Faroeste Caboclo Cinema

Faroeste Caboclo Cinema
Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Colo de Mãe

Estava a caminho do trabalho, dentro do ônibus, e observando uma criança no colo de sua mãe senti um certo conforto. Tamanha segurança em seus olhos me despertou inveja. Na verdade quis ser ela ou ele, não sei ao certo o gênero do bebê, mas isto não tinha importância naquele momento.

Observei a mãe por um tempo e imaginei que ela era uma espécie de mamadeira em forma de mulher com seios grandes e estufados que jorravam leite. Isso me fez voltar a atenção novamente para a criança, que já se rendia a um cochilar hedonista. Me lembrei de quando era criança, da minha mãe.

Eu me projetei naquele pequeno ser, que inocente a todas as mazelas que estão por vir em sua vida de adulto, se esbanjava em estado de sonolência só possível naquela idade devido à sua condição de infanta no colo de sua mãe. A visão daquele bebê gerou em mim uma pulsão criativa que entre um breque e outro do ônibus me levou a pensar em ser novamente criança e, mais precisamente, um bebê. Fui olhando e caindo em um sono que me contagiou e me levou a sonhar. Sonhei que me tornava aquele bebê no colo daquela mãe peituda.


Mamãe começou a me balançar de um lado para o outro se ajeitando e se acomodando na cadeira dura do coletivo. Ela me jogou de banda e se levantou puxando a cordinha para o ônibus parar e ela descer me balançando um pouco mais, num trepidar desajeitado de seu andar sobre aquele salto alto de madeira que produzia um toc-toc e um arrastar de salto irritante que me fez chorar.
Comecei a sentir desconforto com a situação.

Ela foi pedindo:
Queta!
Queta!
Cala!
Quanto mais eu ouvia a sua voz mais eu chorava.
Cala menina! Percebi que eu era menina e não menino.
Chorei mais.
Queta! Pára de chorar porra!
Eu pensava:
Palavrão para um bebê não pode, não é certo. Eu tentava argumentar, mas só conseguia chorar. Chorei por ela e por mim. Eu ia crescer ouvindo aquelas palavras violentas e ia aprender a ser assim. E mais eu chorava e a minha mamãe ficava mais nervosa e lá vem choro e irritada ela chegava a me sacolejar e, claro, eu chorava mais.

Ela andou por alguns segundos entre gritos, balançadas e meu choro incessante até parar debaixo de uma árvore e me largar com truculência naquele gramado e à sombra.

Parei de chorar de súbito quando fui largado, ou melhor, largada, fui quase jogado debaixo daquela árvore, ou melhor, jogada.

Um longo tempo passou. Dez segundos, até eu perceber que estava só. E que minha mãe podia não voltar nunca mais. Pensei que sozinhos, eu e ela, - já que é só um sonho e eu não sou aquele bebê vou tratarmo-nos como nós – nós não sobreviveríamos aos mosquitos, às lagartas de fogo, aos pássaros, à chuva, aos cachorros do mato e ao que é pior, aos seres humanos que poderiam nos fazer mal. Alguém tinha que fazer alguma coisa, então, como eu era o mais velho e mais experiente ali, resolvi berrar.

Choramos juntos por longas horas, até que ao longe vindo em nossa direção a mamãe parecia uma Santa. Um alívio tomou conta de nossos corações no tempo em que ela voltava. Ela nos pegou no colo e sem mais delongas jogou o nosso corpinho em um saco preto e escuro. Por um tempo paramos de chorar até chorarmos com mais força ao percebermos que a mamãe não era Santa e queria na verdade se livrar da gente nos enfiando naquele saco de lixo preto e amarrando.
Começou a andar com a gente segurando o nó do saco e nos balançava como se carregasse um pedaço grande de carne. Antes os mosquitos, as lagartas de fogo, os pássaros, a chuva, os cachorros e o frio. Aquilo poderia ser o nosso fim.

Resolvemos para de chorar para ver se ela arrependia. Pensei que a culpa era minha por ter feito algo errado antes do sonho. Queria pedir desculpas, mamãe. Quando comecei a pedir desculpas um desespero tomou conta da gente e começamos a chorar muito e desesperadamente. Só ela poderia nos salvar e ela queria nos eliminar de forma cruel. Nossa mamãe irritada dava uns sopapos fortes no saco até nos calar com uma espécie de desmaio. O calor estava ficando insuportável naquele saco. Começamos a chorar novamente de sede e calor, além de fome que começávamos a sentir.

De repente tudo ficou meio fresquinho com um certo impacto freqüente que vinha de todos os lados e gerava um barulho ensurdecedor. Um certo alívio até chorarmos como loucos quando percebermos que nossa mamãe nos lançou ao rio.
Era o fim por asfixia ou afogamento. Este era nosso fim.

Parei pensei me vi como o líder ali e concluí que, se éramos dois eu não era aquele bebê de fato. Como aquilo era um sonho, cabia a mim, que era o mais velho naquele saco, acabar com o sonho, que já havia se tornado um pesadelo desmedido e trágico.

Acordei na penúltima parada de ônibus antes da minha e antes do afogamento ou asfixia. Procurei o bebê que eu observava antes de dormir e não o vi mais. A mãe desceu com ele e o levou a algum lugar.
Desejo sorte ao bebê.
Fui trabalhar aliviado por já ser adulto.
Fui trabalhar pensando na sorte dos bebês e de suas Santas mães.
Fiquei feliz pela sorte de ter tido uma mãe e um colo até aprender a andar e argumentar.

Rômulo Augusto 12/2007

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Mudança

Esta palavra quando era ouvida pelo nosso personagem servidor público, nível médio do Ministério das Minas e Energia, provocava nele uma espécie de depressão com arrepios seguidos de sono, muito sono. Ele sabia que qualquer tipo de mudança fazia sobrar mais trabalho para ele. Não que ele não fosse disposto a trabalhar e muito pelo contrario, na verdade o que o indignava era que sobrava mais trabalho para ele, justamente por ser ele um cara bem disposto. Não tinha o costume de observar a vida do outro, mas era inevitável perceber que quem ficava quieto no canto sem se dispor à nada acabava sendo beneficiado com o ócio.
Mudança de cargos implicava em mudança de nomes nos ofícios e memorandos, mudança de mobiliário e decoração. Ele adquiriu uma renite alérgica ao enfrentar quase anualmente quilos e mais quilos de poeira das freqüentes reformas feitas em seu local de trabalho. E, claro, sobrava para ele e seus colegas de nível médio carregar os papéis repletos de ácaros de um lado para o outro e sem deixar sumir nenhum processo ou documento.
Ele passou no concurso de nível médio, e tinha se formado em Direito. Tentou duas vezes o exame da Ordem dos Advogados sem sucesso e desistiu temporariamente de sua carreira de advogado. Soube naquela manhã que o Ministro iria cair. Pensou que mais mudanças iriam ocorrer. Tentou trabalhar no que estava fazendo, mas concluiu que seria inútil, pois não haveria continuidade. Ficou divagando por meio período e no outro período ficou jogando paciência. Logo veio a notícia de que a nova Coordenadora começaria no dia seguinte. Ele ficou imaginando que ela entraria na sala cheia de vontade de mudar tudo o que seu antecessor fez e sem saber se era um trabalho útil ou não, bom ou não. Parece que o importante no serviço público é isso mesmo, mudar a cara da repartição e estabelecer mudanças para que tudo mude ou pareça que esta mudando. Muda primeiro o gabinete, depois a disposição dos móveis e funcionários da seção e até mesmo o piso, que já está meio desgastado e o carpete, claro, provoca alergia. Ela chegou e iria se reunir com todos, individualmente, para inquirir cada um dos funcionários buscando mapear o perfil na perspectiva de ver quem daqueles iria ou não servir aos seus propósitos e quem ela poderia por à disposição para contratar uns companheiros que estão precisando trabalhar. Cargos de confiança. Cargo de confiança para os de fora. Quem confiaria nele? Um advogado que não passou no exame da Ordem dos Advogados e exerce cargo de nível médio, meio cabeludo e que não usa terno ou gravata, e ainda ajuda nas mudanças. Como alguém minimamente inteligente poderia ajudar a mudar uma coisa em seu desfavor? Quem ajudaria outro a mudar a sua própria vida para pior? O nosso companheiro Servidor sempre ajudou os outros a mudar a sua vida para pior. Teve uma vez que descobriram que ele conversava bem com o público. Começaram a enchê-lo de elogios. Os mais entusiastas queriam lançá-lo na política. Outros queriam que ele fosse o chefe. O que aconteceu foi que ele foi incumbido de representar o Ministério em uma daquelas feiras que ocorrem nos finais de semana onde os publicitários enchem a conta de dinheiro e nosso funcionário não ganha nem folga para compensar o trabalho no final de semana. Enfim, na sua primeira vez exerceu com estrema competência a nova função. Vaidoso falava melhor e com maior propriedade que o próprio Ministro, que ainda estava estudando o cargo, mas que já sabia que para o Ministério aparecer e gastar verba era necessário participar de feiras publicitárias. Enfim, o nosso companheiro era um faz tudo dos mais rasteiros. Como tinha competência até para ser Ministro todos sabiam que não chegaria nem a chefe de Divisão. Se considerarmos a sua alta disposição para o trabalho poderíamos supor que ele talvez fosse rebaixado aos serviços gerais ou a operador de telemarqueting. Ele era solteiro e morava só. Não tinha namorada ou amante. Corria um boato maldoso, típico de repartição pública, que o nosso companheiro era viado. Na verdade ele nunca foi viado e nem era religioso, como alguns pensavam. Por vezes, mais precisamente para provar que ele não é viado, quando saia o salário ele ia até a esquina de seu prédio para pegar uma ou duas prostitutas para uma farra compensadora, mas isto era sigiloso até para ele mesmo.
Coincidiu que depois da farra do mês ele chegou no trabalho um tanto relaxado e era o dia que a nova Coordenadora iria entrevistá-lo em particular. Ele e poucos de sua sala viram a Coordenadora e já corriam boatos diversos, que a elevavam aos píncaros da bondadade e aos rodapés da maldade.
A Coordenadora chegou na cidade às pressas, chamada pelo Ministro. Ela era uma mulher muito preparada. Sabia três línguas e além de economista era uma militante do Movimento Ecologista.
Estava hospedada em um hotel pequeno no Setor Hoteleiro Sul. Acordou às seis da manhã, tomou café e pegou um taxi:
– Parque da Cidade.
– Sim Senhora.
E que Senhora! Ela era uma Paulistana alta, esguia e ao mesmo tempo redonda. Todos os dias ela praticava esporte e era linda, realmente chamava a atenção quando passava. Ia ao salão de beleza toda semana para ficar ainda mais estonteante. Separada a mais de três anos estava decidida a não sair mais de Brasília e quem sabe até constituir família. Depois do esporte ela voltou para o hotel, tomou um banho, onde ouso apenas destacar que foi um banho especial para ela por se tratar de um banho onde ela usou o chuveirinho para relaxar se divertindo sexualmente. Passou um creme hidratante no corpo todo, vestiu a roupa de trabalho e partiu feliz. Como nada sei sobre moda feminina não saberia nomear com propriedade o tipo de roupa que vestia a Beldade.
Enfim, era uma saia preta justa e não muito curta com uma blusa azul clara decotada a exibir um colo perfeito pontilhado por sardas decorativas que só acrescentavam ao conjunto. Cabelos castanhos com mexas douradas ela era ainda por cima bem séria e sabia impor respeito. Simpática, apresentou-se e seguiu para seu gabinete. Iniciou a chamada por ordem alfabética. Levava cerca de cinco minutos com cada um e quando a pessoa saía do gabinete todos os outros queriam saber o que tinha acontecido. Tudo indicava que ela iria aproveitar a todos e que pelo fato de ser de outra cidade ela não teria gente dela para trabalhar.
– Senhor Thomas... Lá foi o nosso Companheiro com a auto-estima flutuante e visivelmente nervoso.
O tempo foi passando e ele não saía de dentro do gabinete. Entrou por volta das 10:30 da manhã e saíram os dois juntos para almoçar. Não voltou mais naquela tarde e no dia seguinte ele havia sido transferido para o gabinete do Ministro onde obteve um cargo de confiança e nunca mais foi visto na repartição em que trabalhava e muito menos em feiras publicitárias feitas pelo Ministério. Quem quizesse vê-lo teria que ir ao parque da cidade por volta das 7:00 da manhã onde estaria praticando esporte com sua mais nova namorada e quem sabe futura esposa.


Rômulo Augusto
11/2005

Classificados

Todos os dias, ao nascer do sol é possível ver uma revoada de pombos assustados saindo do beiral da janela do apartamento 207. Em horas variadas, às vezes mais de uma vez por dia, mas quase sempre ao nascer do sol. Os vizinhos sabem bem o motivo da revoada. A senhora, Amelita, moradora do 207 também sabe e sente na pele os pequenos sopapos de seu marido neurastênico que tomado por um de seus ataques de fúria, incisivo e bombástico acorda a sua senhora para fazer o café. Por vezes, os vizinhos pensavam em chamar a polícia ou invadir o apartamento para impedir a violência, mas o costume de ouvir os gritos tornavam as coisas normais e os vizinhos anestesiados, desistiam de tomar providências.
E sempre o Peixoto saía cuspindo fogo.
Ao entrar no elevador, de repente, se tornava outra pessoa: Bom dia! Que belo Dia!
Era sempre assim com o casal. Meia hora depois, saía dona Amelita, meio envergonhada, rumo à quitanda. Pensava no cardápio do almoço e andava de cabeça baixa até que uma poça d’água impede seu percurso em linha reta e ela é obrigada a olhar para o lado onde vê uma pequena loja de Classificados do jornal de maior circulação de sua cidade. Súbito resolve fazer um anúncio.
- Bom dia! Posso ajudá-la?
- Sim, eu gostaria de fazer um anúncio.
- Pois não.
- Eu vou falando e você escreve?
- Sim senhora, pode dizer.
- Vendo ou troco...excelente estado... forte, conservado... funciona perfeitamente quando manuseado com jeito... branco, troco por carro velho que ande ou vendo por dois mil reais... Tratar com Amelita.
- Só isto, Senhora?
- Só.
- Mas está incompleto.
- Como?
- A senhora deve botar o seu telefone e o que propriamente a senhora esta anunciando.
- O telefone eu digo. Agora a coisa? Tem que ser coisa?
- Como assim?
- Não pode ser pessoa?
- Não senhora!
Saiu daquele lugar bufando. Sentou por um instante no banco da praça com vários pombos em volta. Mirou um em particular que se movimentava com dificuldade, mio mancoeba, tomou distância e correu para a bicuda que pegou o pombo em cheio. O coitado voou por uns metros e caiu em seguida meio morto.
Ele não esperava uma reação como esta daquela senhora, que parecia tão pacata. Voltou para casa, não sem antes passar pela quitanda como sempre.
Na manhã seguinte com a habitual revoada de pombos só se ouviu o grito do seu Peixoto, que com aquela rotineira truculência não esperava ser o pombo da vez e levar de sua Senhora, tão pacata, uma bicuda certeira na região escrotal. Seu Peixoto nem saiu naquela manhã. Só dona Amelita saiu de casa hoje. Alegre e altiva ela cantarolava enquanto seguia rumo à quitanda e de olho nos pombos do caminho. Depois da quitanda pretendia sentar na praça para continuar seu treino, que agora seria diário.
Rômulo Augusto 29/03/2006

domingo, 16 de dezembro de 2007

Oscar

Minha sua mãe é cearense
Meu seu pai é mineiro
O sonho era Brasília
E por ela nasceu
Concreto
Nasci por um acaso político
Existo pelo concreto
Existo pelo moderno
Sonho verde
Da esperança
Verde coralit
Da minha kit


Rômulo 94

João de barro

Meu nome é João de barro
João de lágrimas nos olhos
João da cegueira louca por ti
João que não sabe não
João que não se entende
E que contente segue cantando
A canção
A canção vai ouvir
Cantar, cantar e cantar
E sofrer por você
Que não ouve a canção de pássaros cantando
Vai voando e cantando
Esperando o dia de ser feliz
E cantar e cantar e cantar
Encantar, encantar, encantar
E cantar e cantar e cantar
E assobiar na árvore dos frutos da terra da gente
E que não sente que nada vai passar
E passar e passar e passar
E passando e passando e passando
E passar e passar e passar
Amar o ar, ar, ar, ar, você
Que não cantou
Que não canta
E não se espanta
Com meu cantar
O cantar de João de barro

Rômulo 1990
Cabelo liso, loiro, leve, curto olhar no chão seco, que a faz coçar o nariz dos homens que chegam perto do cheiro que exala de sua pele branca e corada pelo sol amarelo sorriso a um ser invisível diante da presença e ela um gesto de boca que não beija fala horror de voz todos os olhares piscam voltam a correr, pegar, quebrar, virar, cair, chutar, gritar, falar, piscar.
A manhã vai
A tarde vem
À noite nem vê passar
E já é manhã
E lá vem ela
A mulher da voz horror
Calada.

Rômulo Augusto 12/93

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Frango de Asfalto

Antes mesmo de ser atraído pela rede de ligações entre as pessoas de seu meio, antes mesmo de ser capturado pelo caos urbano e pelas contrariedades fúteis do dia a dia, questionou o andamento da sua vida.
Tinha acordado tarde, estava atrasado e sem ânimo de lutar contra o atraso, então pensou que seu destino estava entregue às baratas. Não ligaria ao patrão para avisar e se sentaria ali até que alguma coisa acontecesse ou até que alguém lhe procurasse para mudar o curso do dia. A única coisa que sabia é que nada faria. Como um pacto consigo mesmo, não se moveria mecanicamente.
Estava disposto a só esperar e, mesmo assim, sem muita expectativa.
A sua expectativa era que alguém sentisse a sua falta no trabalho.
Por enquanto nada.
Mais um tempo e ainda nada.
Pensou que seria prudente planejar uma estratégia de ação que o redimisse de sua culpa no dia seguinte.
Mas não se sentia culpado de nada.
Dirá que estava doente. Mas não teria como conseguir um atestado médico, então pensou em dizer que houve um colapso mental e o plano de saúde não cobre médico psiquiatra, mas não sabia se ia colar.
Enquanto estava sentado, pensava em tudo o que fez na vida, nas coisas que possuía.
Seu pensamento continuava embaralhado e sem propósito.
Sabia que o emprego estava quase perdido.
Só lhe restava duas alternativas:
1-Continuar sentado até que endurecessem suas juntas, ou alguém resolvesse arrombar a porta e lhe tirar da passividade repugnante.
2-Levantar e enfrentar o patrão como o último ato de sobrevivência e dignidade.
Pensou muito e já não sabia se queria sobreviver, continuar nesta luta despropositada pela sobrevivência.
Seus filhos já criados...
Até pouco tempo não pensava duas vezes para levantar da cama, era automático.
Hoje, que ninguém depende dele...
Sabia que era melhor levantar, mas no dia anterior sua filha mais nova o visitou para contar que havia passado em um concurso para o Ministério público, o que estranhamente lhe causou uma espécie de revolta contida e inexprimível.
Sabia que aquilo era bom para ela. Ela, a menina do papai estava bem, conseguiu um emprego muito bom.
Pensou, pensou e quase gritou de raiva.
A filha tinha 24 anos completos e nunca havia trabalhado na vida e de um dia para o outro passou a ganhar mensalmente o quádruplo do que ele, seu pai, o financiador de seus estudos ganhava, e que já nem sabia se continuaria ganhando.
O fato é que a ascenção da filha provocou nele uma espécie de avaliação de sua própria vida e de seus desejos pessoais. Já não sabia mais se a sua dor era real ou fruto de sua maldade e mesquinharia. Pensou se realmente fez bem em se sacrificar tanto pelos filhos e fazê-los estudar e serem bem sucedidos.
Não quis nada na vida que não fosse uma transferência dos seus desejos irrealizados. O desejo dos filhos passou a ser, até aquele momento, sua razão de sobrevivência que agora acabou. Percebeu que agora ninguém vai mais procurá-lo, e que a sua força de trabalho não servia mais a ninguém a não ser a ele próprio. Então com certeza continuaria sentado ali, e sem direito à aposentadoria, e agora que mudou as regras ficou sabendo que teria que trabalhar até os 65 anos ou algo assim. Fez as contas do tanto que já trabalhou e o tanto que ainda trabalharia, somado o salário que era uma grande bosta que só lhe produzia dívidas no banco com juros altíssimos, quis continuar ali sentado e parar tudo.
E assim fez. Pensou, pensou e ficou um pouco mais puto com a capacidade de sua filha de passar em um concurso e ganhar tão bem. Será que ela saberá gastar esse dinheiro...
Pensou em pedir a tutela do salário, afinal a filha não tinha idade para ter um salário tão bom, logo, alguém tinha que cuidar daquela pequena fortuna mensal, e nada melhor que uma pessoa de confiança como o pai para uma tarefa tão ingrata. Como na infância, ela iria gastar tudo com balinha.
Pensou, pensou e se conformou, ela não ia topar um acordo.
Pensou, pensou e resolveu calcular a mesada que deu à filha durante tantos anos e o preço da faculdade o que lhe garantiria pelo menos metade do salário dela até a sua morte, a morte dele.
Pensou, pensou e não concluiu nada.
Sem condições para se levantar ficou olhando a fresta da porta do apartamento e viu a luz que se esforçava em entrar por baixo como um aviso de que havia uma luz no fim do túnel. Pensou, pensou e de repente viu os pés de alguém na fresta. Não bateram, não tocaram a campainha e nem falaram nada, enfiaram um envelope por baixo.
De longe, pareceu ser o boleto do aluguel.
Pensou, pensou e resolveu não apanhar o envelope.
Não tinha forças.
Não ia ter como pagar na data certa, então só olhou com desdém.
Devia ser umas onze da manhã quando começou a sentir um cheiro de frango assado, desses de calçada.
Como poderia?
Esses frangos de asfalto em geral são feitos em dias de feriado.
Será feriado?

Rômulo Augusto /Janeiro 2004

Meninas (homenagem ao deputado Benício Tavares)

Fiquei muito molhada esta noite. Meu vestido se perdeu na água. O dinheiro voou no vento. Eu vi de longe Jéssica pequenininha e linda no colo da minha mãe. Ela não chorava, só me olhava como um anjo! Ela era anjo no colo de uma santa. Minha mãe é uma santa. Ela sempre vem no meu sonho vestida de branco. Acho que minha mãe ajuda Deus a cuidar da gente, lá no céu. Adoro sonhar com ela. Eu adoro sonhar. A Jéssica tem dois anos. Eu tenho quinze.
Eu parei de sentir frio quando sonhei um sonho muito bom. Sonhei com um homem lindo! Parecia um Príncipe de olhos verdes e era gentil. Cuidava da minha filha e levava a gente para tomar sorvete e brincar no parque. Brincava e ria com a gente o dia inteirinho. Cantava e lia histórias de um livro que não acabava nunca. Toda noite tinha mais história no livro. Toda noite eu fico esperando sonhar com ele para ouvir mais história do livro.
Não sei ler direito. Quando eu fiquei grávida da Jéssica eu parei de estudar. Ela nasceu no dia do aniversário da minha mãe. Quando ela entrar para a escola eu vou voltar a estudar também, que eu já esqueci quase tudo.
Toda vez que estou trabalhando eu tento pensar em coisa boa, assim a dor passa. Penso no príncipe dos meus sonhos e na minha mãe tirando piolho da minha cabeça. Eu lembro que ela ficava um tempão tirando piolho e era tão bom, que eu até dormia.
Hoje eu já deitei duas vezes.
Um velho mal cheiroso e um moço bonito e rápido.
Têm outro moço que sempre vêm na quarta e fica comigo até sexta. Ele é bom e paga bem.
Ele tem um caminhão que dentro parece uma casa, mas ele não dorme nele.
Acho que ele é rico. Teve uma vez que ele me levou pro hotel e disse que gostava de mim. Com ele eu ganho por três dias e me deito só um pouco. Ele é meio triste, não fala muito.
Na ultima vez eu brinquei bastante, contei até piada. Puxei assunto para ver se ele alegrava. Ele não arredou o pé. Tava triste de verdade. Eu fiquei com dó dele. Não sabia o que fazer para agradar. Aí eu comecei a contar história da minha filha. As gracinhas. Ela é bem bonitinha. Eu enfeito ela, ponho a roupinha, o sapatinho. Ela fica igual às bonecas da minha mãe.
Quando minha mãe morreu deixou dez bonecas para eu cuidar.
Quando eu morrer a Jéssica é que vai cuidar delas. Eu já tenho quinze bonecas. Quinze com as dez da minha mãe. Eu adoro brincar de boneca. Eu até converso com elas.
Teve uma noite que eu sonhei que elas falavam comigo. Elas respondiam tudo o que eu perguntava. Eu conto tudo para elas. Agora eu conto também para a Jéssica. A Jéssica ainda não fala, mas ela vai falar. Eu vou contar tudo para ela, para ela saber como é a vida. Eu não sei direito como é a vida, mas eu sei que tem coisa boa e coisa ruim nessa vida. Isso eu sei porque eu sei. Vivendo. Sem viver não dá pra saber.
Esse rapaz que eu contei é bom! Eu sei, eu olho nos olhos dele e vejo. Tem uns que eu olho e não vejo nada. Tem uns que chegam aqui, que eu vejo ruindade. Esses graças a Deus vão embora rápido. Às vezes não pagam. Dizem que não foi bom e não querem pagar. Aí eu chamo o soldado. O Soldado é um moço meio pancada que protege as meninas aqui e caminhoneiro que deita e não paga fica marcado. O Soldado bate no cara todinho se ele não pagar.
O Soldado não tem medo de ninguém. Um dia ele levou um tiro e não morreu. Acho que é por isso que ele não tem medo de nada. Eu acho que ele não é louco. Ele parece meio doido, mas não é. Quando alguém vai morrer e não morre fica corajoso. Eu não acho ele doido. Ele só é sozinho e é muito forte, corajoso. Ele é bom.
Eu já quis deitar com ele de graça, mas não agüentei, porque ele é muito grande. Acho que é por isso que ele é sozinho. Não têm mulher que agüenta ele.
Eu contava da Jéssica pro moço e ele chorava mais. Eu falei para ele que a Jéssica era alegre e que não era para chorar. Toda criança traz alegria para o mundo.
Minha mãe dizia que quando uma criança morria o céu ganhava mais um anjo em forma de estrela. Não é só quando morre que a criança vira anjo. A minha Jéssica é um anjo e ta viva.
Deus me livre, que se ela morrer eu morro também. Ele chorou muito, de soluçar. Eu respeito tristeza. Quando a gente tá triste não adianta. Eu quando fico triste fico e pronto! Não tem nada que me alegra, só a Jéssica. A tristeza de adulto eu acho que é maior que a de criança. A tristeza da criança passa com o tempo, porque criança é anjo. Eu sou criança, mas não sou mais anjo não. Quando eu deitei com o primeiro eu deixei de ser anjo e tô deixando de ser criança porquê eu to crescendo, tenho a Jéssica. Meus peitos tão cada dia maior. Mas eu ainda adoro boneca. Acho que eu nunca mais vou deixar de gostar de boneca. Ah! Coitado do moço! Chorou até dormir. Dormiu chorando. Acordou com pressa pagou e foi embora no caminhão. Fui para casa morrendo de saudades da Jéssica. Quando eu tô trabalhando ela fica com meu pai. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos e meu pai é que cuida de mim. Ele adora a Jéssica. Meu pai acha que eu trabalho na rua pedindo. Ele não sabe que eu me deito. Se sabe não fala. Eu nunca vou contar para ninguém, nem para a Jéssica. Eu não quero que ela deite com homem não. Eu quero que ela fique anjo até casar. Quero que ela estude.
Ontem, eu ganhei quinze reais. Vou comprar um pratinho e uma colher para ela comer. Depois eu vou comprar um vestido de renda branco para batizar ela na igreja. Vai ter uma festa no rio e com o dinheiro vai dar para comprar o vestido e pagar o padre. Festa no rio é bom que tem comida e a gente ganha mais e antes de subir. O dinheiro fica fora do barco e a gente ganha mais dinheiro dentro do barco. Eles são de outra cidade. Tem até estrangeiro.
Às vezes tem mulher. Pedem para a gente beijar mulher e isso eu só faço se me der dez, porque eu não gosto de beijar mulher. Eles pedem de tudo... por traz. Teve um dia que eu ganhei trezentos reais numa festa.
O barco tava parado no porto antes do sol se pôr e o pessoal entrando. O final da tarde era lindo como nos meus sonhos com a mamãe.
Eu estava com preguiça, mas pensei na Jéssica, no batismo. Subi no barco só pensando no batismo do meu anjo. O primeiro homem que vi foi o Soldado olhando o rio. Tinha muita gente no barco. Cada menina que entrava ganhava uma cerveja. Tinha um homem sentado numa cadeira de rodas com dois sacos cheios de notas de dez. Seu corpo tremia. Ele era estranho. Parecia um louco.
Quando o barco começou a navegar eu senti um alívio. Os homens gritaram e começaram a agarrar todo mundo. O homem da cadeira de rodas me chamava. Eu fugi dele. Deitei com uns cinco e fiz de tudo, tive até que beijar três meninas.
O Soldado ficava lá parado e olhando. Quando as coisas acalmaram um moço me pegou pela mão e me levou para o fundo do barco. Ele tinha olhos verdes e parecia um pouco com o príncipe dos meus sonhos. Ele me levou lá para baixo pela mão, sozinha. Ele me fez um carinho na cabeça e disse para eu dormir. Pegou um livro igual aquele do sonho e contou uma história de uma menina pequena, bem pequena, igual uma sementinha. Depois da história ele me disse que ia dar um presente para a Jéssica. Fui adormecendo e sonhando que estava mergulhando no rio e nadando bem lá para o fundo. Fui vendo minha mãe no fundo da água com um bebê no colo, eu achei que era a Jéssica e quando eu cheguei perto era um bebê muito parecido com ela, mas era eu. Aí o bebê sumiu e ela me abraçou. Nos braços da mamãe eu vi o Soldado me puxando pelos cabelos para cima e para fora da água. Vi descer até o fundo a cadeira de rodas do homem estranho. Muita madeira quebrada desceu pro fundo do rio. Vi várias meninas nadando e se divertindo com os peixes. Eu já estava rindo da brincadeira quando minha mãe me beijou e disse:
-Vai brincar com as outras meninas meu anjo.
E assim eu fui brincar com as meninas e os peixes. A minha mãe me chamou de anjo. Ela não sabia que eu deitava com os homens e achava que eu era anjo igual à Jéssica. Quando olhei para minha mãe vi Jéssica em seu colo feliz e tranqüila me dando adeus com a mãozinha. O livro desceu e caiu nos braços da mamãe, ela abriu e começou a contar história para a Jéssica. Acho que o presente que o príncipe disse que ia dar para a Jéssica era o livro.
Acho que agora as coisas iam mudar pra gente.
Rômulo Augusto
20/10/2005

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Picolé de uva



O transporte público da minha cidade é muito precário. É bem ruim... É mesmo uma catástrofe. Os ônibus não passam com assiduidade, são velhos e quebram no meio do caminho. Alguns emperram e a porta trava e só abre com a ajuda do trocador, ou segue de porta aberta até acabar o roteiro do dia. Além disto são tão barulhentos que não se pode nem trocar uma idéia dentro do ônibus e o pobre motorista acaba se tornando, com o tempo, ou surdo ou louco. Nas paradas de ônibus o espaço é disputado com truculência pelos motoristas de vans, carros particulares, táxis fazendo lotação e claro o nosso protagonista o gigante ônibus. Uma vez avistei, depois de esperar muito, o meu ônibus. Aquele letreiro era quase explicito em minhas retinas: “casa”. Feliz, acenei para ele parar e do nada se enfiou em minha frente uma van espaçosa que impede que o motorista do ônibus perceba meu aceno. O resultado foi que além de eu ter perdido o tão esperado ônibus fui obrigado a entrar naquela lotação pequena e velha, depois da insistência daquele cobrador mal educado, que me pegou pelo braço quase provocando uma luta corporal. A saga continuou. A van estava abarrotada de homens. Uns perfumados e outros realmente fedidos. Todos espremidos e com cara de mal. Seguimos disfarçando as escoradas e fingindo certa naturalidade. O perueiro empurrava mais pessoas para dentro, até que alguém protestou irritado: Não cabe mais não porra! Esse protesto desencadeou uma revolta conjunta que obrigou o perueiro a parar de botar gente para dentro. A cada parada, todos que se aglutinavam na porta eram obrigados a descer da van para que os que estavam atrás pudessem sair. Enfim, uma situação que só se vê aqui na minha cidade. Será?
Toda manhã, rezo para passar ônibus e não van. Acho que colocar Deus nesses assuntos de transporte coletivo é uma heresia sem medida, mas às vezes se faz necessário quando preciso ir a alguma reunião importante e a necessidade de usar uma roupa mais elegante é premente, não sendo possível entrar em uma van fétida e apertada e sair todo amarrotado.
Não pensem que os ônibus são bons e limpos. Existem ônibus de quinze anos, dez anos iguais aos meus filhos e ao contrário do meu adolescente os ônibus parecem velhos decrépitos e moribundos com acessos de tosse e paradas cardíacas manifestadas sem nenhum aviso prévio aos passageiros, que são obrigados a descer e esperar a próxima condução que, talvez, venha atrás.
Existe uma empresa que ironicamente possui alguns ônibus novos e até mesmo confortáveis. E graças as minhas rezas, eles estão sempre na linha que atende o percurso do meu trabalho. Entro no veículo e me sinto um magnata até o motorista arrancar e demonstrar a sua absoluta falta de delicadeza com aquele automóvel quase de luxo e com este passageiro de estilo. Apresentados cenário e circunstâncias vou aos fatos. Certa vez, fui aos píncaros da cidadania quando sentado em uma das últimas cadeiras, perto da porta de saída, vejo do lado de fora uma menina gordinha de uns doze anos sentada em sua cadeira de rodas, chupando um picolé de uva, empurrada pela mãe com a intenção de subir no ônibus. Mais que depressa desço, apanho a menina no colo e em sincronia perfeita a mãe apanha a cadeira de rodas. Subo com a menina no colo com um certo receio de me sujar com o picolé de uva e pensando que ela ao invés de estar se esbanjando com um picolé daqueles deveria pensar em uma dieta urgente para emagrecer e facilitar situações como aquelas. Mãe e filha me agradeceram muito, muitíssimo, após eu, com muito esforço, ter colocado a gordinha na poltrona. Toda a situação me fez feliz e quase chorei comovido com a minha iniciativa solidária. Veio-me um arrependimento profundo de ter pensado em uma dieta para aquela pobre menina que, privada da alegria de correr e pular como as outras crianças, estava se lambuzando feliz com aquele inocente picolé. Realmente estava sendo frio e egoísta em querer privá-la de tal prazer degustativo. Em questão de segundos a minha opinião mudou ao sentir um certo frio na perna que estava com duas gotas de picolé de uva na calça bege. Quase reclamei com a mãe da menina, mas isto tiraria o brilho da minha boa ação. Aquelas gotas poderiam despertar o interesse de alguém no trabalho e eu poderia narrar os fatos e até ganhar um elogio rasgado. Ficaria no lucro apesar da calça suja de picolé de uva. Uns meses depois estava feliz novamente por ter embarcado naquela linha de ônibus. Entrei, dei bom dia ao motorista e ao cobrador ao qual paguei feliz a maior tarifa do Brasil e segui civilizadamente para o fundo do ônibus, sem esquecer de proferir um sincero e rotineiro obrigado.
Desde pequeno costumo observar as pessoas. Hoje ainda as observo, até por precaução. Observei que havia no ônibus vários passageiros bem fortes. Esta observação parece inútil, entretanto vai servir no percurso da história.
Depois de alguns quilômetros o ônibus pára e aparece um cadeirante na porta com um sorriso amarelo direcionado a mim, que estava justamente na direção da porta. Prontamente me levantei para ajudar e ao mesmo tempo retardo minha ação esperando um pouco para que os robustos em volta tenham alguma reação antes da minha. Nada. Aquele homem do lado de fora não precisaria se humilhar para nenhum troglodita. Se dependesse de mim ele não seria excluído. Sou um cidadão e garanto os direitos dos outros cidadãos. Desci observando o olhar alheio daqueles nutridos e inertes senhores. Alguns ao perceberem a situação e a minha prontidão diante dos fatos viraram o rosto olhando a paisagem na janela e ignorando a urgência da situação.
Perguntei ao cadeirante como poderia ajudar:
- Me pega aqui.
O cara respondeu apreensivo observando meu corpo franzino. Acho que teve medo de eu não agüentar o peso, mas como ele não estava, definitivamente, em condições de escolher um melhor ajudante e apesar de meus 60 quilos meu semblante inspirava confiança, teve que aceitar.
Peguei o cara no colo com jeito e lembrei com saudades da gordinha do picolé que parecia uma pena em comparação com o cara. Senti que poderia não agüentar o peso do rapaz, mas não tinha como voltar atrás. Seria uma humilhação desistir e pedir ajuda aos robustos trogloditas. Respirei fundo e subi. No segundo degrau senti uma forte fisgada na lombar direita. Quase soltei o indivíduo, mas novamente respirei fundo e fui até o fim. Depositei o homem na cadeira e ajeite suas pernas rapidamente caindo na minha cadeira ofegante. Logo em seguida um dos robustos se deu ao trabalho de pegar a cadeira e sem jeito entregá-la ao moço paraplégico que só sabia agradecer. Eu fiquei disfarçando a dor e resolvi perguntar:
- Quantos quilos?
- Setenta... normalmente.
Não sei bem o que ele quis dizer com “normalmente”. Normalmente para mim não era algo que se assemelhava ao normal ou comum. Aquele peso definitivamente não era normal. Pensei, depois do ocorrido, que eu deveria mudar certas praticas no ato de ir e vir.
Em primeiro lugar eu não me sentaria próximo à porta traseira dos ônibus.
Em segundo lugar seria menos atento e observador.
Em terceiro lugar eu não seria mais tão prestativo em coletivos.
Em quarto eu não poria mais Deus nestes assuntos, pois o fato de rezar atraiu para mim os necessitados de ajuda. Aconteceu uma espécie de milagre da caridade ao meu redor. Ainda me recupero da dor. Acho que as minhas limitações físicas impedem certas praticas caridosas. Ia me esquecendo de concluir que o transporte público da minha cidade é uma merda e não foi feito para todos os que precisam dele. Parece óbvio, mas não é para todos. Vai aí um recado para os políticos: Para saber o sabor do picolé de uva é necessário chupá-lo.
Rômulo
01/02/2006

domingo, 11 de novembro de 2007

Amor para dar.

Amor que não consigo dar.
Tantos espinhos pelo mundo eu espalhei!
Recebo amor inocente, delicado.
Recebo amor despretensioso.
E devolvo espinhos cortantes inúteis e desproporcionais.
Entretanto em mim parece só ter espinhos.
E como dói!
Nada mais posso dizer.
Só dói!

Tudo pode ser tão difícil!
Tudo pode ser tão fácil!
Em mim tudo parece tão cru!
Cru e áspero!
Entre tudo de ruim que há neste mundo
Surge você, Lótus no lodo.
Toda delicadeza do orvalho na pétala é você.
E eu o inseto destruidor!
Só dói!

Rômulo
03/11/2005

domingo, 30 de setembro de 2007

Amor sem avalista

Recebi na porta do trabalho um panfleto de empréstimo pessoal. Coisa muito comum nos dias de hoje e também antes de Dom Pedro II, quando resolveu acabar com a, dita, farra da agiotagem no Brasil instituindo a agiotagem oficial. Ele inaugurou, assim, a Caixa Econômica Federal e proibiu a agiotagem pirata. Entrou para a história concedendo empréstimo até para escravos, com a anuência de seus senhores, claro, e tudo dentro da lei e dos conformes. Assim, como na época de Dom Pedro II, temos que apresentar contra-cheque, avalista, comprovante de residência, SERASA, SPC e autorização do cônjuge para conseguir dinheiro na Caixa Econômica Federal.
Entretanto, como antes de Pedro II, a coisa corre frouxa. Lê-se nos panfletos : Rápido, fácil e sem avalista. Sem avalista? Raciocinava apreensivo:
-Se eu não pagar quem vai pagar por mim? Se eu morrer quem paga? Se eu não pagar o que acontece? E se eu sumir? Desconto em folha? Agilidade na liberação. Agilidade é sem dúvida uma grande vantagem. Quando precisamos de dinheiro é necessário agilidade. É bem verdade que quem têm pressa acaba comendo cru e quente. E acaba negociando precipitadamente juros mais altos que o concorrente.
Um desses panfletos dizia: compramos dívidas de outras consignatárias. Que incrível! Estão comprando dívidas. Acho que eu vou vender minhas dívidas e me mudar para o Caribe. Quem em seu juízo perfeito compraria uma dívida minha? A minha mãe talvez. Resolvi parar de pensar nessas coisas e jogar o panfleto no lixo. Do nada, como um sinal o celular toca e do outro lado ouço uma voz doce e macia que me deixa meio eufórico.
-Alô... quem é?
-Você não me conhece.
Delícia de voz feminina! Uma frase misteriosa. Com uma voz dessas eu até compro uma dívida bem alta.
-Como é seu nome, meu bem?
-Jandira Figueira, senhor.
-Realmente eu não te conheço, mas adoraria te conhecer.
Ela sorriu do outro lado da linha abrindo passagem para minhas intenções.
-O senhor teria cinco minutos?
Pensei que em cinco minutos não daria tempo para dar o devido tratamento à princesa.
-Não só teria como tenho todo o tempo do mundo para a voz mais encantadora do mundo!
Acho que ela até se arrepiou. Eu me arrepiei.
-O senhor está sendo muito gentil... Bom, eu queria estar mostrando para o senhor a nova e diferente maneira do senhor estar fazendo o seu empréstimo pessoal. O senhor gostaria de estar ouvindo a proposta?
Ao som de tantos gerúndios o meu tesão abaixou, mas eu ainda estava disposto a pegar aquela voz gostosa de jeito. Acho que na hora H ela ia gemer sem o Gerúndio.
-Não só gostaria como também quero estar ouvindo, enfim vai, fala meu bem....
Ela iniciou aquela ladainha de gerúndios intermináveis e eu fui lembrando que o salário já havia acabado e eu não tinha como convidá-la para sair, para jantar ou mesmo para aplacá-la num motel agradável.
-O senhor está aí?
Aquela pergunta direta e sem gerúndio me despertou.
-Sim, ao seu dispor. Pode estar continuando.
O gerúndio saiu meio artificial da minha boca, me fazendo refletir sobre até que ponto eu poderia chegar para comer alguém.
-Se o senhor estiver ocupado eu poderia estar ligando outra hora para estar passando as informações...
-A senhora pode falar agora mesmo, eu to praticamente desocupado. Alias eu to interessado mesmo é...
Pensei em dizer a verdade, mas a verdade mesmo no gerúndio poderia estar assustando a moça.
...em fazer um empréstimo. Qual é a taxa?
A partir daí eu notei que ela mudou o tom de voz. A velocidade aumentou e os gerúndios diminuíram. Resolvi tomar as rédeas da conversa e marcar um encontro pessoal.
-A moça não gostaria...
-O senhor não se preocupe que o seu cadastro será aprovado na hora e sem avalista. Não estaremos pesquisando a sua situação nos órgãos de proteção de crédito....
Como eu vou propor um encontro sem dinheiro? Acho que vou pedir logo este empréstimo e resolver o resto pessoalmente com ela.
-Ok, como faço para efetuar o empréstimo e obter o seu telefone para a gente gastar tudo juntos?
-...
-E aí? A senhora ta aí ainda? Como é, vai ou não me emprestar o dinheiro?
-Bom de quanto o senhor precisa?
-De uns...
Pensei em quinhentos para uma boa farra com a dona. Depois achei que se eu pedisse pouco ela não ia me dar o telefone, pois acharia que não valeria a pena sair com um cara duro como eu.
-Mil e quinhentos reais.
Nem pensei em como pagar, depois eu venderia a dívida.
Passei todos os dados esperando os dados dela. Minhas expectativas eram de dados novos e suculentos como devem ser os dados de uma mulher realmente apreciável e que vale o investimento de uma dívida.
-Agora é a sua vez!
-Desculpe senhor?
-Não têm do que se desculpar. Passa logo os seus dados para a gente se acertar.
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada. Gostaria de estar passando para o senhor o nosso endereço para que o senhor possa estar nos fazendo uma visita e assinando os papeis.
-Eu quero é o seu endereço, gata.
-O senhor pode estar anotando?
-Na hora.
Ela ditou com todos os gerúndios aquele endereço e se despediu cheia de gerúndios, que retribuí cheio de beijinhos de amor.
Fui direto na floricultura comprei meia dúzia de rosas vermelhas e corri para o endereço. Fui pensando em Jandira Figueira a suposta gata do tele-marqueting que eu iria conhecer e quem sabe um dia me casar.
-Boa tarde! Vim aqui concluir um empréstimo pessoal que fiz por telefone com a Jandira Figueira.
-Como é o seu nome?
Comecei a desconfiar que a Jandira Figueira não estaria lá. E que talvez eu não a conhecesse nunca mais.
-Eu queria concluir o empréstimo com a moça que me ligou.
-Senhor, esta não seria a função dela.
-Pois então agora é.
-Mas senhor, o senhor poderá estar fazendo este empréstimo com qualquer um de nós.
-Eu não poderia nem posso...escute eu só quis fazer este empréstimo por causa dela e vem você me dizer...
-Está certo senhor. O senhor não precisa estar se exaltando por isso. Nós vamos estar procurando a senhora...como seria mesmo o nome dela?
-O nome dela é Jandira Figueira. Jandira Figueira!
-O senhor poderia estar se sentando, que eu estarei providenciando um cafezinho na nossa copa...
-Vai...Vai.
-O senhor aceitaria um café?
-Eu aceito. Agora busca a moça.
Fiquei esperando. Esperei ansiosamente pela gata e nada. Depois de exatos dez minutos a mesma moça volta sem o café e diz:
-Eu poderia estar ajudando o senhor?
-Você poderia? A senhora não saiu daqui para buscar a Jandira Figueira?
-Desculpe senhor?
-Não desculpo. A senhora não saiu desta sala para buscá-la?
-A sim, claro! Que cabeça a minha!
-E então?
-Então o que senhor?
-Cadê a Jandira?
-Senhor, eu só poderei estar encontrando essa senhora se ainda estiver dentro do horário do respectivo turno dela.
Isso tudo ela falou olhando a tela do computador. Aquilo me deixou meio indignado. Levantei-me joguei as flores no banco em que estava sentado e disse:
-Ou a senhora chama a Jandira ou eu não faço empréstimo nenhum.
-Para o senhor estar anulando o seu empréstimo é necessário que o senhor esteja ligando para o nosso tele-atendimento para que possamos estar descadastrando o seu empréstimo.
-A senhora não estaria dificultando as coisas? Eu só queria estar falando com a Jandira Figueira.
-Porque o senhor não disse antes? Para o senhor estar falando com nossos atendentes o senhor deve estar ligando no número 0800800666, onde o senhor poderá estar fazendo novos empréstimos ou anulando este que o senhor acabou de fazer e que não está concluído. Eu poderia estar fazendo uma pergunta para o senhor?
-Faz, vai.
-Por qual motivo o senhor estaria querendo anular o empréstimo?
-Porra! A senhora é louca?
-O senhor estaria me ofendendo?
-Não senhora, eu não estaria te ofendendo. Eu estou lhe ofendendo. Sua louca! Imprestável. Jandira!
Gritei seu nome algumas vezes bem alto em tom desesperado, até que o segurança da empresa veio me acalmar com um aperto na nuca que me fez calar e ajoelhar rapidamente e discretamente no tapete. Quase rezei ao sentir o peso daquela mão competente.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
O gigante falou bem perto do meu ouvidinho com aquela bocona cheia de dentes e uma voz grossa e retumbante.
-Não. Obrigado!
Respondi fino e com um meio sorriso tímido.
Saí de lá depois de ser afagado por aquele gentil senhor e voltei humilhado para o trabalho, sem almoçar, com as rosas murchas na mão, e os gerundios do gigante ressoando em meu cérebro. O pior é que agora ou eu concluía o empréstimo ou anulava por telefone. Liguei pro telefone e atendeu uma voz masculina que me fez lembrar os carinhos do segurança da empresa. Desliguei e tentei novamente. Duas, três vezes até que de repente Jandira Figueira atende com aquela voz de veludo.
-Meu amor!
Saiu naturalmente. Eu estava apaixonado.
-Desculpe senhor?
-Não desculpo.
-O senhor poderia estar passando o seu nome, telefone e endereço para que eu possa estar...
-Pára de falar assim Jandira. Eu quero te ver...
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada.
-Ótimo! Assim esses canalhas vão saber que não podem esconder você de mim.
-Assim o senhor está me prejudicando.
-Eu te amo e não posso viver sem você.
-...
-Fala alguma coisa.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
-De você Jandira.
-...
-JANDIRA!
De repente uma voz masculina atende o telefone e em tom grave, que me fez lembrar a docilidade dos seguranças, proferiu a sentença:
-O senhor tem quarenta e oito horas para efetuar ou não o seu empréstimo. Temos aqui o seu cadastro e os registros em vídeo de sua truculenta visita à nossa empresa. O senhor desejaria mais alguma coisa?
-...
-O senhor está aí? Após este prazo estaremos efetuando o arquivamento de seus dados.
-...
-Aguardamos a sua visita e desejamos uma boa tarde!
-...
Passadas as quarenta e oito horas resolvi não estar contraindo nenhum empréstimo e não estar mais me apaixonando por uma voz desconhecida. Acabou, assim, acabando tudo entre mim e ela.


Rômulo Augusto
06/10/2005

Classificados

Todos os dias, ao nascer do sol é possível ver uma revoada de pombos assustados saindo do beiral da janela do apartamento 305. Em horas variadas, às vezes mais de uma vez por dia, mas quase sempre ao nascer do sol. Os vizinhos sabem bem o motivo da revoada. A senhora, Amelita, moradora do 305 também sabe e sente na pele os pequenos sopapos de seu marido neurastênico que tomado por um de seus ataques de fúria, incisivo e bombástico acorda a sua senhora para fazer o café. Por vezes, os vizinhos pensavam em chamar a polícia ou invadir o apartamento para impedir a violência, mas o costume de ouvir os gritos tornavam as coisas normais e os vizinhos anestesiados, desistiam de tomar providências.
E sempre o Peixoto saía cuspindo fogo. Ao entrar no elevador, de repente, se tornava outra pessoa: Bom dia! Que belo Dia!
Era sempre assim com o casal. Meia hora depois, saía dona Amelita, meio envergonhada, rumo à quitanda. Pensava no cardápio do almoço e andava de cabeça baixa até que uma poça d’água impede seu percurso em linha reta e ela é obrigada a olhar para o lado onde vê uma pequena loja de Classificados do jornal de maior circulação de sua cidade. Súbito resolve fazer um anuncio.
- Bom dia! Posso ajudá-la?
- Sim, eu gostaria de fazer um anúncio.
- Pois não.
- Eu vou falando e você escreve?
- Sim senhora, pode dizer.
- Vendo ou troco...excelente estado... forte, conservado... branco, funciona perfeitamente quando manuseado com jeito... Troco por carro velho que ande ou vendo por dois mil reais... Tratar com Amelita.
- Só isto, Senhora?
- Só.
- Mas esta incompleto.
- Como?
- A senhora deve botar o seu telefone e o que propriamente a senhora esta anunciando.
- O telefone eu digo. Agora a coisa? Tem que ser coisa?
- Como assim?
- Não pode ser pessoa?
- Não senhora!
Saiu daquele lugar bufando. Sentou por um instante no banco da praça com vários pombos em volta. Mirou um em particular que se movimentava com dificuldade, tomou distância e correu para a bicuda que pegou o pombo em cheio. O coitado voou por uns metros e caiu em seguida meio morto. Ele não esperava uma reação como esta daquela senhora, que parecia tão pacata. Voltou para casa, não sem antes passar pela quitanda como sempre.
Na manhã seguinte com a habitual revoada de pombos só se ouviu o grito do seu Peixoto, que com aquela rotineira truculência não esperava ser o pombo da vez e levar daquela Senhora tão pacata uma bicuda certeira na região escrotal. Seu Peixoto nem saiu naquela manhã. Só dona Amelita saiu de casa hoje. Alegre e altiva ela cantarolava enquanto seguia rumo à quitanda e de olho nos pombos do caminho. Depois da quitanda pretendia sentar na praça para continuar seu treino, que agora seria diário.
Rômulo Augusto 29/03/2006

Frango de Asfalto

Antes mesmo de ser atraído pela rede de ligações entre as pessoas de seu meio, antes mesmo de ser capturado pelo caos urbano e pelas contrariedades fúteis do dia a dia, questionou o andamento da sua vida.
Tinha acordado tarde, estava atrasado e sem ânimo de lutar contra o atraso, então pensou que seu destino estava entregue às baratas. Não ligaria ao patrão para avisar e se sentaria ali até que alguma coisa acontecesse ou até que alguém lhe procurasse para mudar o curso do dia. A única coisa que sabia é que nada faria. Como um pacto consigo mesmo, não se moveria mecanicamente.
Estava disposto a só esperar e, mesmo assim, sem muita expectativa.
A sua expectativa era que alguém sentisse a sua falta no trabalho.
Por enquanto nada.
Mais um tempo e ainda nada.
Pensou que seria prudente planejar uma estratégia de ação que o redimisse de sua culpa no dia seguinte.
Mas não se sentia culpado de nada.
Dirá que estava doente. Mas não teria como conseguir um atestado médico, então pensou em dizer que houve um colapso mental e o plano de saúde não cobre médico psiquiatra, mas não sabia se ia colar.
Enquanto estava sentado, pensava em tudo o que fez na vida, nas coisas que possuía.
Seu pensamento continuava embaralhado e sem propósito.
Sabia que o emprego estava quase perdido.
Só lhe restava duas alternativas:
1-Continuar sentado até que endurecesse suas juntas, ou alguém resolvesse arrombar a porta e lhe tirar da passividade repugnante.
2-Levantar e enfrentar o patrão como o último ato de sobrevivência e dignidade.
Pensou muito e já não sabia se queria sobreviver, continuar nesta luta despropositada pela sobrevivência.
Seus filhos já criados...
Até pouco tempo não pensava duas vezes para levantar da cama, era automático.
Hoje, que ninguém depende dele...
Sabia que era melhor levantar, mas no dia anterior sua filha mais nova o visitou para contar que havia passado em um concurso para o Ministério público, o que estranhamente lhe causou uma espécie de revolta contida e inexprimível.
Sabia que aquilo era bom para ela. Ela, a menina do papai estava bem, conseguiu um emprego muito bom.
Pensou, pensou e quase gritou de raiva.
A filha tinha 24 anos completos e nunca havia trabalhado na vida e de um dia para o outro passou a ganhar mensalmente o quádruplo do que ele, seu pai, o financiador de seus estudos ganhava, e que já nem sabia se continuaria ganhando.
O fato é que a ascenção da filha provocou nele uma espécie de avaliação de sua própria vida e de seus desejos pessoais. Já não sabia mais se a sua dor era real ou fruto de sua maldade e mesquinharia. Pensou se realmente fez bem em se sacrificar tanto pelos filhos e fazê-los estudar e serem bem sucedidos.
Não quis nada na vida que não fosse uma transferência dos seus desejos irrealizados. O desejo dos filhos passou a ser até aquele momento sua razão de sobrevivência, e agora acabou. Percebeu que agora ninguém vai mais procurá-lo, e que a sua força de trabalho não servia mais a ninguém a não ser a ele próprio. Então com certeza continuaria sentado ali ,e sem direito à aposentadoria, e agora que mudou as regras ficou sabendo que teria que trabalhar até os 65 anos ou algo assim. Fez as contas do tanto que já trabalhou e o tanto que ainda trabalharia, somado o salário que era uma grande bosta que só lhe produzia dívidas no banco com juros altíssimos, quis continuar ali sentado e parar com tudo.
E assim fez. Pensou, pensou e ficou um pouco mais puto com a capacidade de sua filha de passar em um concurso e ganhar tão bem. Será que ela saberá gastar esse dinheiro...
Pensou em pedir a tutela do salário, afinal a filha não tinha idade para ter um salário tão bom, logo, alguém tinha que cuidar daquela pequena fortuna mensal, e nada melhor que uma pessoa de confiança como o pai para uma tarefa tão ingrata. Como na infância, ela iria gastar tudo com balinha.
Pensou, pensou e se conformou, ela não ia topar um acordo.
Pensou, pensou e resolveu calcular a mesada que deu à filha durante tantos anos e o preço da faculdade o que lhe garantiria pelo menos metade do salário dela até a sua morte, a morte dele.
Pensou, pensou e não concluiu nada.
Sem condições para se levantar ficou olhando a fresta da porta do apartamento e viu a luz que se esforçava em entrar por baixo como um aviso de que havia uma luz no fim do túnel. Pensou, pensou e de repente viu os pés de alguém na fresta. Não bateram, não tocaram a campainha e nem falaram nada, enfiaram um envelope por baixo.
De longe, pareceu ser o boleto do aluguel.
Pensou, pensou e resolveu não apanhar o envelope.
Não tinha forças.
Não ia ter como pagar na data certa, então só olhou com desdém.
Devia ser umas onze da manhã quando começou a sentir um cheiro de frango assado, desses de calçada.
Como poderia?
Esses frangos de asfalto em geral são feitos em dias de feriado.
Será feriado?

Rômulo Augusto /Janeiro 2004

Classificados


Todos os dias, ao nascer do sol é possível ver uma revoada de pombos assustados saindo do beiral da janela do apartamento 305. Em horas variadas, às vezes mais de uma vez por dia, mas quase sempre ao nascer do sol. Os vizinhos sabem bem o motivo da revoada. A senhora, Amelita, moradora do 305 também sabe e sente na pele os pequenos sopapos de seu marido neurastênico que tomado por um de seus ataques de fúria, incisivo e bombástico acorda a sua senhora para fazer o café. Por vezes, os vizinhos pensavam em chamar a polícia ou invadir o apartamento para impedir a violência, mas o costume de ouvir os gritos tornavam as coisas normais e os vizinhos anestesiados, desistiam de tomar providências.
E sempre o Peixoto saía cuspindo fogo. Ao entrar no elevador, de repente, se tornava outra pessoa: Bom dia! Que belo Dia!
Era sempre assim com o casal. Meia hora depois, saía dona Amelita, meio envergonhada, rumo à quitanda. Pensava no cardápio do almoço e andava de cabeça baixa até que uma poça d’água impede seu percurso em linha reta e ela é obrigada a olhar para o lado onde vê uma pequena loja de Classificados do jornal de maior circulação de sua cidade. Súbito resolve fazer um anuncio.
- Bom dia! Posso ajudá-la?
- Sim, eu gostaria de fazer um anúncio.
- Pois não.
- Eu vou falando e você escreve?
- Sim senhora, pode dizer.
- Vendo ou troco...excelente estado... forte, conservado... branco, funciona perfeitamente quando manuseado com jeito... Troco por carro velho que ande ou vendo por dois mil reais... Tratar com Amelita.
- Só isto, Senhora?
- Só.
- Mas esta incompleto.
- Como?
- A senhora deve botar o seu telefone e o que propriamente a senhora esta anunciando.
- O telefone eu digo. Agora a coisa? Tem que ser coisa?
- Como assim?
- Não pode ser pessoa?
- Não senhora!
Saiu daquele lugar bufando. Sentou por um instante no banco da praça com vários pombos em volta. Mirou um em particular que se movimentava com dificuldade, tomou distância e correu para a bicuda que pegou o pombo em cheio. O coitado voou por uns metros e caiu em seguida meio morto. Ele não esperava uma reação como esta daquela senhora, que parecia tão pacata. Voltou para casa, não sem antes passar pela quitanda como sempre.
Na manhã seguinte com a habitual revoada de pombos só se ouviu o grito do seu Peixoto, que com aquela rotineira truculência não esperava ser o pombo da vez e levar daquela Senhora tão pacata uma bicuda certeira na região escrotal. Seu Peixoto nem saiu naquela manhã. Só dona Amelita saiu de casa hoje. Alegre e altiva ela cantarolava enquanto seguia rumo à quitanda e de olho nos pombos do caminho. Depois da quitanda pretendia sentar na praça para continuar seu treino, que agora seria diário.
Rômulo Augusto 29/03/2006

Picolé de uva

O transporte público da minha cidade é muito precário. É bem ruim... É mesmo uma catástrofe. Os ônibus não passam com assiduidade, são velhos e quebram no meio do caminho. Alguns emperram e a porta trava e só abre com a ajuda do trocador, ou segue de porta aberta até acabar o roteiro do dia. Além disto são tão barulhentos que não se pode nem trocar uma idéia dentro do ônibus e o pobre motorista acaba se tornando, com o tempo, ou surdo ou louco. Nas paradas de ônibus o espaço é disputado com truculência pelos motoristas de vans, carros particulares, táxis fazendo lotação e claro o nosso protagonista o gigante ônibus. Uma vez avistei, depois de esperar muito, o meu ônibus. Aquele letreiro era quase explicito em minhas retinas: “casa”. Feliz, acenei para ele parar e do nada se enfiou em minha frente uma van espaçosa que impede que o motorista do ônibus perceba meu aceno. O resultado foi que além de eu ter perdido o tão esperado ônibus fui obrigado a entrar naquela lotação pequena e velha, depois da insistência daquele cobrador mal educado, que me pegou pelo braço quase provocando uma luta corporal. A saga continuou. A van estava abarrotada de homens. Uns perfumados e outros realmente fedidos. Todos espremidos e com cara de mal. Seguimos disfarçando as escoradas e fingindo certa naturalidade. O perueiro empurrava mais pessoas para dentro, até que alguém protestou irritado: Não cabe mais não porra! Esse protesto desencadeou uma revolta conjunta que obrigou o perueiro a parar de botar gente para dentro. A cada parada, todos que se aglutinavam na porta eram obrigados a descer da van para que os que estavam atrás pudessem sair. Enfim, uma situação que só se vê aqui na minha cidade. Será?
Toda manhã, rezo para passar ônibus e não van. Acho que colocar Deus nesses assuntos de transporte coletivo é uma heresia sem medida, mas às vezes se faz necessário quando preciso ir a alguma reunião importante e a necessidade de usar uma roupa mais elegante é premente, não sendo possível entrar em uma van fétida e apertada e sair todo amarrotado.
Não pensem que os ônibus são bons e limpos. Existem ônibus de quinze anos, dez anos iguais aos meus filhos e ao contrário do meu adolescente os ônibus parecem velhos decrépitos e moribundos com acessos de tosse e paradas cardíacas manifestadas sem nenhum aviso prévio aos passageiros, que são obrigados a descer e esperar a próxima condução que, talvez, venha atrás.
Existe uma empresa que ironicamente possui alguns ônibus novos e até mesmo confortáveis. E graças as minhas rezas, eles estão sempre na linha que atende o percurso do meu trabalho. Entro no veículo e me sinto um magnata até o motorista arrancar e demonstrar a sua absoluta falta de delicadeza com aquele automóvel quase de luxo e com este passageiro de estilo. Apresentados cenário e circunstâncias vou aos fatos. Certa vez, fui aos píncaros da cidadania quando sentado em uma das últimas cadeiras, perto da porta de saída, vejo do lado de fora uma menina gordinha de uns doze anos sentada em sua cadeira de rodas, chupando um picolé de uva, empurrada pela mãe com a intenção de subir no ônibus. Mais que depressa desço, apanho a menina no colo e em sincronia perfeita a mãe apanha a cadeira de rodas. Subo com a menina no colo com um certo receio de me sujar com o picolé de uva e pensando que ela ao invés de estar se esbanjando com um picolé daqueles deveria pensar em uma dieta urgente para emagrecer e facilitar situações como aquelas. Mãe e filha me agradeceram muito, muitíssimo, após eu, com muito esforço, ter colocado a gordinha na poltrona. Toda a situação me fez feliz e quase chorei comovido com a minha iniciativa solidária. Veio-me um arrependimento profundo de ter pensado em uma dieta para aquela pobre menina que, privada da alegria de correr e pular como as outras crianças, estava se lambuzando feliz com aquele inocente picolé. Realmente estava sendo frio e egoísta em querer privá-la de tal prazer degustativo. Em questão de segundos a minha opinião mudou ao sentir um certo frio na perna que estava com duas gotas de picolé de uva na calça bege. Quase reclamei com a mãe da menina, mas isto tiraria o brilho da minha boa ação. Aquelas gotas poderiam despertar o interesse de alguém no trabalho e eu poderia narrar os fatos e até ganhar um elogio rasgado. Ficaria no lucro apesar da calça suja de picolé de uva. Uns meses depois estava feliz novamente por ter embarcado naquela linha de ônibus. Entrei, dei bom dia ao motorista e ao cobrador ao qual paguei feliz a maior tarifa do Brasil e segui civilizadamente para o fundo do ônibus, sem esquecer de proferir um sincero e rotineiro obrigado.
Desde pequeno costumo observar as pessoas. Hoje ainda as observo, até por precaução. Observei que havia no ônibus vários passageiros bem fortes. Esta observação parece inútil, entretanto vai servir no percurso da história.
Depois de alguns quilômetros o ônibus pára e aparece um cadeirante na porta com um sorriso amarelo direcionado a mim, que estava justamente na direção da porta. Prontamente me levantei para ajudar e ao mesmo tempo retardo minha ação esperando um pouco para que os robustos em volta tenham alguma reação antes da minha. Nada. Aquele homem do lado de fora não precisaria se humilhar para nenhum troglodita. Se dependesse de mim ele não seria excluído. Sou um cidadão e garanto os direitos dos outros cidadãos. Desci observando o olhar alheio daqueles nutridos e inertes senhores. Alguns ao perceberem a situação e a minha prontidão diante dos fatos viraram o rosto olhando a paisagem na janela e ignorando a urgência da situação.
Perguntei ao cadeirante como poderia ajudar:
- Me pega aqui.
O cara respondeu apreensivo observando meu corpo franzino. Acho que teve medo de eu não agüentar o peso, mas como ele não estava, definitivamente, em condições de escolher um melhor ajudante e apesar de meus 60 quilos meu semblante inspirava confiança, teve que aceitar.
Peguei o cara no colo com jeito e lembrei com saudades da gordinha do picolé que parecia uma pena em comparação com o cara. Senti que poderia não agüentar o peso do rapaz, mas não tinha como voltar atrás. Seria uma humilhação desistir e pedir ajuda aos robustos trogloditas. Respirei fundo e subi. No segundo degrau senti uma forte fisgada na lombar direita. Quase soltei o indivíduo, mas novamente respirei fundo e fui até o fim. Depositei o homem na cadeira e ajeite suas pernas rapidamente caindo na minha cadeira ofegante. Logo em seguida um dos robustos se deu ao trabalho de pegar a cadeira e sem jeito entregá-la ao moço paraplégico que só sabia agradecer. Eu fiquei disfarçando a dor e resolvi perguntar:
- Quantos quilos?
- Setenta... normalmente.
Não sei bem o que ele quis dizer com “normalmente”. Normalmente para mim não era algo que se assemelhava ao normal ou comum. Aquele peso definitivamente não era normal. Pensei, depois do ocorrido, que eu deveria mudar certas praticas no ato de ir e vir.
Em primeiro lugar eu não me sentaria próximo à porta traseira dos ônibus.
Em segundo lugar seria menos atento e observador.
Em terceiro lugar eu não seria mais tão prestativo em coletivos.
Em quarto eu não poria mais Deus nestes assuntos, pois o fato de rezar atraiu para mim os necessitados de ajuda. Aconteceu uma espécie de milagre da caridade ao meu redor. Ainda me recupero da dor. Acho que as minhas limitações físicas impedem certas praticas caridosas. Ia me esquecendo de concluir que o transporte público da minha cidade é uma merda e não foi feito para todos os que precisam dele. Parece óbvio, mas não é para todos. Vai aí um recado para os políticos: Para saber o sabor do picolé de uva é necessário chupá-lo.
Rômulo
01/02/2006

Matar o Tempo

Arrumou aquele emprego público por influência de um parente depois de três anos desempregado mesmo tendo nível superior. Era jornalista. O salário daria para o básico e mais algum luxo. Não trabalharia em sua área, faria serviços burocráticos em geral. Estava decidido a aproveitar cada momento de ócio, comum no serviço público federal, para a observação distanciada dos aspectos mais mundanos e corriqueiros dos futuros colegas de trabalho.
Achava que os colegas seriam fontes inspiradoras de um belo livro sobre o comportamento e personalidade de personagens problemáticos e mesquinhos. Imaginou encontrar um mar de carências e um oco de intelectualidade.
“Os Funcionários”, seria, provavelmente, o título do livro.
O dia anterior:Expectativa de ingressar no trabalho. A vontade de começar deixava-o com frio na barriga e sem sono. Lembrou-se de todos os primeiros dias de aulas de sua vida, todos cercados de muita apreensão e medo do desconhecido. Teve um fatídico dia que urinou nas calças em plena sala de aula na frente de todos os colegas. Um vexame traumático que está gravado em sua memória até hoje.
Hoje, já com 35 anos, era apenas insônia, provocada pela ansiedade, o que sentia. Sabia que suas funções orgânicas eram controláveis, pelo menos algumas delas.
Dormiu mal e só como era habitual. Teve pesadelos e suores noturnos que o levou a acordar durante a madrugada. Por volta das cinco da madrugada caiu em um sono profundo.
O primeiro dia:Acordou atrasado e não muito bem. Ainda zonzo chegou e já foi apresentado a todos os colegas, sentindo que além de frias boas vindas nada mais lhe seria dito ou aconteceria, nenhuma instrução sobre o serviço, nada. Tanto melhor. Tentou se situar em uma mesa que estava desocupada e mal colocada num canto não muito iluminado da sala.Gavetas duras de abrir.Superfície gasta e encardida.Computador lento e obsoleto conectado à internet. Dissimulou alguma concentração que mal o convencia e que ninguém na sala se importava. Lembrou de uma musica do Arnaldo Antunes que dizia em seu refrão: “Vamos matar o tempo!” e essa não saía de sua cabeça. O tempo passou até bem rápido, mas nada de interessante aconteceu além da morte do tempo sem choro nem enterro.
O segundo dia: A caminho do trabalho se gabava em pensamento de sua pontualidade e disposição para matar o tempo. Começou a cantar a musica do Arnaldo e se distraiu passando do trabalho alguns quarteirões e se atrasando alguns minutos.
Lamentou: Estava indo tudo bem. Sabia que teria de repor o atraso. O ponto eletrônico passou a ser uma preocupação. Chegou, se desculpou meio ao vento, ainda não tinha sido apresentado ao chefe e não sabia a quem prestar satisfações. Sentou e ligou o computador. Enquanto ele começava a funcionar observou que a moça magrinha da segunda mesa depois do banheiro vertia lágrimas discretas e sentidas. Cíntia chorava profundamente e em silêncio. Olhava com olhos perdidos a paisagem urbana da janela e suspirava. Pronto, sentiu que o ócio criativo tomou o espaço cerebral e enfim daria início ao seu estudo literário. A sala ainda estava meio vazia e assim ele iniciou:
“Ela tentava pensar em Deus para suportar a dor de ser o que era, uma mulher sem amigos e sem filhos e sem esperança de ao menos se casar. Pensava no tempo de escola....
Ele parou, olhou para ela que já não chorava mais e simplesmente sorria a olhar a tela do computador.
Uma moça magra e inexpressiva como ela não poderia se casar facilmente e nem ter muitos amigos...
Parou, olhou novamente e começou a pensar ao contrario.
A moça, afinal, havia despertado o seu interesse. Não conseguiu se concentrar mais e perdeu o fio da meada, deveria começar a escrever novamente e de outra forma. O tempo passou mais devagar que ontem e matar o tempo já não foi tão agradável quanto ontem, veio recheado de alguma angustia e incômodo. Foi pra casa com uma sensação de inutilidade, com a imagem da moça pregada na memória e com seu nome na cabeça. Cíntia.
Terceiro dia: Chegou pontualmente e cheio de idéias sentou e começou de onde tinha parado, do choro de Cíntia. “Ela tentava pensar em Deus para suportar a dor de ser o que era, uma mulher sem amigos e sem filhos e sem esperança de ao menos se casar. Pensava no tempo de escola do quanto era radiante e de como viu todos os amigos serem felizes realizando seus sonhos e ela ali, naquela repartição mastigando suas vértebras sentada naquela cadeira dura. Cíntia chorava e já nem sabia porque...
Ele parou de escrever para tomar um café e ficou observando a sala de longe. Não se sentia tão diferente dos outros colegas, ao contrario, estava ficando um pouco preocupado com uma certa dor nas costas que sentiu na noite anterior, dor jamais sentida. Veio o Arnaldo em sua cabeça, “vamos matar o tempo”, em seguida foi se sentar na cadeira sem pensar, automaticamente.Tentou iniciar a escrita.
“Cíntia chorava e já nem sabia porque. Nunca lhe faltou o necessário para viver e ela ainda precisava de mais, só não sabia o quê. De repente na cabeça de Cíntia veio a imagem de um corpo masculino castrado, sem pênis...”
Parou de escrever, já havia ido longe demais. Um corpo masculino castrado podia não levar a nenhum lugar, tinha de recomeçar a escrita.
Pensou em algo interessante e percebeu que da sua cabeça só vinham coisas descabidas e nada concistentes, então parou. Começou a reconhecer que não estava muito distante de seus colegas e que seu modo de vida era o mesmo. Estava se sentindo cada vez mais envolvido com aquelas pessoas, que até então ele só tinha críticas distanciadas e cheias de estereótipos.
À noite:Viu um pouco de tv e tentou dormir cedo.
Fechava os olhos e a imagem de Cíntia chorando vinha aos seus sonhos como um pesadelo. Levantou e pegou um livro para ler, quem sabe dormiria com outras coisas na cabeça. Uma idéia é só o que queria, uma idéia. Teve um sonho estranho. A sua casa havia sido invadida por uma tropa do exército que lhe acusava de ter abusado sexualmente de uma moça virgem chamada Cíntia. Foi preso e condenado à morte. Quando estava pronto para ser fuzilado desmaiou.
Quarto dia:Acordou de súbito e saiu apressado. Atrasado, já quase meia hora, pegou uma via expressa que o levaria mais rápido ao trabalho. Dessa vez algo havia acontecido, além da canção do Arnaldo ele tinha uma idéia na cabeça. Por um instante sentiu um prazer enorme e quase um desejo sexual por Cíntia. Cerrou os olhos por um segundo e pisou mais fundo o acelerador. Um segundo eterno e silencioso sem a trilha do Arnaldo. De repente, um barulho inédito para seu ouvido e um impacto na lataria de seu carro o fez frenar com violência e abrir os olhos. Sabia. Atropelou. Um segundo rápido. A canção do Arnaldo. Gente? Animal?Desceu do carro e correu em direção ao pequeno pacote sangrento no chão. Uma mulher. Um olhar. O ultimo desejo. Um beijo. Não ia mais matar o tempo. Cíntia iria se atrasar para sempre.
Rômulo Augusto 01/2004

sábado, 29 de setembro de 2007

Meninas

Fiquei muito molhada esta noite. Meu vestido se perdeu na água. O dinheiro voou no vento. Eu vi de longe Jéssica pequenininha e linda no colo da minha mãe. Ela não chorava, só me olhava como um anjo! Ela era anjo no colo de uma santa. Minha mãe é uma santa. Ela sempre vem no meu sonho vestida de branco. Acho que minha mãe ajuda Deus a cuidar da gente, lá no céu. Adoro sonhar com ela. Eu adoro sonhar. A Jéssica tem dois anos. Eu tenho quinze.
Eu parei de sentir frio quando sonhei um sonho muito bom. Sonhei com um homem lindo! Parecia um Príncipe de olhos verdes e era gentil. Cuidava da minha filha e levava a gente para tomar sorvete e brincar no parque. Brincava e ria com a gente o dia inteirinho. Cantava e lia histórias de um livro que não acabava nunca. Toda noite tinha mais história no livro. Toda noite eu fico esperando sonhar com ele para ouvir mais história do livro.
Não sei ler direito. Quando eu fiquei grávida da Jéssica eu parei de estudar. Ela nasceu no dia do aniversário da minha mãe. Quando ela entrar para a escola eu vou voltar a estudar também, que eu já esqueci quase tudo.
Toda vez que estou trabalhando eu tento pensar em coisa boa, assim a dor passa. Penso no príncipe dos meus sonhos e na minha mãe tirando piolho da minha cabeça. Eu lembro que ela ficava um tempão tirando piolho e era tão bom, que eu até dormia.
Hoje eu já deitei duas vezes.
Um velho mal cheiroso e um moço bonito e rápido.
Têm outro moço que sempre vêm na quarta e fica comigo até sexta. Ele é bom e paga bem.
Ele tem um caminhão que dentro parece uma casa, mas ele não dorme nele.
Acho que ele é rico. Teve uma vez que ele me levou pro hotel e disse que gostava de mim. Com ele eu ganho por três dias e me deito só um pouco. Ele é meio triste, não fala muito.
Na ultima vez eu brinquei bastante, contei até piada. Puxei assunto para ver se ele alegrava. Ele não arredou o pé. Tava triste de verdade. Eu fiquei com dó dele. Não sabia o que fazer para agradar. Aí eu comecei a contar história da minha filha. As gracinhas é bem bonitinha. Eu enfeito ela, ponho a roupinha, o sapatinho. Ela fica igual às bonecas da minha mãe.
Quando minha mãe morreu, ela deixou dez bonecas para eu cuidar.
Quando eu morrer a Jéssica que vai cuidar delas. Eu já tenho quinze bonecas. Quinze com as dez da minha mãe. Eu adoro brincar de boneca. Eu até converso com elas.
Teve uma noite que eu sonhei que elas falavam comigo. Elas respondiam tudo o que eu perguntava. Eu conto tudo para elas. Agora eu conto também para a Jéssica. A Jéssica ainda não fala, mas ela vai falar. Eu vou contar tudo para ela, para ela saber como é a vida. Eu não sei direito como é a vida, mas eu sei que tem coisa boa e coisa ruim nessa vida. Isso eu sei porque eu sei. Vivendo. Sem viver não dá pra saber.
Esse rapaz que eu contei é bom! Eu sei, eu olho nos olhos dele e vejo. Tem uns que eu olho e não vejo nada. Tem uns que chegam aqui, que eu vejo ruindade. Esses graças a Deus vão embora rápido. Às vezes não pagam. Dizem que não foi bom e não querem pagar. Aí eu chamo o soldado. O Soldado é um moço meio pancada que protege as meninas aqui e caminhoneiro que deita e não paga fica marcado. O Soldado bate no cara todinho se ele não paga.
O Soldado não tem medo de ninguém. Um dia ele levou um tiro e não morreu. Acho que é por isso que ele não tem medo de nada. Eu acho que ele não é louco. Ele parece meio doido, mas não é. Quando alguém vai morrer e não morre fica corajoso. Eu não acho ele doido. Ele só é sozinho e é muito forte, corajoso. Ele é bom.
Eu já quis deitar com ele de graça, mas não agüentei, porque ele é muito grande. Acho que é por isso que ele é sozinho. Não têm mulher que agüenta ele.
Eu contava da Jéssica pro moço e ele chorava mais. Eu falei para ele que a Jéssica era alegre e que não era para chorar. Toda criança traz alegria para o mundo.
Minha mãe dizia que quando uma criança morria o céu ganhava mais um anjo em forma de estrela. Não é só quando morre que a criança vira anjo. A minha Jéssica é um anjo e ta viva.
Deus me livre, que se ela morrer eu morro também. Ele chorou muito, de soluçar. Eu respeito tristeza. Quando a gente ta triste não adianta. Eu quando fico triste fico e pronto! Não tem nada que me alegra, só a Jéssica. A tristeza de adulto eu acho que é maior que a de criança. A tristeza da criança passa com o tempo, porque criança é anjo. Eu sou criança, mas não sou mais anjo não. Quando eu deitei com o primeiro eu deixei de ser anjo e to deixando de ser criança porquê eu to crescendo, tenho a Jéssica. Meus peitos tão cada dia maior. Mas eu ainda adoro boneca. Acho que eu nunca mais vou deixar de gostar de boneca. Ah! Coitado do moço! Chorou até dormir. Dormiu chorando. Acordou com pressa pagou e foi embora no caminhão. Fui para casa morrendo de saudades da Jéssica. Quando eu to trabalhando ela fica com meu pai. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos e meu pai é que cuida de mim. Ele adora a Jéssica. Meu pai acha que eu trabalho na rua pedindo. Ele não sabe que eu me deito. Se sabe não fala. Eu nunca vou contar para ninguém, nem para a Jéssica. Eu não quero que ela deite com homem não. Eu quero que ela fique anjo até casar. Quero que ela estude.
Ontem eu ganhei quinze reais. Vou comprar um pratinho e uma colher para ela comer. Depois eu vou comprar um vestido de renda branco para batizar ela na igreja. Vai ter uma festa no rio e com o dinheiro vai dar para comprar o vestido e pagar o padre. Festa no rio é bom que tem comida e a gente ganha mais e antes de subir. O dinheiro fica fora do barco e a gente ganha mais dinheiro dentro do barco. Eles são de outra cidade. Tem até estrangeiro.
Às vezes tem mulher. Pedem para a gente beijar mulher e isso eu só faço se me der dez, porque eu não gosto de beijar mulher. Eles pedem de tudo, por traz. Teve um dia que eu ganhei trezentos reais numa festa.
O barco tava parado no porto antes do sol se pôr e o pessoal entrando. O final da tarde era lindo como nos meus sonhos com a mamãe.
Eu estava com preguiça, mas pensei na Jéssica, no batismo. Subi no barco só pensando no batismo do meu anjo. O primeiro homem que vi foi o Soldado olhando o rio. Tinha muita gente no barco. Cada menina que entrava ganhava uma cerveja. Tinha um homem sentado numa cadeira de rodas com dois sacos cheios de notas de dez. Seu corpo tremia. Ele era estranho. Parecia um louco.
Quando o barco começou a navegar eu senti um alívio. Os homens gritaram e começaram a agarrar todo mundo. O homem da cadeira de rodas me chamava. Eu fugi dele. Deitei com uns cinco e fiz de tudo, tive até que beijar três meninas.
O Soldado ficava lá parado e olhando. Quando as coisas acalmaram um moço me pegou pela mão e me levou para o fundo do barco. Ele tinha olhos verdes e parecia um pouco com o príncipe dos meus sonhos. Ele me levou lá para baixo pela mão, sozinha. Ele me fez um carinho na cabeça e disse para eu dormir. Pegou um livro igual aquele do sonho e contou uma história de uma menina pequena, bem pequena, igual uma sementinha. Depois da história ele me disse que ia dar um presente para a Jéssica. Fui adormecendo e sonhando que estava mergulhando no rio e nadando bem lá para o fundo. Fui vendo minha mãe no fundo da água com um bebê no colo, eu achei que era a Jéssica e quando eu cheguei perto era um bebê muito parecido com ela, mas era eu. Aí o bebê sumiu e ela me abraçou. Nos braços da mamãe eu vi o Soldado me puxando pelos cabelos para cima e para fora da água. Vi descer até o fundo a cadeira de rodas do homem estranho. Muita madeira quebrada desceu pro fundo do rio. Vi várias meninas nadando e se divertindo com os peixes. Eu já estava rindo da brincadeira quando minha mãe me beijou e disse:
Vai brincar com as outras meninas meu anjo.
E assim eu fui brincar com as meninas e os peixes. A minha mãe me chamou de anjo. Ela não sabia que eu deitava com os homens e achava que eu era anjo igual à Jéssica. Quando olhei para minha mãe vi Jéssica em seu colo feliz e tranqüila me dando adeus com a mãozinha. Aí o livro desceu e caiu nos braços da mamãe, ela abriu e começou a contar história para a Jéssica. Acho que o presente que o príncipe disse que ia dar para a Jéssica era o livro. Acho que agora as coisas iam mudar pra gente.
Rômulo Augusto
20/10/2005

Banho Seco

-Pronto!
Ela me disse de forma sentencial.
-Acabou!
Começou a rir como que aliviada.
-O quê que acabou?
Perguntei admitindo surgir algum vestígio de alegria em mim.
Vou interromper essa história para relatar o dia que vivi até ela chegar em casa e dizer decidida: Pronto!
Acordei como sempre com o som do impertinente despertador. Comprei o Maldito, buscando de loja em loja o som de despertar menos intrometido. Depois de procurar muito acabei escolhendo, talvez, o pior e mais estranho som de despertador. Isso eu narrei para que percebam que após acordar ao som do despertador que comprei, o mau humor já têm permissão de pousar no dia. Mas eu decidi não dar autorização de pouso nesta manhã. Fiz um esforço e até achei graça, em meio ao ronronar das espreguiçadas de minha mulher, do som melado do despertador. Melada é a sensação que me provoca o som daquele filho da puta. Não sei explicar essa sensação de melado. E naquele dia o despertador não ia melar o meu humor. Desliguei o maldito sem mais delongas, beijei de leve a nega, que reclamou do bafo e se virou de lado, e fui tomar um banho bacana, onde tinha planos de fazer a barba depois de defecar e assim o fiz. Com a cara meio suja de espuma e com leves cortes, abri a torneira e esperei a água cair do chuveiro. Alguns segundos se passaram até que notei que parte dos meus planos foi por água abaixo, ou melhor, foram adiados, pois do chuveiro não caiu uma gota sequer. Senti meu sangue subir como água da chaleira e esbocei um palavrão contundente, que não escapou, pois lembrei que tomaria um café quente e tudo iria dar certo sem que eu me alterasse ou ficasse com raiva do governo local, que deixa que a água acabe sem aviso. Lembrei que poderia ser culpa do cínico do síndico. Limpei a cara com a toalha, olhei a nega meio despida na cama, inocente, ela mal sabia o que a esperava no banheiro. Resolvi não avisar, deixei fluir a maldade um pouco e a ataquei com um cheiro no cangote. Quando senti que ela correspondeu iniciei gradualmente uma siririca contundente que a fez gozar rápido. Larguei ela na cama e fui direto fazer o café. Peguei a chaleira e ouvi um grito dela no banheiro. Sorri, e já concluindo o óbvio, mudei de direção. Ia para a torneira e desisti desviando para a geladeira, porque não haveria água na torneira da cozinha também. Lá na geladeira busquei na garrafa de água gelada a última esperança de fazer o café. Dessa vez foi uma grande provação, pois não tinha água na geladeira, também. Alguém desatento e inconseqüente bebeu toda a água e não encheu a garrafa. Esbocei novamente um palavrão retumbante que controlei permitindo sair apenas um resmungo preso na garganta! Saí de casa rápido, sem me despedir dela, que ainda estava no banheiro, cantando uma musica chiclete que se instalou em minha memória para completar o início desse dia aziago.
Música chiclete é aquele tipo de música bem popular que toca nas rádios mais bregas. Música sertaneja, axé, pagode exportação ou música pop americana ou, ainda, aquelas promovidas pelo Gugu Liberato ou Faustão que são sempre e invariavelmente músicas chicletes. Louras burras e filhos de cantores endinheirados também fazem música chicletes de primeira qualidade, dessas que grudam e só saem com britadeira. Esse esclarecimento serve mais para quem gosta deste tipo de pseudomúsica. E se você é uma destas pessoas eu desejo que você morra com ela na cabeça e tocando em seu velório, seu burro consumidor de lixo cultural. Desculpe a minha petulância, mas é que sinto uma certa raiva, tenho o temperamento explosivo. Acho que seria um bom homem bomba brasileiro. A propósito isso que estou escrevendo é também lixo cultural.
Caro leitor, estava eu surfando no silêncio do metrô e tentando tirar a música chiclete da cabeça, lembrei dos mestres Cartola, Noel, Adoniran, Tom, Vinícius e Chico. De repente entra em uma estação uma morena de mini saia bem curta e com cara de disponível. Ela vem em minha direção me olhando nos olhos. Fico meio sem graça, olho para minha aliança desviando o olhar. Olho para ela e ela esta me olhando com um sorriso nos lábios. Fico meio nervoso, ou melhor, fico meio alerta, querendo voar na mulher e apertar as nádegas polpudas dela. Enquanto calculo o estrago que daria eu em cima da Mulata, percebo que a música chiclete saiu da minha cabeça como milagre, aí no tempo que concluo que esqueci a música chicletes percebo que a porra da música voltou para a cabeça novamente. E na estação seguinte desce a gostosona sem olhar para traz.
-Vagabunda! Nem olhou novamente, e eu que estava quase apaixonado.
Volto à realidade, à música chiclete e tudo o mais que tenho direito. De repente uma angustia me toma e lembro que o mês iniciou e o salário já acabou. Penso no salário da minha esposa que ainda não foi pago e me alivio um pouco. Lembro novamente da Mulata e fico novamente com tesão. Penso que seria certo mesmo eu ter descido na estação da Mulata e fugido com a gostosa. Não tenho filhos com minha esposa, o casamento é só pagar contas, brigar um pouco, família de um e do outro nos domingo, missa para pedir perdão dos supostos pecados e garantir uma vaga no céu, enfim, todas as mazelas de um típico casamento do século XXI. E, claro, sempre faltando o essencial a um casamento feliz: Dinheiro.
Desci na minha estação e caminhei até o trabalho. Trabalho no Banco Rural, serviço estafante e sobre pressão. E vez por outra ainda tenho que suportar umas piadinhas recentes sobre os escândalos que o banco está envolvido. Quase não tenho tempo para nada, nem para coçar o saco. Trato cada cliente como rei para que eles se sintam bem e demorem bastante em minha mesa. Conto histórias de outros clientes, apropriadas por mim e contadas como se fosse eu o sujeito das peripécias bancárias. Tudo isso eu faço para parecer importante e requisitado pelos clientes. Tática que aprendi quando trabalhei no Executivo. Serviço público é que é bom. A casa do vizinho é sempre a mais bonita. A mulher do próximo é que é boa.
Hoje as coisas pareciam bem diferentes. Sentia que algo de ruim iria acontecer. De repente uma notícia bombástica interrompe a música chiclete e o trabalho. Demissão. O banco iria fechar várias agências no Brasil por conta dos escândalos com o partido do governo. Acho que o que pagava meu salário era dinheiro sujo da política. Eu fui punido. Punido apesar de trabalhar honestamente. Punido por optar pelo trabalho honesto. Fui para casa pensando na política e em que tipo de país é o meu que pune inocentes por sua inocência. Acredito que se eu fosse um operador político do banco não seria demitido. Eu nem podia chantagear ninguém, pois não sabia nada de ninguém. Se eu fosse um deputado que recebeu mensalão do governo não seria demitido. Seria cassado? Talvez cassado. Entretanto a minha conta bancária no banco Rural, Real, Urbano etc estaria gorda e cheia de mensalão. Eu seria julgado em foro privilegiado. Lembrei com orgulho do meu falecido pai que me dava uma mesada, que ironicamente nós chamávamos de mesadinha. Meu pai se vangloriava aos berros de sua honestidade. Meu pai morreu pobre e pagando aluguel. Não teve poder nem dinheiro e tudo para ele foi suado. Ele mesmo assim se vangloriava de ser honesto. O partido do governo sempre se vangloriou de ser um partido honesto. Chegou ao poder e diferente do meu pai o partido roubou. FODA-SE! Quis gritar no metrô e me contive.
Me conformei voltando para casa.
Sentei no sofá da sala. Chamei, e ela não estava em casa. Comecei a chorar como se ainda recebesse mesada de meu saudoso pai. Pensei nele e reforçou-se em mim um sentimento de orgulho de ser, como meu pai, um homem honesto e trabalhador.
Aquele sentimento de limpeza de consciência me deixava calmo e esperançoso de que as coisas iam melhorar e que a recompensa de ser honesto ia chegar, nem que fosse ao morrer.
Pronto! Entrou gritando minha mulher, porta adentro, interrompendo minha meditação.
-Acabou!
-O quê que acabou?
-Pedi demissão! Não vou mais me submeter àqueles canalhas.
Pensei: Eis a recompensa de ser honesto.
Serviço público é que é bom.
A casa do vizinho é sempre a mais bonita.
A mulher do próximo é que é boa.
Fui pensando essas coisa e me despindo para tomar um banho.
Entrei, como de manhã no banheiro. Corri a porta do box, me posicionei abaixo do chuveiro e torci a torneira e nada da água cair.
Finalmente o palavrão saiu escolhido, retumbante e seguido de uma gargalhada nervosa:
-CARALHO DE GOVERNO!
E a água caiu dos meus olhos.

Rômulo Augusto
Outubro/2005

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

TEATRO LADRÃO


Amor sem avalista

Recebi na porta do trabalho um panfleto de empréstimo pessoal. Coisa muito comum nos dias de hoje e também antes de Dom Pedro II, quando resolveu acabar com a, dita, farra da agiotagem no Brasil instituindo a agiotagem oficial. Ele inaugurou, assim, a Caixa Econômica Federal e proibiu a agiotagem pirata. Entrou para a história concedendo empréstimo até para escravos, com a anuência de seus senhores, claro, e tudo dentro da lei e dos conformes. Assim, como na época de Dom Pedro II, temos que apresentar contra-cheque, avalista, comprovante de residência, SERASA, SPC e autorização do cônjuge para conseguir dinheiro na Caixa Econômica Federal.
Entretanto, como antes de Pedro II, a coisa corre frouxa. Lê-se nos panfletos : Rápido, fácil e sem avalista. Sem avalista? Raciocinava apreensivo:
-Se eu não pagar quem vai pagar por mim? Se eu morrer quem paga? Se eu não pagar o que acontece? E se eu sumir? Desconto em folha? Agilidade na liberação. Agilidade é sem dúvida uma grande vantagem. Quando precisamos de dinheiro é necessário agilidade. É bem verdade que quem têm pressa acaba comendo cru e quente. E acaba negociando precipitadamente juros mais altos que o concorrente.
Um desses panfletos dizia: compramos dívidas de outras consignatárias. Que incrível! Estão comprando dívidas. Acho que eu vou vender minhas dívidas e me mudar para o Caribe. Quem em seu juízo perfeito compraria uma dívida minha? A minha mãe talvez. Resolvi parar de pensar nessas coisas e jogar o panfleto no lixo. Do nada, como um sinal o celular toca e do outro lado ouço uma voz doce e macia que me deixa meio eufórico.
-Alô... quem é?
-Você não me conhece.
Delícia de voz feminina! Uma frase misteriosa. Com uma voz dessas eu até compro uma dívida bem alta.
-Como é seu nome, meu bem?
-Jandira Figueira, senhor.
-Realmente eu não te conheço, mas adoraria te conhecer.
Ela sorriu do outro lado da linha abrindo passagem para minhas intenções.
-O senhor teria cinco minutos?
Pensei que em cinco minutos não daria tempo para dar o devido tratamento à princesa.
-Não só teria como tenho todo o tempo do mundo para a voz mais encantadora do mundo!
Acho que ela até se arrepiou. Eu me arrepiei.
-O senhor está sendo muito gentil... Bom, eu queria estar mostrando para o senhor a nova e diferente maneira do senhor estar fazendo o seu empréstimo pessoal. O senhor gostaria de estar ouvindo a proposta?
Ao som de tantos gerúndios o meu tesão abaixou, mas eu ainda estava disposto a pegar aquela voz gostosa de jeito. Acho que na hora H ela ia gemer sem o Gerúndio.
-Não só gostaria como também quero estar ouvindo, enfim vai, fala meu bem....
Ela iniciou aquela ladainha de gerúndios intermináveis e eu fui lembrando que o salário já havia acabado e eu não tinha como convidá-la para sair, para jantar ou mesmo para aplacá-la num motel agradável.
-O senhor está aí?
Aquela pergunta direta e sem gerúndio me despertou.
-Sim, ao seu dispor. Pode estar continuando.
O gerúndio saiu meio artificial da minha boca, me fazendo refletir sobre até que ponto eu poderia chegar para comer alguém.
-Se o senhor estiver ocupado eu poderia estar ligando outra hora para estar passando as informações...
-A senhora pode falar agora mesmo, eu to praticamente desocupado. Alias eu to interessado mesmo é...
Pensei em dizer a verdade, mas a verdade mesmo no gerúndio poderia estar assustando a moça.
...em fazer um empréstimo. Qual é a taxa?
A partir daí eu notei que ela mudou o tom de voz. A velocidade aumentou e os gerúndios diminuíram. Resolvi tomar as rédeas da conversa e marcar um encontro pessoal.
-A moça não gostaria...
-O senhor não se preocupe que o seu cadastro será aprovado na hora e sem avalista. Não estaremos pesquisando a sua situação nos órgãos de proteção de crédito....
Como eu vou propor um encontro sem dinheiro? Acho que vou pedir logo este empréstimo e resolver o resto pessoalmente com ela.
-Ok, como faço para efetuar o empréstimo e obter o seu telefone para a gente gastar tudo juntos?
-...
-E aí? A senhora ta aí ainda? Como é, vai ou não me emprestar o dinheiro?
-Bom de quanto o senhor precisa?
-De uns...
Pensei em quinhentos para uma boa farra com a dona. Depois achei que se eu pedisse pouco ela não ia me dar o telefone, pois acharia que não valeria a pena sair com um cara duro como eu.
-Mil e quinhentos reais.
Nem pensei em como pagar, depois eu venderia a dívida.
Passei todos os dados esperando os dados dela. Minhas expectativas eram de dados novos e suculentos como devem ser os dados de uma mulher realmente apreciável e que vale o investimento de uma dívida.
-Agora é a sua vez!
-Desculpe senhor?
-Não têm do que se desculpar. Passa logo os seus dados para a gente se acertar.
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada. Gostaria de estar passando para o senhor o nosso endereço para que o senhor possa estar nos fazendo uma visita e assinando os papeis.
-Eu quero é o seu endereço, gata.
-O senhor pode estar anotando?
-Na hora.
Ela ditou com todos os gerúndios aquele endereço e se despediu cheia de gerúndios, que retribuí cheio de beijinhos de amor.
Fui direto na floricultura comprei meia dúzia de rosas vermelhas e corri para o endereço. Fui pensando em Jandira Figueira a suposta gata do tele-marqueting que eu iria conhecer e quem sabe um dia me casar.
-Boa tarde! Vim aqui concluir um empréstimo pessoal que fiz por telefone com a Jandira Figueira.
-Como é o seu nome?
Comecei a desconfiar que a Jandira Figueira não estaria lá. E que talvez eu não a conhecesse nunca mais.
-Eu queria concluir o empréstimo com a moça que me ligou.
-Senhor, esta não seria a função dela.
-Pois então agora é.
-Mas senhor, o senhor poderá estar fazendo este empréstimo com qualquer um de nós.
-Eu não poderia nem posso...escute eu só quis fazer este empréstimo por causa dela e vem você me dizer...
-Está certo senhor. O senhor não precisa estar se exaltando por isso. Nós vamos estar procurando a senhora...como seria mesmo o nome dela?
-O nome dela é Jandira Figueira. Jandira Figueira!
-O senhor poderia estar se sentando, que eu estarei providenciando um cafezinho na nossa copa...
-Vai...Vai.
-O senhor aceitaria um café?
-Eu aceito. Agora busca a moça.
Fiquei esperando. Esperei ansiosamente pela gata e nada. Depois de exatos dez minutos a mesma moça volta sem o café e diz:
-Eu poderia estar ajudando o senhor?
-Você poderia? A senhora não saiu daqui para buscar a Jandira Figueira?
-Desculpe senhor?
-Não desculpo. A senhora não saiu desta sala para buscá-la?
-A sim, claro! Que cabeça a minha!
-E então?
-Então o que senhor?
-Cadê a Jandira?
-Senhor, eu só poderei estar encontrando essa senhora se ainda estiver dentro do horário do respectivo turno dela.
Isso tudo ela falou olhando a tela do computador. Aquilo me deixou meio indignado. Levantei-me joguei as flores no banco em que estava sentado e disse:
-Ou a senhora chama a Jandira ou eu não faço empréstimo nenhum.
-Para o senhor estar anulando o seu empréstimo é necessário que o senhor esteja ligando para o nosso tele-atendimento para que possamos estar descadastrando o seu empréstimo.
-A senhora não estaria dificultando as coisas? Eu só queria estar falando com a Jandira Figueira.
-Porque o senhor não disse antes? Para o senhor estar falando com nossos atendentes o senhor deve estar ligando no número 0800800666, onde o senhor poderá estar fazendo novos empréstimos ou anulando este que o senhor acabou de fazer e que não está concluído. Eu poderia estar fazendo uma pergunta para o senhor?
-Faz, vai.
-Por qual motivo o senhor estaria querendo anular o empréstimo?
-Porra! A senhora é louca?
-O senhor estaria me ofendendo?
-Não senhora, eu não estaria te ofendendo. Eu estou lhe ofendendo. Sua louca! Imprestável. Jandira!
Gritei seu nome algumas vezes bem alto em tom desesperado, até que o segurança da empresa veio me acalmar com um aperto na nuca que me fez calar e ajoelhar rapidamente e discretamente no tapete. Quase rezei ao sentir o peso daquela mão competente.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
O gigante falou bem perto do meu ouvidinho com aquela bocona cheia de dentes e uma voz grossa e retumbante.
-Não. Obrigado!
Respondi fino e com um meio sorriso tímido.
Saí de lá depois de ser afagado por aquele gentil senhor e voltei humilhado para o trabalho, sem almoçar, com as rosas murchas na mão, e os gerundios do gigante ressoando em meu cérebro. O pior é que agora ou eu concluía o empréstimo ou anulava por telefone. Liguei pro telefone e atendeu uma voz masculina que me fez lembrar os carinhos do segurança da empresa. Desliguei e tentei novamente. Duas, três vezes até que de repente Jandira Figueira atende com aquela voz de veludo.
-Meu amor!
Saiu naturalmente. Eu estava apaixonado.
-Desculpe senhor?
-Não desculpo.
-O senhor poderia estar passando o seu nome, telefone e endereço para que eu possa estar...
-Pára de falar assim Jandira. Eu quero te ver...
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada.
-Ótimo! Assim esses canalhas vão saber que não podem esconder você de mim.
-Assim o senhor está me prejudicando.
-Eu te amo e não posso viver sem você.
-...
-Fala alguma coisa.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
-De você Jandira.
-...
-JANDIRA!
De repente uma voz masculina atende o telefone e em tom grave, que me fez lembrar a docilidade dos seguranças, proferiu a sentença:
-O senhor tem quarenta e oito horas para efetuar ou não o seu empréstimo. Temos aqui o seu cadastro e os registros em vídeo de sua truculenta visita à nossa empresa. O senhor desejaria mais alguma coisa?
-...
-O senhor está aí? Após este prazo estaremos efetuando o arquivamento de seus dados.
-...
-Aguardamos a sua visita e desejamos uma boa tarde!
-...
Passadas as quarenta e oito horas resolvi não estar contraindo nenhum empréstimo e não estar mais me apaixonando por uma voz desconhecida. Acabou, assim, acabando tudo entre mim e ela.


Rômulo Augusto
06/10/2005