninguém, nem para a Jéssica. Eu não quero que ela deite com homem não. Eu quero que ela fique anjo até casar. Quero que ela estude.
Ontem eu ganhei quinze reais. Vou comprar um pratinho e uma colher para ela comer. Depois eu vou comprar um vestido de renda branco para batizar ela na igreja. Vai ter uma festa no rio e com o dinheiro vai dar para comprar o vestido e pagar o padre. Festa no rio é bom que tem comida e a gente ganha mais e antes de subir. O dinheiro fica fora do barco e a gente ganha mais dinheiro dentro do barco. Eles são de outra cidade. Tem até estrangeiro.
Às vezes tem mulher. Pedem para a gente beijar mulher e isso eu só faço se me der dez, porque eu não gosto de beijar mulher. Eles pedem de tudo, por traz. Teve um dia que eu ganhei trezentos reais numa festa.
O barco tava parado no porto antes do sol se pôr e o pessoal entrando. O final da tarde era lindo como nos meus sonhos com a mamãe.
Eu estava com preguiça, mas pensei na Jéssica, no batismo. Subi no barco só pensando no batismo do meu anjo. O primeiro homem que vi foi o Soldado olhando o rio. Tinha muita gente no barco. Cada menina que entrava ganhava uma cerveja. Tinha um homem sentado numa cadeira de rodas com dois sacos cheios de notas de dez. Seu corpo tremia. Ele era estranho. Parecia um louco.
Quando o barco começou a navegar eu senti um alívio. Os homens gritaram e começaram a agarrar todo mundo. O homem da cadeira de rodas me chamava. Eu fugi dele. Deitei com uns cinco e fiz de tudo, tive até que beijar três meninas.
O Soldado ficava lá parado e olhando. Quando as coisas acalmaram um moço me pegou pela mão e me levou para o fundo do barco. Ele tinha olhos verdes e parecia um pouco com o príncipe dos meus sonhos. Ele me levou lá para baixo pela mão, sozinha. Ele me fez um carinho na cabeça e disse para eu dormir. Pegou um livro igual aquele do sonho e contou uma história de uma menina pequena, bem pequena, igual uma sementinha. Depois da história ele me disse que ia dar um presente para a Jéssica. Fui adormecendo e sonhando que estava mergulhando no rio e nadando bem lá para o fundo. Fui vendo minha mãe no fundo da água com um bebê no colo, eu achei que era a Jéssica e quando eu cheguei perto era um bebê muito parecido com ela, mas era eu. Aí o bebê sumiu e ela me abraçou. Nos braços da mamãe eu vi o Soldado me puxando pelos cabelos para cima e para fora da água. Vi descer até o fundo a cadeira de rodas do homem estranho. Muita madeira quebrada desceu pro fundo do rio. Vi várias meninas nadando e se divertindo com os peixes. Eu já estava rindo da brincadeira quando minha mãe me beijou e disse:
Vai brincar com as outras meninas meu anjo.
E assim eu fui brincar com as meninas e os peixes. A minha mãe me chamou de anjo. Ela não sabia que eu deitava com os homens e achava que eu era anjo igual à Jéssica. Quando olhei para minha mãe vi Jéssica em seu colo feliz e tranqüila me dando adeus com a mãozinha. Aí o livro desceu e caiu nos braços da mamãe, ela abriu e começou a contar história para a Jéssica. Acho que o presente que o príncipe disse que ia dar para a Jéssica era o livro. Acho que agora as coisas iam mudar pra gente.
Rômulo Augusto
20/10/2005

Banho Seco

-Pronto!
Ela me disse de forma sentencial.
-Acabou!
Começou a rir como que aliviada.
-O quê que acabou?
Perguntei admitindo surgir algum vestígio de alegria em mim.
Vou interromper essa história para relatar o dia que vivi até ela chegar em casa e dizer decidida: Pronto!
Acordei como sempre com o som do impertinente despertador. Comprei o Maldito, buscando de loja em loja o som de despertar menos intrometido. Depois de procurar muito acabei escolhendo, talvez, o pior e mais estranho som de despertador. Isso eu narrei para que percebam que após acordar ao som do despertador que comprei, o mau humor já têm permissão de pousar no dia. Mas eu decidi não dar autorização de pouso nesta manhã. Fiz um esforço e até achei graça, em meio ao ronronar das espreguiçadas de minha mulher, do som melado do despertador. Melada é a sensação que me provoca o som daquele filho da puta. Não sei explicar essa sensação de melado. E naquele dia o despertador não ia melar o meu humor. Desliguei o maldito sem mais delongas, beijei de leve a nega, que reclamou do bafo e se virou de lado, e fui tomar um banho bacana, onde tinha planos de fazer a barba depois de defecar e assim o fiz. Com a cara meio suja de espuma e com leves cortes, abri a torneira e esperei a água cair do chuveiro. Alguns segundos se passaram até que notei que parte dos meus planos foi por água abaixo, ou melhor, foram adiados, pois do chuveiro não caiu uma gota sequer. Senti meu sangue subir como água da chaleira e esbocei um palavrão contundente, que não escapou, pois lembrei que tomaria um café quente e tudo iria dar certo sem que eu me alterasse ou ficasse com raiva do governo local, que deixa que a água acabe sem aviso. Lembrei que poderia ser culpa do cínico do síndico. Limpei a cara com a toalha, olhei a nega meio despida na cama, inocente, ela mal sabia o que a esperava no banheiro. Resolvi não avisar, deixei fluir a maldade um pouco e a ataquei com um cheiro no cangote. Quando senti que ela correspondeu iniciei gradualmente uma siririca contundente que a fez gozar rápido. Larguei ela na cama e fui direto fazer o café. Peguei a chaleira e ouvi um grito dela no banheiro. Sorri, e já concluindo o óbvio, mudei de direção. Ia para a torneira e desisti desviando para a geladeira, porque não haveria água na torneira da cozinha também. Lá na geladeira busquei na garrafa de água gelada a última esperança de fazer o café. Dessa vez foi uma grande provação, pois não tinha água na geladeira, também. Alguém desatento e inconseqüente bebeu toda a água e não encheu a garrafa. Esbocei novamente um palavrão retumbante que controlei permitindo sair apenas um resmungo preso na garganta! Saí de casa rápido, sem me despedir dela, que ainda estava no banheiro, cantando uma musica chiclete que se instalou em minha memória para completar o início desse dia aziago.
Música chiclete é aquele tipo de música bem popular que toca nas rádios mais bregas. Música sertaneja, axé, pagode exportação ou música pop americana ou, ainda, aquelas promovidas pelo Gugu Liberato ou Faustão que são sempre e invariavelmente músicas chicletes. Louras burras e filhos de cantores endinheirados também fazem música chicletes de primeira qualidade, dessas que grudam e só saem com britadeira. Esse esclarecimento serve mais para quem gosta deste tipo de pseudomúsica. E se você é uma destas pessoas eu desejo que você morra com ela na cabeça e tocando em seu velório, seu burro consumidor de lixo cultural. Desculpe a minha petulância, mas é que sinto uma certa raiva, tenho o temperamento explosivo. Acho que seria um bom homem bomba brasileiro. A propósito isso que estou escrevendo é também lixo cultural.
Caro leitor, estava eu surfando no silêncio do metrô e tentando tirar a música chiclete da cabeça, lembrei dos mestres Cartola, Noel, Adoniran, Tom, Vinícius e Chico. De repente entra em uma estação uma morena de mini saia bem curta e com cara de disponível. Ela vem em minha direção me olhando nos olhos. Fico meio sem graça, olho para minha aliança desviando o olhar. Olho para ela e ela esta me olhando com um sorriso nos lábios. Fico meio nervoso, ou melhor, fico meio alerta, querendo voar na mulher e apertar as nádegas polpudas dela. Enquanto calculo o estrago que daria eu em cima da Mulata, percebo que a música chiclete saiu da minha cabeça como milagre, aí no tempo que concluo que esqueci a música chicletes percebo que a porra da música voltou para a cabeça novamente. E na estação seguinte desce a gostosona sem olhar para traz.
-Vagabunda! Nem olhou novamente, e eu que estava quase apaixonado.
Volto à realidade, à música chiclete e tudo o mais que tenho direito. De repente uma angustia me toma e lembro que o mês iniciou e o salário já acabou. Penso no salário da minha esposa que ainda não foi pago e me alivio um pouco. Lembro novamente da Mulata e fico novamente com tesão. Penso que seria certo mesmo eu ter descido na estação da Mulata e fugido com a gostosa. Não tenho filhos com minha esposa, o casamento é só pagar contas, brigar um pouco, família de um e do outro nos domingo, missa para pedir perdão dos supostos pecados e garantir uma vaga no céu, enfim, todas as mazelas de um típico casamento do século XXI. E, claro, sempre faltando o essencial a um casamento feliz: Dinheiro.
Desci na minha estação e caminhei até o trabalho. Trabalho no Banco Rural, serviço estafante e sobre pressão. E vez por outra ainda tenho que suportar umas piadinhas recentes sobre os escândalos que o banco está envolvido. Quase não tenho tempo para nada, nem para coçar o saco. Trato cada cliente como rei para que eles se sintam bem e demorem bastante em minha mesa. Conto histórias de outros clientes, apropriadas por mim e contadas como se fosse eu o sujeito das peripécias bancárias. Tudo isso eu faço para parecer importante e requisitado pelos clientes. Tática que aprendi quando trabalhei no Executivo. Serviço público é que é bom. A casa do vizinho é sempre a mais bonita. A mulher do próximo é que é boa.
Hoje as coisas pareciam bem diferentes. Sentia que algo de ruim iria acontecer. De repente uma notícia bombástica interrompe a música chiclete e o trabalho. Demissão. O banco iria fechar várias agências no Brasil por conta dos escândalos com o partido do governo. Acho que o que pagava meu salário era dinheiro sujo da política. Eu fui punido. Punido apesar de trabalhar honestamente. Punido por optar pelo trabalho honesto. Fui para casa pensando na política e em que tipo de país é o meu que pune inocentes por sua inocência. Acredito que se eu fosse um operador político do banco não seria demitido. Eu nem podia chantagear ninguém, pois não sabia nada de ninguém. Se eu fosse um deputado que recebeu mensalão do governo não seria demitido. Seria cassado? Talvez cassado. Entretanto a minha conta bancária no banco Rural, Real, Urbano etc estaria gorda e cheia de mensalão. Eu seria julgado em foro privilegiado. Lembrei com orgulho do meu falecido pai que me dava uma mesada, que ironicamente nós chamávamos de mesadinha. Meu pai se vangloriava aos berros de sua honestidade. Meu pai morreu pobre e pagando aluguel. Não teve poder nem dinheiro e tudo para ele foi suado. Ele mesmo assim se vangloriava de ser honesto. O partido do governo sempre se vangloriou de ser um partido honesto. Chegou ao poder e diferente do meu pai o partido roubou. FODA-SE! Quis gritar no metrô e me contive.
Me conformei voltando para casa.
Sentei no sofá da sala. Chamei, e ela não estava em casa. Comecei a chorar como se ainda recebesse mesada de meu saudoso pai. Pensei nele e reforçou-se em mim um sentimento de orgulho de ser, como meu pai, um homem honesto e trabalhador.
Aquele sentimento de limpeza de consciência me deixava calmo e esperançoso de que as coisas iam melhorar e que a recompensa de ser honesto ia chegar, nem que fosse ao morrer.
Pronto! Entrou gritando minha mulher, porta adentro, interrompendo minha meditação.
-Acabou!
-O quê que acabou?
-Pedi demissão! Não vou mais me submeter àqueles canalhas.
Pensei: Eis a recompensa de ser honesto.
Serviço público é que é bom.
A casa do vizinho é sempre a mais bonita.
A mulher do próximo é que é boa.
Fui pensando essas coisa e me despindo para tomar um banho.
Entrei, como de manhã no banheiro. Corri a porta do box, me posicionei abaixo do chuveiro e torci a torneira e nada da água cair.
Finalmente o palavrão saiu escolhido, retumbante e seguido de uma gargalhada nervosa:
-CARALHO DE GOVERNO!
E a água caiu dos meus olhos.

Rômulo Augusto
Outubro/2005

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

TEATRO LADRÃO


Amor sem avalista

Recebi na porta do trabalho um panfleto de empréstimo pessoal. Coisa muito comum nos dias de hoje e também antes de Dom Pedro II, quando resolveu acabar com a, dita, farra da agiotagem no Brasil instituindo a agiotagem oficial. Ele inaugurou, assim, a Caixa Econômica Federal e proibiu a agiotagem pirata. Entrou para a história concedendo empréstimo até para escravos, com a anuência de seus senhores, claro, e tudo dentro da lei e dos conformes. Assim, como na época de Dom Pedro II, temos que apresentar contra-cheque, avalista, comprovante de residência, SERASA, SPC e autorização do cônjuge para conseguir dinheiro na Caixa Econômica Federal.
Entretanto, como antes de Pedro II, a coisa corre frouxa. Lê-se nos panfletos : Rápido, fácil e sem avalista. Sem avalista? Raciocinava apreensivo:
-Se eu não pagar quem vai pagar por mim? Se eu morrer quem paga? Se eu não pagar o que acontece? E se eu sumir? Desconto em folha? Agilidade na liberação. Agilidade é sem dúvida uma grande vantagem. Quando precisamos de dinheiro é necessário agilidade. É bem verdade que quem têm pressa acaba comendo cru e quente. E acaba negociando precipitadamente juros mais altos que o concorrente.
Um desses panfletos dizia: compramos dívidas de outras consignatárias. Que incrível! Estão comprando dívidas. Acho que eu vou vender minhas dívidas e me mudar para o Caribe. Quem em seu juízo perfeito compraria uma dívida minha? A minha mãe talvez. Resolvi parar de pensar nessas coisas e jogar o panfleto no lixo. Do nada, como um sinal o celular toca e do outro lado ouço uma voz doce e macia que me deixa meio eufórico.
-Alô... quem é?
-Você não me conhece.
Delícia de voz feminina! Uma frase misteriosa. Com uma voz dessas eu até compro uma dívida bem alta.
-Como é seu nome, meu bem?
-Jandira Figueira, senhor.
-Realmente eu não te conheço, mas adoraria te conhecer.
Ela sorriu do outro lado da linha abrindo passagem para minhas intenções.
-O senhor teria cinco minutos?
Pensei que em cinco minutos não daria tempo para dar o devido tratamento à princesa.
-Não só teria como tenho todo o tempo do mundo para a voz mais encantadora do mundo!
Acho que ela até se arrepiou. Eu me arrepiei.
-O senhor está sendo muito gentil... Bom, eu queria estar mostrando para o senhor a nova e diferente maneira do senhor estar fazendo o seu empréstimo pessoal. O senhor gostaria de estar ouvindo a proposta?
Ao som de tantos gerúndios o meu tesão abaixou, mas eu ainda estava disposto a pegar aquela voz gostosa de jeito. Acho que na hora H ela ia gemer sem o Gerúndio.
-Não só gostaria como também quero estar ouvindo, enfim vai, fala meu bem....
Ela iniciou aquela ladainha de gerúndios intermináveis e eu fui lembrando que o salário já havia acabado e eu não tinha como convidá-la para sair, para jantar ou mesmo para aplacá-la num motel agradável.
-O senhor está aí?
Aquela pergunta direta e sem gerúndio me despertou.
-Sim, ao seu dispor. Pode estar continuando.
O gerúndio saiu meio artificial da minha boca, me fazendo refletir sobre até que ponto eu poderia chegar para comer alguém.
-Se o senhor estiver ocupado eu poderia estar ligando outra hora para estar passando as informações...
-A senhora pode falar agora mesmo, eu to praticamente desocupado. Alias eu to interessado mesmo é...
Pensei em dizer a verdade, mas a verdade mesmo no gerúndio poderia estar assustando a moça.
...em fazer um empréstimo. Qual é a taxa?
A partir daí eu notei que ela mudou o tom de voz. A velocidade aumentou e os gerúndios diminuíram. Resolvi tomar as rédeas da conversa e marcar um encontro pessoal.
-A moça não gostaria...
-O senhor não se preocupe que o seu cadastro será aprovado na hora e sem avalista. Não estaremos pesquisando a sua situação nos órgãos de proteção de crédito....
Como eu vou propor um encontro sem dinheiro? Acho que vou pedir logo este empréstimo e resolver o resto pessoalmente com ela.
-Ok, como faço para efetuar o empréstimo e obter o seu telefone para a gente gastar tudo juntos?
-...
-E aí? A senhora ta aí ainda? Como é, vai ou não me emprestar o dinheiro?
-Bom de quanto o senhor precisa?
-De uns...
Pensei em quinhentos para uma boa farra com a dona. Depois achei que se eu pedisse pouco ela não ia me dar o telefone, pois acharia que não valeria a pena sair com um cara duro como eu.
-Mil e quinhentos reais.
Nem pensei em como pagar, depois eu venderia a dívida.
Passei todos os dados esperando os dados dela. Minhas expectativas eram de dados novos e suculentos como devem ser os dados de uma mulher realmente apreciável e que vale o investimento de uma dívida.
-Agora é a sua vez!
-Desculpe senhor?
-Não têm do que se desculpar. Passa logo os seus dados para a gente se acertar.
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada. Gostaria de estar passando para o senhor o nosso endereço para que o senhor possa estar nos fazendo uma visita e assinando os papeis.
-Eu quero é o seu endereço, gata.
-O senhor pode estar anotando?
-Na hora.
Ela ditou com todos os gerúndios aquele endereço e se despediu cheia de gerúndios, que retribuí cheio de beijinhos de amor.
Fui direto na floricultura comprei meia dúzia de rosas vermelhas e corri para o endereço. Fui pensando em Jandira Figueira a suposta gata do tele-marqueting que eu iria conhecer e quem sabe um dia me casar.
-Boa tarde! Vim aqui concluir um empréstimo pessoal que fiz por telefone com a Jandira Figueira.
-Como é o seu nome?
Comecei a desconfiar que a Jandira Figueira não estaria lá. E que talvez eu não a conhecesse nunca mais.
-Eu queria concluir o empréstimo com a moça que me ligou.
-Senhor, esta não seria a função dela.
-Pois então agora é.
-Mas senhor, o senhor poderá estar fazendo este empréstimo com qualquer um de nós.
-Eu não poderia nem posso...escute eu só quis fazer este empréstimo por causa dela e vem você me dizer...
-Está certo senhor. O senhor não precisa estar se exaltando por isso. Nós vamos estar procurando a senhora...como seria mesmo o nome dela?
-O nome dela é Jandira Figueira. Jandira Figueira!
-O senhor poderia estar se sentando, que eu estarei providenciando um cafezinho na nossa copa...
-Vai...Vai.
-O senhor aceitaria um café?
-Eu aceito. Agora busca a moça.
Fiquei esperando. Esperei ansiosamente pela gata e nada. Depois de exatos dez minutos a mesma moça volta sem o café e diz:
-Eu poderia estar ajudando o senhor?
-Você poderia? A senhora não saiu daqui para buscar a Jandira Figueira?
-Desculpe senhor?
-Não desculpo. A senhora não saiu desta sala para buscá-la?
-A sim, claro! Que cabeça a minha!
-E então?
-Então o que senhor?
-Cadê a Jandira?
-Senhor, eu só poderei estar encontrando essa senhora se ainda estiver dentro do horário do respectivo turno dela.
Isso tudo ela falou olhando a tela do computador. Aquilo me deixou meio indignado. Levantei-me joguei as flores no banco em que estava sentado e disse:
-Ou a senhora chama a Jandira ou eu não faço empréstimo nenhum.
-Para o senhor estar anulando o seu empréstimo é necessário que o senhor esteja ligando para o nosso tele-atendimento para que possamos estar descadastrando o seu empréstimo.
-A senhora não estaria dificultando as coisas? Eu só queria estar falando com a Jandira Figueira.
-Porque o senhor não disse antes? Para o senhor estar falando com nossos atendentes o senhor deve estar ligando no número 0800800666, onde o senhor poderá estar fazendo novos empréstimos ou anulando este que o senhor acabou de fazer e que não está concluído. Eu poderia estar fazendo uma pergunta para o senhor?
-Faz, vai.
-Por qual motivo o senhor estaria querendo anular o empréstimo?
-Porra! A senhora é louca?
-O senhor estaria me ofendendo?
-Não senhora, eu não estaria te ofendendo. Eu estou lhe ofendendo. Sua louca! Imprestável. Jandira!
Gritei seu nome algumas vezes bem alto em tom desesperado, até que o segurança da empresa veio me acalmar com um aperto na nuca que me fez calar e ajoelhar rapidamente e discretamente no tapete. Quase rezei ao sentir o peso daquela mão competente.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
O gigante falou bem perto do meu ouvidinho com aquela bocona cheia de dentes e uma voz grossa e retumbante.
-Não. Obrigado!
Respondi fino e com um meio sorriso tímido.
Saí de lá depois de ser afagado por aquele gentil senhor e voltei humilhado para o trabalho, sem almoçar, com as rosas murchas na mão, e os gerundios do gigante ressoando em meu cérebro. O pior é que agora ou eu concluía o empréstimo ou anulava por telefone. Liguei pro telefone e atendeu uma voz masculina que me fez lembrar os carinhos do segurança da empresa. Desliguei e tentei novamente. Duas, três vezes até que de repente Jandira Figueira atende com aquela voz de veludo.
-Meu amor!
Saiu naturalmente. Eu estava apaixonado.
-Desculpe senhor?
-Não desculpo.
-O senhor poderia estar passando o seu nome, telefone e endereço para que eu possa estar...
-Pára de falar assim Jandira. Eu quero te ver...
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada.
-Ótimo! Assim esses canalhas vão saber que não podem esconder você de mim.
-Assim o senhor está me prejudicando.
-Eu te amo e não posso viver sem você.
-...
-Fala alguma coisa.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
-De você Jandira.
-...
-JANDIRA!
De repente uma voz masculina atende o telefone e em tom grave, que me fez lembrar a docilidade dos seguranças, proferiu a sentença:
-O senhor tem quarenta e oito horas para efetuar ou não o seu empréstimo. Temos aqui o seu cadastro e os registros em vídeo de sua truculenta visita à nossa empresa. O senhor desejaria mais alguma coisa?
-...
-O senhor está aí? Após este prazo estaremos efetuando o arquivamento de seus dados.
-...
-Aguardamos a sua visita e desejamos uma boa tarde!
-...
Passadas as quarenta e oito horas resolvi não estar contraindo nenhum empréstimo e não estar mais me apaixonando por uma voz desconhecida. Acabou, assim, acabando tudo entre mim e ela.


Rômulo Augusto
06/10/2005