Recebi na porta do trabalho um panfleto de empréstimo pessoal. Coisa muito comum nos dias de hoje e também antes de Dom Pedro II, quando resolveu acabar com a, dita, farra da agiotagem no Brasil instituindo a agiotagem oficial. Ele inaugurou, assim, a Caixa Econômica Federal e proibiu a agiotagem pirata. Entrou para a história concedendo empréstimo até para escravos, com a anuência de seus senhores, claro, e tudo dentro da lei e dos conformes. Assim, como na época de Dom Pedro II, temos que apresentar contra-cheque, avalista, comprovante de residência, SERASA, SPC e autorização do cônjuge para conseguir dinheiro na Caixa Econômica Federal.
Entretanto, como antes de Pedro II, a coisa corre frouxa. Lê-se nos panfletos : Rápido, fácil e sem avalista. Sem avalista? Raciocinava apreensivo:
-Se eu não pagar quem vai pagar por mim? Se eu morrer quem paga? Se eu não pagar o que acontece? E se eu sumir? Desconto em folha? Agilidade na liberação. Agilidade é sem dúvida uma grande vantagem. Quando precisamos de dinheiro é necessário agilidade. É bem verdade que quem têm pressa acaba comendo cru e quente. E acaba negociando precipitadamente juros mais altos que o concorrente.
Um desses panfletos dizia: compramos dívidas de outras consignatárias. Que incrível! Estão comprando dívidas. Acho que eu vou vender minhas dívidas e me mudar para o Caribe. Quem em seu juízo perfeito compraria uma dívida minha? A minha mãe talvez. Resolvi parar de pensar nessas coisas e jogar o panfleto no lixo. Do nada, como um sinal o celular toca e do outro lado ouço uma voz doce e macia que me deixa meio eufórico.
-Alô... quem é?
-Você não me conhece.
Delícia de voz feminina! Uma frase misteriosa. Com uma voz dessas eu até compro uma dívida bem alta.
-Como é seu nome, meu bem?
-Jandira Figueira, senhor.
-Realmente eu não te conheço, mas adoraria te conhecer.
Ela sorriu do outro lado da linha abrindo passagem para minhas intenções.
-O senhor teria cinco minutos?
Pensei que em cinco minutos não daria tempo para dar o devido tratamento à princesa.
-Não só teria como tenho todo o tempo do mundo para a voz mais encantadora do mundo!
Acho que ela até se arrepiou. Eu me arrepiei.
-O senhor está sendo muito gentil... Bom, eu queria estar mostrando para o senhor a nova e diferente maneira do senhor estar fazendo o seu empréstimo pessoal. O senhor gostaria de estar ouvindo a proposta?
Ao som de tantos gerúndios o meu tesão abaixou, mas eu ainda estava disposto a pegar aquela voz gostosa de jeito. Acho que na hora H ela ia gemer sem o Gerúndio.
-Não só gostaria como também quero estar ouvindo, enfim vai, fala meu bem....
Ela iniciou aquela ladainha de gerúndios intermináveis e eu fui lembrando que o salário já havia acabado e eu não tinha como convidá-la para sair, para jantar ou mesmo para aplacá-la num motel agradável.
-O senhor está aí?
Aquela pergunta direta e sem gerúndio me despertou.
-Sim, ao seu dispor. Pode estar continuando.
O gerúndio saiu meio artificial da minha boca, me fazendo refletir sobre até que ponto eu poderia chegar para comer alguém.
-Se o senhor estiver ocupado eu poderia estar ligando outra hora para estar passando as informações...
-A senhora pode falar agora mesmo, eu to praticamente desocupado. Alias eu to interessado mesmo é...
Pensei em dizer a verdade, mas a verdade mesmo no gerúndio poderia estar assustando a moça.
...em fazer um empréstimo. Qual é a taxa?
A partir daí eu notei que ela mudou o tom de voz. A velocidade aumentou e os gerúndios diminuíram. Resolvi tomar as rédeas da conversa e marcar um encontro pessoal.
-A moça não gostaria...
-O senhor não se preocupe que o seu cadastro será aprovado na hora e sem avalista. Não estaremos pesquisando a sua situação nos órgãos de proteção de crédito....
Como eu vou propor um encontro sem dinheiro? Acho que vou pedir logo este empréstimo e resolver o resto pessoalmente com ela.
-Ok, como faço para efetuar o empréstimo e obter o seu telefone para a gente gastar tudo juntos?
-...
-E aí? A senhora ta aí ainda? Como é, vai ou não me emprestar o dinheiro?
-Bom de quanto o senhor precisa?
-De uns...
Pensei em quinhentos para uma boa farra com a dona. Depois achei que se eu pedisse pouco ela não ia me dar o telefone, pois acharia que não valeria a pena sair com um cara duro como eu.
-Mil e quinhentos reais.
Nem pensei em como pagar, depois eu venderia a dívida.
Passei todos os dados esperando os dados dela. Minhas expectativas eram de dados novos e suculentos como devem ser os dados de uma mulher realmente apreciável e que vale o investimento de uma dívida.
-Agora é a sua vez!
-Desculpe senhor?
-Não têm do que se desculpar. Passa logo os seus dados para a gente se acertar.
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada. Gostaria de estar passando para o senhor o nosso endereço para que o senhor possa estar nos fazendo uma visita e assinando os papeis.
-Eu quero é o seu endereço, gata.
-O senhor pode estar anotando?
-Na hora.
Ela ditou com todos os gerúndios aquele endereço e se despediu cheia de gerúndios, que retribuí cheio de beijinhos de amor.
Fui direto na floricultura comprei meia dúzia de rosas vermelhas e corri para o endereço. Fui pensando em Jandira Figueira a suposta gata do tele-marqueting que eu iria conhecer e quem sabe um dia me casar.
-Boa tarde! Vim aqui concluir um empréstimo pessoal que fiz por telefone com a Jandira Figueira.
-Como é o seu nome?
Comecei a desconfiar que a Jandira Figueira não estaria lá. E que talvez eu não a conhecesse nunca mais.
-Eu queria concluir o empréstimo com a moça que me ligou.
-Senhor, esta não seria a função dela.
-Pois então agora é.
-Mas senhor, o senhor poderá estar fazendo este empréstimo com qualquer um de nós.
-Eu não poderia nem posso...escute eu só quis fazer este empréstimo por causa dela e vem você me dizer...
-Está certo senhor. O senhor não precisa estar se exaltando por isso. Nós vamos estar procurando a senhora...como seria mesmo o nome dela?
-O nome dela é Jandira Figueira. Jandira Figueira!
-O senhor poderia estar se sentando, que eu estarei providenciando um cafezinho na nossa copa...
-Vai...Vai.
-O senhor aceitaria um café?
-Eu aceito. Agora busca a moça.
Fiquei esperando. Esperei ansiosamente pela gata e nada. Depois de exatos dez minutos a mesma moça volta sem o café e diz:
-Eu poderia estar ajudando o senhor?
-Você poderia? A senhora não saiu daqui para buscar a Jandira Figueira?
-Desculpe senhor?
-Não desculpo. A senhora não saiu desta sala para buscá-la?
-A sim, claro! Que cabeça a minha!
-E então?
-Então o que senhor?
-Cadê a Jandira?
-Senhor, eu só poderei estar encontrando essa senhora se ainda estiver dentro do horário do respectivo turno dela.
Isso tudo ela falou olhando a tela do computador. Aquilo me deixou meio indignado. Levantei-me joguei as flores no banco em que estava sentado e disse:
-Ou a senhora chama a Jandira ou eu não faço empréstimo nenhum.
-Para o senhor estar anulando o seu empréstimo é necessário que o senhor esteja ligando para o nosso tele-atendimento para que possamos estar descadastrando o seu empréstimo.
-A senhora não estaria dificultando as coisas? Eu só queria estar falando com a Jandira Figueira.
-Porque o senhor não disse antes? Para o senhor estar falando com nossos atendentes o senhor deve estar ligando no número 0800800666, onde o senhor poderá estar fazendo novos empréstimos ou anulando este que o senhor acabou de fazer e que não está concluído. Eu poderia estar fazendo uma pergunta para o senhor?
-Faz, vai.
-Por qual motivo o senhor estaria querendo anular o empréstimo?
-Porra! A senhora é louca?
-O senhor estaria me ofendendo?
-Não senhora, eu não estaria te ofendendo. Eu estou lhe ofendendo. Sua louca! Imprestável. Jandira!
Gritei seu nome algumas vezes bem alto em tom desesperado, até que o segurança da empresa veio me acalmar com um aperto na nuca que me fez calar e ajoelhar rapidamente e discretamente no tapete. Quase rezei ao sentir o peso daquela mão competente.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
O gigante falou bem perto do meu ouvidinho com aquela bocona cheia de dentes e uma voz grossa e retumbante.
-Não. Obrigado!
Respondi fino e com um meio sorriso tímido.
Saí de lá depois de ser afagado por aquele gentil senhor e voltei humilhado para o trabalho, sem almoçar, com as rosas murchas na mão, e os gerundios do gigante ressoando em meu cérebro. O pior é que agora ou eu concluía o empréstimo ou anulava por telefone. Liguei pro telefone e atendeu uma voz masculina que me fez lembrar os carinhos do segurança da empresa. Desliguei e tentei novamente. Duas, três vezes até que de repente Jandira Figueira atende com aquela voz de veludo.
-Meu amor!
Saiu naturalmente. Eu estava apaixonado.
-Desculpe senhor?
-Não desculpo.
-O senhor poderia estar passando o seu nome, telefone e endereço para que eu possa estar...
-Pára de falar assim Jandira. Eu quero te ver...
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada.
-Ótimo! Assim esses canalhas vão saber que não podem esconder você de mim.
-Assim o senhor está me prejudicando.
-Eu te amo e não posso viver sem você.
-...
-Fala alguma coisa.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
-De você Jandira.
-...
-JANDIRA!
De repente uma voz masculina atende o telefone e em tom grave, que me fez lembrar a docilidade dos seguranças, proferiu a sentença:
-O senhor tem quarenta e oito horas para efetuar ou não o seu empréstimo. Temos aqui o seu cadastro e os registros em vídeo de sua truculenta visita à nossa empresa. O senhor desejaria mais alguma coisa?
-...
-O senhor está aí? Após este prazo estaremos efetuando o arquivamento de seus dados.
-...
-Aguardamos a sua visita e desejamos uma boa tarde!
-...
Passadas as quarenta e oito horas resolvi não estar contraindo nenhum empréstimo e não estar mais me apaixonando por uma voz desconhecida. Acabou, assim, acabando tudo entre mim e ela.
Rômulo Augusto
06/10/2005