Faroeste Caboclo Cinema

Faroeste Caboclo Cinema
Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sobre Viração do Teatro Ladrão

Um belo e preciso texto de Josi Paz convidando Brasília para ver o Teatro Ladrão em sua nova peça VIRAÇÃO

NÃO PERCAM SOB HIPÓTESE ALGUMA! MESMO! As duas últimas apresentações são: terça, dia 9, e quarta, dia 10.às 21 hs. No ESPAÇO MOSAICO.

Fica na 714/715 norte Bloco D. Loja 16. (61) 3032 1330 Na quadra do Tartaruga, onde tem chorinho no final da tarde, só que por trás, pela parte interna da quadra.


people, ainda tô sob impacto... acabei de chegar em casa, depois de assistir "viração" do teatro ladrão... é muita acidez, muita ironia, com muita, muita criatividade e muita, mas, olha, muita cara-de-pau... tem que ter muita cara-de-pau para fazer uma peça que põe o dedo indicador em frente ao nariz do outro desse jeito... será que eles não se enxergam, não? que autoridade tem alguém que usa fralda? e ainda fazem a gente rir, ficar sério, rir, ficar sério, ficar cada vez mais sério e aí rir de novo e já não saber se está rindo deles, de nós, de todos, ou se era mais adequado sentar num cantinho e chorar... mas chorar também seria ridículo, tão ridículo quanto os dois atores usando fraldas, meias listradas e óculos.... já sei... vocês viram o flyer da peça (o flyer tá anexo), com os dois atores usando fralda, e pensaram: - Ih, é mais um grupo de brasília fazendo comédia pastelão, tô fora! Entendo... o flyer não é lá dos melhores, mesmo. Mas não é NADA, NADA, NADA DISSO... Não tem nada a ver com comédia pastelão (tá, o flyer passa essa idéia, ok, então, esquece o flyer).... Não sou esteta, nem jornalista crítica de arte (valeu por isso, deus), mas TUDO ISSO É PARA DIZER QUE A PEÇA VIRAÇÃO É DEMAIS! Ou pelo menos é para dizer que eu adorei. NÃO PERCAM SOB HIPÓTESE ALGUMA! MESMO! As duas últimas apresentações são: terça, dia 9, e quarta, dia 10.às 21 hs. No ESPAÇO MOSAICO.

Fica na 714/715 norte Bloco D. Loja 16. (61) 3032 1330 Na quadra do Tartaruga, onde tem chorinho no final da tarde, só que por trás, pela parte interna da quadra.

Agora, as perguntas mais freqüentes:
***** se não é pastelão, que tipo de peça que é? olha, depende do tipo de público que você é.
***** tem mickey? tem.
**** tem DJ? eu diria que sim.
**** tem onde sentar? tem.
**** tem karaokê? ahã.
*** qual é o assunto da peça? mais fácil responder o que não é assunto da peça.
***** posso levar minha vó? melhor não, viu?
**** a peça constrange? constrangimento seria... ver no outro uma verdade que você sabe que é, mas não tem coragem de admitir? então, sim.
***** pedem pro público participar, aquelas coisas? olha, não é esse tipo de peça, necessariamente, mas mesmo que vc assista a peça debaixo da cama ou olhando pela fechadura, ela vai mexer com você... mesmo que você não se mexa durante toda a apresentação, fique paradinho feito estátua, acho que a peça vai mexer com você.
***** a peça discute o que é arte, tipo gerald thomas? isso não sei dizer com certeza, pois eu não sei direito o que é o gerald thomas. e, pensando bem, sei cada vez menos o que é arte.
***** pode tirar foto? pode, mas não precisa, pois eles tiram pra você.
**** tem que desligar o celular? não.
***** a peça deixa a gente triste? não.
***** a peça deixa a gente feliz? não, também.
***** como você resumiria o que é a peça? eu diria que a peça é uma tela... é uma tela de tevê ligada que, mesmo fora do ar o tempo todo, consegue sintonizar com nitidez todas aquelas perguntas que você faz, aí dentro, da sua cabeça,mas que você mesmo nunca teve coragem de responder em voz alta, falando num microfone de brinquedo.
***** a peça choca? chocar é coisa pras galinhas, né? mas acho que as galinhas não chocam mais...se tiver algum choque, não é nada que chegue perto de 220 V... quer saber?... ... se você se sentir chocado, baby, é por que, apesar de tanta viração, ainda tem alguma coisa viva aí dentro de você.
**** tá, eu vou lá dar essa força, mas você tem certeza que vou gostar? não... e sim... talvez, com certeza.__________________________________________

EM TEMPO: Talvez eu devesse, mas não selecionei os emails para mandar essa mensagem. Sorry. A censura da peça é 18 anos, não custa lembrar. Se já tem uma censura de idade, quem sou eu para fazer mais censura e ficar escolhendo pra quem mandar esse email, né? Arrisquei._____________________


TEATRO LADRÃO APRESENTA
VIRAÇÃO
"Uma obra eclética, de muito impacto visual e que encanta a temática e o tratamento dado." Washigton Poster (2006).


"Conteúdo não estético, quase não é arte. Teatro Ladrão como se auto denominam, revela mesmo uma quadrilha, corja. Teatro em forma de sociologia barata sobre as circunstâncias que fazem de uma pessoa ladrão. Não tem caráter artístico, apela para lugares comuns. Como pode uma peça como essa ficar tanto tempo em cartaz!" El Monde (2008).

Estrelando: Márcio Menezes, Rômulo Augusto, Luciano Marques o Lupa, Mônica Teixeira, Wiliam Alves, Ana Flávia Garcia e Tito.
Dias 02, 03, 09 e 10 de dezembro de 2008Sempre terças e quartas às 21 hs No ESPAÇO MOSAICO 714/715 norte bl. D loja 16(61) 3032 1330 Brasília, DF(na quadra do Tartaruga, só que por trás, pela parte interna da quadra)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

VIRAÇÃO VOLTA EM NOVEMBRO!!!!!


“Pensamos demasiadamente, sentimos muito pouco.
Necessitamos mais de humildade que de máquinas.
Mais de bondade e ternura que de inteligência.
Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá”

Charles Chaplin.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Meninas



Fiquei muito molhada esta noite. Meu vestido se perdeu na água. O dinheiro voou no vento. Eu vi de longe Jéssica pequenininha e linda no colo da minha mãe. Ela não chorava, só me olhava como um anjo! Ela era anjo no colo de uma santa. Minha mãe é uma santa. Ela sempre vem no meu sonho vestida de branco. Acho que minha mãe ajuda Deus a cuidar da gente, lá no céu. Adoro sonhar com ela. Eu adoro sonhar. A Jéssica tem dois anos. Eu tenho quinze.
Eu parei de sentir frio quando sonhei um sonho muito bom. Sonhei com um homem lindo! Parecia um Príncipe de olhos verdes e era gentil. Cuidava da minha filha e levava a gente para tomar sorvete e brincar no parque. Brincava e ria com a gente o dia inteirinho. Cantava e lia histórias de um livro que não acabava nunca. Toda noite tinha mais história no livro. Toda noite eu fico esperando sonhar com ele para ouvir mais história do livro.
Não sei ler direito. Quando eu fiquei grávida da Jéssica eu parei de estudar. Ela nasceu no dia do aniversário da minha mãe. Quando ela entrar para a escola eu vou voltar a estudar também, que eu já esqueci quase tudo.
Toda vez que estou trabalhando eu tento pensar em coisa boa, assim a dor passa. Penso no príncipe dos meus sonhos e na minha mãe tirando piolho da minha cabeça. Eu lembro que ela ficava um tempão tirando piolho e era tão bom, que eu até dormia.
Hoje eu já deitei duas vezes.
Um velho mal cheiroso e um moço bonito e rápido.
Têm outro moço que sempre vêm na quarta e fica comigo até sexta. Ele é bom e paga bem.
Ele tem um caminhão que dentro parece uma casa, mas ele não dorme nele.
Acho que ele é rico. Teve uma vez que ele me levou pro hotel e disse que gostava de mim. Com ele eu ganho por três dias e me deito só um pouco. Ele é meio triste, não fala muito.
Na ultima vez eu brinquei bastante, contei até piada. Puxei assunto para ver se ele alegrava. Ele não arredou o pé. Tava triste de verdade. Eu fiquei com dó dele. Não sabia o que fazer para agradar. Aí eu comecei a contar história da minha filha. As gracinhas é bem bonitinha. Eu enfeito ela, ponho a roupinha, o sapatinho. Ela fica igual às bonecas da minha mãe.
Quando minha mãe morreu, ela deixou dez bonecas para eu cuidar.
Quando eu morrer a Jéssica que vai cuidar delas. Eu já tenho quinze bonecas. Quinze com as dez da minha mãe. Eu adoro brincar de boneca. Eu até converso com elas.
Teve uma noite que eu sonhei que elas falavam comigo. Elas respondiam tudo o que eu perguntava. Eu conto tudo para elas. Agora eu conto também para a Jéssica. A Jéssica ainda não fala, mas ela vai falar. Eu vou contar tudo para ela, para ela saber como é a vida. Eu não sei direito como é a vida, mas eu sei que tem coisa boa e coisa ruim nessa vida. Isso eu sei porque eu sei. Vivendo. Sem viver não dá pra saber.
Esse rapaz que eu contei é bom! Eu sei, eu olho nos olhos dele e vejo. Tem uns que eu olho e não vejo nada. Tem uns que chegam aqui, que eu vejo ruindade. Esses graças a Deus vão embora rápido. Às vezes não pagam. Dizem que não foi bom e não querem pagar. Aí eu chamo o soldado. O Soldado é um moço meio pancada que protege as meninas aqui e caminhoneiro que deita e não paga fica marcado. O Soldado bate no cara todinho se ele não paga.
O Soldado não tem medo de ninguém. Um dia ele levou um tiro e não morreu. Acho que é por isso que ele não tem medo de nada. Eu acho que ele não é louco. Ele parece meio doido, mas não é. Quando alguém vai morrer e não morre fica corajoso. Eu não acho ele doido. Ele só é sozinho e é muito forte, corajoso. Ele é bom.
Eu já quis deitar com ele de graça, mas não agüentei, porque ele é muito grande. Acho que é por isso que ele é sozinho. Não têm mulher que agüenta ele.
Eu contava da Jéssica pro moço e ele chorava mais. Eu falei para ele que a Jéssica era alegre e que não era para chorar. Toda criança traz alegria para o mundo.
Minha mãe dizia que quando uma criança morria o céu ganhava mais um anjo em forma de estrela. Não é só quando morre que a criança vira anjo. A minha Jéssica é um anjo e ta viva.
Deus me livre, que se ela morrer eu morro também. Ele chorou muito, de soluçar. Eu respeito tristeza. Quando a gente ta triste não adianta. Eu quando fico triste fico e pronto! Não tem nada que me alegra, só a Jéssica. A tristeza de adulto eu acho que é maior que a de criança. A tristeza da criança passa com o tempo, porque criança é anjo. Eu sou criança, mas não sou mais anjo não. Quando eu deitei com o primeiro eu deixei de ser anjo e to deixando de ser criança porquê eu to crescendo, tenho a Jéssica. Meus peitos tão cada dia maior. Mas eu ainda adoro boneca. Acho que eu nunca mais vou deixar de gostar de boneca. Ah! Coitado do moço! Chorou até dormir. Dormiu chorando. Acordou com pressa pagou e foi embora no caminhão. Fui para casa morrendo de saudades da Jéssica. Quando eu to trabalhando ela fica com meu pai. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos e meu pai é que cuida de mim. Ele adora a Jéssica. Meu pai acha que eu trabalho na rua pedindo. Ele não sabe que eu me deito. Se sabe não fala. Eu nunca vou contar para ninguém, nem para a Jéssica. Eu não quero que ela deite com homem não. Eu quero que ela fique anjo até casar. Quero que ela estude.
Ontem eu ganhei quinze reais. Vou comprar um pratinho e uma colher para ela comer. Depois eu vou comprar um vestido de renda branco para batizar ela na igreja. Vai ter uma festa no rio e com o dinheiro vai dar para comprar o vestido e pagar o padre. Festa no rio é bom que tem comida e a gente ganha mais e antes de subir. O dinheiro fica fora do barco e a gente ganha mais dinheiro dentro do barco. Eles são de outra cidade. Tem até estrangeiro.
Às vezes tem mulher. Pedem para a gente beijar mulher e isso eu só faço se me der dez, porque eu não gosto de beijar mulher. Eles pedem de tudo, por traz. Teve um dia que eu ganhei trezentos reais numa festa.
O barco tava parado no porto antes do sol se pôr e o pessoal entrando. O final da tarde era lindo como nos meus sonhos com a mamãe.
Eu estava com preguiça, mas pensei na Jéssica, no batismo. Subi no barco só pensando no batismo do meu anjo. O primeiro homem que vi foi o Soldado olhando o rio. Tinha muita gente no barco. Cada menina que entrava ganhava uma cerveja. Tinha um homem sentado numa cadeira de rodas com dois sacos cheios de notas de dez. Seu corpo tremia. Ele era estranho. Parecia um louco.
Quando o barco começou a navegar eu senti um alívio. Os homens gritaram e começaram a agarrar todo mundo. O homem da cadeira de rodas me chamava. Eu fugi dele. Deitei com uns cinco e fiz de tudo, tive até que beijar três meninas.
O Soldado ficava lá parado e olhando. Quando as coisas acalmaram um moço me pegou pela mão e me levou para o fundo do barco. Ele tinha olhos verdes e parecia um pouco com o príncipe dos meus sonhos. Ele me levou lá para baixo pela mão, sozinha. Ele me fez um carinho na cabeça e disse para eu dormir. Pegou um livro igual aquele do sonho e contou uma história de uma menina pequena, bem pequena, igual uma sementinha. Depois da história ele me disse que ia dar um presente para a Jéssica. Fui adormecendo e sonhando que estava mergulhando no rio e nadando bem lá para o fundo. Fui vendo minha mãe no fundo da água com um bebê no colo, eu achei que era a Jéssica e quando eu cheguei perto era um bebê muito parecido com ela, mas era eu. Aí o bebê sumiu e ela me abraçou. Nos braços da mamãe eu vi o Soldado me puxando pelos cabelos para cima e para fora da água. Vi descer até o fundo a cadeira de rodas do homem estranho. Muita madeira quebrada desceu pro fundo do rio. Vi várias meninas nadando e se divertindo com os peixes. Eu já estava rindo da brincadeira quando minha mãe me beijou e disse:
Vai brincar com as outras meninas meu anjo.
E assim eu fui brincar com as meninas e os peixes. A minha mãe me chamou de anjo. Ela não sabia que eu deitava com os homens e achava que eu era anjo igual à Jéssica. Quando olhei para minha mãe vi Jéssica em seu colo feliz e tranqüila me dando adeus com a mãozinha. Aí o livro desceu e caiu nos braços da mamãe, ela abriu e começou a contar história para a Jéssica. Acho que o presente que o príncipe disse que ia dar para a Jéssica era o livro. Acho que agora as coisas iam mudar pra gente.
Rômulo Augusto
20/10/2005

domingo, 6 de abril de 2008

IRMÃ TEODORA E AS DESVENTURAS DO CAVALEIRO AGILUFO


Cia. Brasilienses de Teatro apresenta:

Irmã Teodora e as Desventuras do Cavaleiro Agilulfo
Baseado no romance "O Cavaleiro Inexistente" de Ítalo Calvino

Espetáculo contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz-2007

"...a arte de escrever histórias consiste em saber extrair daquele nada que se entendeu da vida, o todo. Concluída a pagina, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos era realmente nada." (Irmã Teodora).

Dramaturgia e Direção: James Fensterseifer / Ass. de Direção: Paola Molinari / Iluminação: Marcelo Augusto / Trilha Sonora Original: Marcello Linhos / Cenografia e Adereços: Guto Viscardi / Figurinos e Maquiagem: Marcus Barozzi e Rubens Fontes. / Elenco: Cirila Targhetta, João Rafael, Luciana Martucheli, Rômulo Augusto, Similião Aurélio, Simone Marcelo e Túlio Starling.

O espetáculo narra a história do obstinado cavaleiro Agilulfo, paladino da França, modelo de soldado que serve ao rei Carlos Magno com força de vontade e fé na santa causa e que de embaraço carrega somente o fato de não existir.

A trama não se resume ao fato de Agilulfo não existir. Mesclando leveza e profundidade, humor e melancolia, reflexão e ironia, o texto tira proveito dessa idéia bastante singular para trabalhar a questão do que é ser. A armadura branca, brilhante, que abriga apenas uma voz, compõe um cavaleiro em busca da afirmação de sua existência.

A peça, que faz parte do projeto de pesquisa da companhia - "Palco Para Nossos Antepassados", aprofunda a discussão filosófica sobre o homem contemporâneo e faz uma reflexão metaficcional acerca da escrita, por meio da personagem narradora: Irmã Teodora. Freira em seu claustro, ela cria as desventuras de Agilulfo e questiona a si mesma o ato de escrever, indagando: até que ponto é possível encontrar um sentido para a literatura a não ser fora dela?

Para contar as desventuras de Agilulfo, irmã Teodora traz à cena outros personagens que, de formas diversas, influenciam na compreensão do espetáculo. O enigmático cavaleiro Torrismundo, a brava guerreira Bradamante, o aspirante a cavaleiro Rambaldo, o atrapalhado escudeiro Gurdulu, além de um hilário e senil Rei Carlos Magno, permeiam o enredo, enriquecendo a história. Trata-se de uma espécie de romance de cavalaria às avessas, com um tom de comédia-pastelão, onde o público transita com esses personagens admiráveis por várias situações fantásticas.

Sala Loyola / Centro Cultural de Brasília (601 Norte / Fone 3426 0400)
De 18 de Abril a 04 de Maio de 2008 / Sextas e sábados às 21h e domingos às 20h

Sinopse: Narrada pela Irmã Teodora, a peça mostra as desventuras do cavaleiro Agilulfo, que, mesmo sem existir, rege uma cavalaria do exército de Carlos Magno e, por este, é impelido a empreender uma viagem com o propósito de limpar certas difamações que colocaram em risco o seu título de nobre cavaleiro. Seguido por Bradamante (uma guerreira perdidamente apaixonada por ele), pelo jovem combatente Rambaldo (apaixonado por Bradamente), pelo seu confuso escudeiro Gurdulu e ainda cruzando caminhos com Torrismundo (seu difamador), Agilulfo aventura-se em uma demanda que o conduz à descoberta da sua existência no mundo. Este cavaleiro exemplar, apesar de inexistir, acaba por dar sentido à existência vulgar dos que o cercam.
Trecho do texto: Agilulfo – (para platéia) À noite, depois de tudo regulado, os turnos de guarda, o oficial de sentinela, as patrulhas, começa meu turno. O turno do silêncio. Todo o resto, a perpétua confusão do exército em guerra, a esta hora silencia. O sono venceu a todos! Os guerreiros finalmente livres dos elmos e das couraças, satisfeitos por se tornarem seres humanos distintos e inconfundíveis, aqui estão: todos roncando em uníssono, os dedões apontando para cima: dormem... (pausa) O reino dos corpos, uma exposição da velha carne de Adão, cheirando ao vinho bebido e ao suor da jornada das lutas. No umbral dos pavilhões jazem decompostas armaduras vazias... (para si) Esses corpos dão-me um mal estar. Esses meus colegas, esses afamados paladinos, o que são? A armadura, o testemunho de seu grau e nome, as façanhas executadas, a potência o valor: ei-las reduzidas a um invólucro, a uma ferragem vazia...

Mais informações:
Palco Para Nossos Antepassados
Tendo constantemente concretizado criações experimentadas na transposição da literatura clássica para o palco, a Cia. Brasilienses de Teatro apresenta, por meio de uma linguagem que já lhe é própria, uma autonomia narrativa e gestual em seus espetáculos. O literário acaba se configurando em pretexto para o revigoramento de outra forma expressiva, desencadeando uma livre experimentação em múltiplos planos teatrais, desarmando o fluxo narrativo do original (romance) e alinhavando um imaginário coletivo.
A trilogia "Os nossos antepassados", do emblemático escritor Ítalo Calvino, é fio condutor de nossa pesquisa, "Palco para nossos antepassados". Escrita ao longo da década de 50 e constituída dos títulos "O visconde partido ao meio", "O barão nas árvores" e "O cavaleiro inexistente", a trilogia tem como tema principal a luta do homem por manter sua identidade para além das mutilações impostas pela sociedade.
A companhia iniciou seu trabalho de pesquisa na obra Calviniana com o espetáculo "Cosme trepado", que teve sua dramaturgia e linguagem cênica baseadas no texto de "O barão nas árvores". A pesquisa, que culminou na montagem do espetáculo citado no ano de 2001, impulsionou o grupo a dar um importante passo na compreensão desta árvore genealógica do homem contemporâneo que é a obra de Calvino.
Com a encenação de "Irmã Teodora e as desventuras do cavaleiro Agilulfo" os "Brasilienses de Teatro" retomam e ampliam esta pesquisa dramatúrgica, consolidando a linguagem cênica que vem desenvolvendo nos últimos seis anos.

Cia. Brasilienses de Teatro
Cia. Brasilienses de Teatro é a alcunha pela qual respondem um grupo de artistas das artes cênicas que começaram a desenvolver um trabalho conjunto em 2001. Em sua trajetória, os Brasilienses de Teatro representaram doze espetáculos teatrais, dos quais podemos destacar: Colóquio Dentro de Um Ser, adaptado do texto homônimo de Paul Valéry e do romance A Metamorfose de Franz Kafka, realizado em 2001 no Centro Cultural Banco do Brasil, na Sala Martins Penna do TNCS e no FILO – Festival Internacional de Londrina; Cosme Trepado, adaptação do romance O Barão nas Árvores de Ítalo Calvino, realizado em 2001 no Espaço Cultural Renato Russo - Teatro Galpão; A Culpa é Minha, adaptação do romance A Hora da Estrela de Clarice Lispector, realizado em 2003 no Teatro da CAIXA e na Sala Martins Penna do TNCS; Cinco Minutos, baseado na novela Uma Criatura Dócil de Fiodor Dostoievski, realizado em 2005 no Teatro da CAIXA, no Teatro Caleidoscópio, no CCB - Sala Loyola e no 12º. Porto Alegre em Cena; Aquela Peça de Shakespeare, adaptação de Macbeth de William Shakespeare, realizada em 2005 no CCB - Sala Loyola e em 2006 na Casa D´Ítália - Teatro Goldoni; Idiota Cada Vez Mais, adaptação do romance Como me Tornei Estúpido de Martin Page, realizada em 2006 no CCB - Sala Loyola; e Eu, O Tentador, compilagem de textos - dramaturgia James Fensterseifer e Adriano Sommer, realizado em 2007 na Casa D´Ítália - Sala Adolfo Celi.

sábado, 15 de março de 2008

Um objeto

Imagem de um objeto
Fotografia da imagem de um objeto
Reprodução da fotografia da imagem de um objeto
Um clone
Imagem de um clone
Fotografia da imagem de um clone
Reprodução da fotografia da imagem de um clone

Cópia de cópias das reproduções de fotografias de umas imagens
E faremos cópias
E seremos sempre imitadores
Seremos sempre piratas
Nós os falsificadores
Imitaremos tudo
Imitaremos a graça
Imitaremos a desgraça
Imitaremos o delírio
Imitaremos o prazer
Imitaremos a dor
Imitaremos a vida

Seguiremos certos e certamente enganados
Somos sempre obra inacabada
Obra que não se copia

Rômulo 1990

sexta-feira, 14 de março de 2008

PARAÍSO

Liguei fio por fio
Coloquei peça por peça
Ela me olhou
Pensei que ela me admirava
Armei um belo cenário
Tinha flores e amores
Na labuta comecei a emagrecer
O cenário ficou um pouco grande
Acabei por diminuí-lo
Precisava diminuí-lo cada vez mais
Emagrecia cada vez mais
Ninguém ligou
Tirei as flores
Depois tireis os amores
Desliguei fio por fio
Tirei peça por peça
Ela parou de olhar
Me pus a chorar
Nada fazia
Comecei a engordar
Engordei como um porco manso e velho
Cada vez menos útil
Me tornei inútil para mim mesmo
Resolvi não mais engordar
Parei de comer
Emagreci
Ossos
Pele
Morte
Caixão
Assim fedi como um porco manso e velho
Não me perfumaram
Me enterraram
Pensei que a morte seria confortante
Ela era inundante
Meu corpo estava repleto
Vermes brancos
Não paravam de me comer
Queria que fossem
Do meu paraíso
E não paravam de engordar
Eu não tinha mais tempo
Estava morto e podre
Estava no meu paraíso latino americano

Rômulo 1989

Mulheres do cinema

As mulheres do cinema
Mulheres da vida
Mulheres das cartas
Mulheres no meu pensamento
Corpos inusitados
E os homens
Todos eles agrupados
Em fileiras mentais
Saindo de mim
Agindo em mim
Relacionando
Eu e elas


Rômulo Augusto 12/1993

sexta-feira, 7 de março de 2008

POLÍTICA CULTURALLei de incentivo está próxima

Audiência pública na manhã de ontem, na Câmara Legislativa, garantiu que a nova legislação será votada até o fim do mês. artistas aplaudem
Pedro Brandt Da Equipe do Correio
Gustavo Moreno/Especial para o CB
Artistas e políticos frente a frente na audiência de ontem: mais verbas e uma legislação abrangente

Algum desavisado poderia estranhar o ambiente do lado de fora da Câmara Legislativa na manhã de ontem. No estacionamento, um trio elétrico tocava música e, a poucos metros dali, um grupo de forró se apresentava em cima de um palco improvisado. Munido de megafone, um homem saudava as pessoas que chegavam de ônibus – segurando cartazes e faixas, muitas a caráter, vestidas de palhaço, cangaceiro, entre outras figuras da cultura popular. Dentro da Câmara, cerca de 150 pessoas acompanhavam a audiência pública cuja pauta debatia a Lei de Incentivo à Cultura. O clima era de celebração (dentro e fora do local) e não poderia ser diferente. Afinal, o assunto é do interesse dos produtores e artistas presentes no local. No final da audiência, muitos comemoravam o acordo entre governo e oposição que garantiu a votação da lei até o final do mês. O consenso entre os deputados Eurides Brito (PMDB), Cabo Patrício (PT) e Paulo Tadeu (PT ) garantiu a votação da lei nos próximos 20 dias. Além dos deputados mencionados, compuseram a bancada o consultor jurídico do GDF, Marcelo Galvão, o secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, o secretário adjunto de Cultura, Beto Sales, e ainda o representante do Fórum de Cultura, maestro Rênio Quintas. “Sinto que passamos hoje por um momento histórico”, desabafou o músico. O comentário do maestro não é exagero. Brasília ainda não tem uma lei específica para projetos culturais. Sobram para a comunidade artística a iniciativa privada e o Fundo da Arte e da Cultura (FAC), cujo orçamento varia de acordo com uma série de fatores. A aprovação da Lei de Incentivo à Cultura não significa o fim do FAC, mas, ao contrário deste, está desvinculada do desconto tributário concedido aos patrocinadores. A lei estará ligada diretamente à receita corrente líquida do GDF (R$ 9 bilhões) e contará com 0,3% de seu total. Será ligada à arrecadação e não aos tributos, ou seja, pode entrar em atividade imediatamente após sua aprovação, e não somente um ano depois, como no outro caso. Mais verbas Se antes os recursos estavam na casa dos R$ 4 milhões, com a lei passam para aproximadamente R$ 27 milhões. Do montante, R$ 11 milhões serão editalizados pelo FAC, o restante, destinado a concursos de projetos. Na avaliação de Beto Sales, a lei vai ao encontro de uma obrigação do governo. “A economia gerada pela cultura é maior que a gerada pela industria automobilística, por exemplo. Temos que defender a cultura, pois ela gera mais empregos”, argumentou o secretário adjunto. As reivindicações pela Lei de Incentivo à Cultura no Distrito Federal são antigas, mas só recentemente se deu um movimento mais eficaz rumo a sua concretização. As discussões entre as secretarias de Cultura e de Fazenda começaram ano passado. Silvestre Gorgulho e o deputado Alírio Neto, presidente da Câmara Legislativa, se encontraram em 13 de fevereiro para acelerar a tramitação do projeto de lei do executivo para o legislativo. “O FAC está definhando, precisamos com urgência dessa lei”, declarou o secretário de Cultura na manhã de ontem. O deputado Paulo Tadeu está confiante que a Câmara se empenhará em aprovar a lei. No entanto, ele prossegue, é preciso que algumas preocupações sejam resolvidas, como a regulamentação da emenda à Lei Orgânica com a definição das regras sobre a divisão e administração dos recursos, a criação de um conselho gestor para o fundo e a atualização da legislação do FAC. Para isso, foi criada a Frente Parlamentar Pró-Cultura e Identidade Cultural do Distrito Federal, destinada a apoiar o desenvolvimento de legislação, políticas e ações voltadas para a cultura no DF. “Brasília tem todas as condições para se tornar um grande celeiro cultural e, com isso, uma grande geradora de empregos”, acredita. Após a fala dos políticos e representantes do governo, foi a vez de os representantes dos fóruns de cultura colocarem suas reivindicações na mesa. Joana Henning, do fórum do circo, pede a criação da cadeira de circo, cultura popular e teatro de rua dentro da Secretaria de Cultura. Leonardo Hernandes, do fórum de teatro, reiterou a necessidade de a lei ser aprovada. “Olhem com carinho para essa lei, pois temos muita pressa”, pediu. Quem roubou a cena, no entanto, foi o palhaço Ankomárcio Saúde, integrante da dupla Irmãos Saúde. Quebrando todos os protocolos (“como eu sou palhaço, estou me sentindo muito bem nesta casa”), fez rir, mas também falou sério. “Sou um exemplo vivo do que a cultura pode fazer pelas pessoas. Em determinado momento da minha vida, tive que fazer uma escolha, e escolhi a arte. Caso contrário, talvez não estivesse aqui hoje para contar minha história”, desabafou

POLÍTICA CULTURALLei de incentivo está próxima

Audiência pública na manhã de ontem, na Câmara Legislativa, garantiu que a nova legislação será votada até o fim do mês. artistas aplaudem
Pedro Brandt Da Equipe do Correio
Gustavo Moreno/Especial para o CB
Artistas e políticos frente a frente na audiência de ontem: mais verbas e uma legislação abrangente

Algum desavisado poderia estranhar o ambiente do lado de fora da Câmara Legislativa na manhã de ontem. No estacionamento, um trio elétrico tocava música e, a poucos metros dali, um grupo de forró se apresentava em cima de um palco improvisado. Munido de megafone, um homem saudava as pessoas que chegavam de ônibus – segurando cartazes e faixas, muitas a caráter, vestidas de palhaço, cangaceiro, entre outras figuras da cultura popular. Dentro da Câmara, cerca de 150 pessoas acompanhavam a audiência pública cuja pauta debatia a Lei de Incentivo à Cultura. O clima era de celebração (dentro e fora do local) e não poderia ser diferente. Afinal, o assunto é do interesse dos produtores e artistas presentes no local. No final da audiência, muitos comemoravam o acordo entre governo e oposição que garantiu a votação da lei até o final do mês. O consenso entre os deputados Eurides Brito (PMDB), Cabo Patrício (PT) e Paulo Tadeu (PT ) garantiu a votação da lei nos próximos 20 dias. Além dos deputados mencionados, compuseram a bancada o consultor jurídico do GDF, Marcelo Galvão, o secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, o secretário adjunto de Cultura, Beto Sales, e ainda o representante do Fórum de Cultura, maestro Rênio Quintas. “Sinto que passamos hoje por um momento histórico”, desabafou o músico. O comentário do maestro não é exagero. Brasília ainda não tem uma lei específica para projetos culturais. Sobram para a comunidade artística a iniciativa privada e o Fundo da Arte e da Cultura (FAC), cujo orçamento varia de acordo com uma série de fatores. A aprovação da Lei de Incentivo à Cultura não significa o fim do FAC, mas, ao contrário deste, está desvinculada do desconto tributário concedido aos patrocinadores. A lei estará ligada diretamente à receita corrente líquida do GDF (R$ 9 bilhões) e contará com 0,3% de seu total. Será ligada à arrecadação e não aos tributos, ou seja, pode entrar em atividade imediatamente após sua aprovação, e não somente um ano depois, como no outro caso. Mais verbas Se antes os recursos estavam na casa dos R$ 4 milhões, com a lei passam para aproximadamente R$ 27 milhões. Do montante, R$ 11 milhões serão editalizados pelo FAC, o restante, destinado a concursos de projetos. Na avaliação de Beto Sales, a lei vai ao encontro de uma obrigação do governo. “A economia gerada pela cultura é maior que a gerada pela industria automobilística, por exemplo. Temos que defender a cultura, pois ela gera mais empregos”, argumentou o secretário adjunto. As reivindicações pela Lei de Incentivo à Cultura no Distrito Federal são antigas, mas só recentemente se deu um movimento mais eficaz rumo a sua concretização. As discussões entre as secretarias de Cultura e de Fazenda começaram ano passado. Silvestre Gorgulho e o deputado Alírio Neto, presidente da Câmara Legislativa, se encontraram em 13 de fevereiro para acelerar a tramitação do projeto de lei do executivo para o legislativo. “O FAC está definhando, precisamos com urgência dessa lei”, declarou o secretário de Cultura na manhã de ontem. O deputado Paulo Tadeu está confiante que a Câmara se empenhará em aprovar a lei. No entanto, ele prossegue, é preciso que algumas preocupações sejam resolvidas, como a regulamentação da emenda à Lei Orgânica com a definição das regras sobre a divisão e administração dos recursos, a criação de um conselho gestor para o fundo e a atualização da legislação do FAC. Para isso, foi criada a Frente Parlamentar Pró-Cultura e Identidade Cultural do Distrito Federal, destinada a apoiar o desenvolvimento de legislação, políticas e ações voltadas para a cultura no DF. “Brasília tem todas as condições para se tornar um grande celeiro cultural e, com isso, uma grande geradora de empregos”, acredita. Após a fala dos políticos e representantes do governo, foi a vez de os representantes dos fóruns de cultura colocarem suas reivindicações na mesa. Joana Henning, do fórum do circo, pede a criação da cadeira de circo, cultura popular e teatro de rua dentro da Secretaria de Cultura. Leonardo Hernandes, do fórum de teatro, reiterou a necessidade de a lei ser aprovada. “Olhem com carinho para essa lei, pois temos muita pressa”, pediu. Quem roubou a cena, no entanto, foi o palhaço Ankomárcio Saúde, integrante da dupla Irmãos Saúde. Quebrando todos os protocolos (“como eu sou palhaço, estou me sentindo muito bem nesta casa”), fez rir, mas também falou sério. “Sou um exemplo vivo do que a cultura pode fazer pelas pessoas. Em determinado momento da minha vida, tive que fazer uma escolha, e escolhi a arte. Caso contrário, talvez não estivesse aqui hoje para contar minha história”, desabafou

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Política Cultural - Malabarismos dramáticos

Brasília, quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008



POLÍTICA CULTURAL
Malabarismos dramáticos

Funarte atrasa pagamento dos prêmios Myrian Muniz e Klauss Vianna e compromete o cronograma de produção das montagens de teatro e dança agraciadas com o incentivo


--------------------------------------------------------------------------------

Naiobe Quelem
Da equipe do Correio

Adauto Cruz/CB - 22/2/07



Adeilton lima: “Os recursos deveriam ter sido liberados no final do ano”


Murilo Meirelles/Divulgação



As Marias da Graça puseram os gastos na web: sem verba para quitação



O que deveria ser alento para quem conhece as limitações de viver de teatro no país transformou-se em dramático espetáculo de malabarismo e mágica protagonizado por diretores e grupos contemplados por editais da Funarte de fomento à cultura. Alguns dos prêmios – lançados em 14 de maio do ano passado pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, e pelo presidente da Funarte, Celso Frateschi – deveriam ter sido repassados até o final de 2007. Mas, até agora, parte dos agraciados não recebeu o dinheiro. O novo prazo previsto pela Funarte para pagamentos dos recursos – informado publicamente apenas nesta semana – é final de março. O problema é que, para cumprir a data limite de apresentação das montagens exigida pelo programa (até 4 de maio), muitos artistas tiveram que arcar com os custos das produções.

Diante do atraso, a Funarte prorrogou, na semana passada, os prazos para realização dos projetos em 249 dias, a contar do recebimento do prêmio, para os contemplados pelo Myrian Muniz e pelo Klauss Vianna. Mas a mudança veio tarde. Seguindo a programação, os grupos reservaram pautas nos teatros – alguns fizeram contratos que prevêem multas rescisórias – e outros não conseguiram remarcar as temporadas diante de agendas lotadas. Os casos envolvem grupos de diferentes estados e do Distrito Federal.

A Associação Brasiliense de Teatro, contemplada com o prêmio Myrian Muniz de R$ 30 mil para a realização do projeto Palco para nossos antepassados, conseguiu remarcar a apresentação para 19 de abril. Isso significa que, se a Funarte cumprir a nova data de repasse dos prêmios, planejada para o final de março, o grupo terá apenas 19 dias para providenciar cenários, figurinos, objetos de cena, iluminação, entre outros elementos necessários à produção de um espetáculo. “Como isso é praticamente inviável, estamos produzindo antes com nosso dinheiro ou emprestado”, conta o diretor e produtor teatral James Fensterseifer.

Apreensivo com o atraso, o ator brasiliense Adeilton Lima, também agraciado com o Myrian Muniz, tenta informações na Funarte desde dezembro. “Ligo na sede, no Rio de Janeiro, e os funcionários não sabem dizer o que está acontecendo. Apenas falam que o dinheiro sairá em breve. Mas era para o recurso ter sido liberado no final do ano passado”, diz um preocupado Adeilton, que estreará Diário de um louco em abril. “Não tenho muitos gastos com cenário, pois se trata de um monólogo. Mas há uma série de outras despesas, como iluminação, material de divulgação, assessoria de imprensa, pagamento de cachês para quem adaptou o texto e dirigiu o trabalho”, enumera.

Fora do Distrito Federal, a situação é até mais complexa. A Outra Companhia de Teatro, residente do Teatro Vila Velha, em Salvador, só receberá os recursos no final da temporada. “Temos uma programação a cumprir porque a pauta anual é feita a partir de uma reunião de colegiado. O único período disponível para apresentar nosso projeto, que é bem extenso, antes do dia 4 maio, era a partir de 6 de março”, conta o coordenador de produção do grupo baiano, Luiz Antônio Jr. Somem-se a isso os prejuízos ao projeto original. “Nosso cronograma foi se flexibilizando com o passar dos dias, assim como as ações propostas, até que a realização do projeto da forma como inscrevemos e como foi aprovado se tornasse inviável”, lamenta a companhia, em carta divulgada na internet em 11 de fevereiro.

Credibilidade
O manifesto foi seguido por outros protestos na rede mundial de computadores, como o da trupe carioca As Marias da Graça, composta por quatro palhaças. Desta vez, em tom sério, elas questionam: “Como ficaria a credibilidade do Prêmio Myrian Muniz e da Funarte perante os teatros se todos os contemplados começassem a adiar suas estréias? Assinamos um contrato com o espaço Sesc e resolvemos cumprir nossa palavra. Manteremos nossa estréia (em 14 de março) mesmo sem dinheiro.” E logo abaixo, sem perder o humor, elas listam planilha de custos do espetáculo. O pagamento, claro, só após o repasse do prêmio. “A carta foi enviada para a presidência da Funarte com cópia para os setores da Fundação envolvidos no assunto e ainda para o Ministério da Cultura, para o próprio ministro e para o gabinete executivo. Mas não obtivemos nenhuma resposta oficial”, lembra a clown Vera Lúcia Ribeiro.

Segundo a Funarte, o atraso ocorreu porque a fundação precisou apresentar à Petrobras – parceira nos prêmios – um nível maior de informações nos documentos para proceder ao pagamento. Desta vez, houve a exigência da Gefip, um documento fiscal detalhado, que não era exigido nos anos anteriores.

A Petrobras informou que a primeira parcela do patrocínio, estimada em 80% do valor total do prêmio, foi paga. Para receber os 20% restantes, é normal que a fundação apresente um relatório completo das atividades realizadas com a verba. A instituição patrocinadora lembra que a Gefip só é pedida quando há um período longo entre o pagamento da primeira parcela e a apresentação do relatório. Segundo a Petrobras, o relatório ainda não foi apresentado pela Funarte. A previsão é que tudo seja resolvido entre 30 e 45 dias e o dinheiro seja liberado. Do total de prêmios, resta pagar R$ 1,4 milhão a 33 grupos contemplados pelo Myrian Muniz e R$ 590 mil a 15 grupos agraciados com o Klauss Vianna.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Corpo Condutor - Distância e Proximidade

O ator, desempenhando um papel ou encarnando uma personagem, situa-se no próprio cerne do acontecimento teatral. Ele é o vínculo vivo entre o texto do autor, as diretivas de atuação do encenador e o olhar e a audição do espectador. Compreende-se que este papel esmagador tenha feito dele, na história do teatro, ora uma personagem adulada e mitificada, um “monstro sagrado”, ora um ser desprezado do qual a sociedade desconfia por um medo quase instintivo.

Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947


Até o início do século VII, o termo ator designava a personagem da peça; ele passou a ser, em seguida, aquele que tem um papel, o artesão da cena e o comediante. Na tradição ocidental, na qual o ator encarna sua personagem, fazendo-se passar por ela, ele é, antes de mais nada, uma presença física em cena, mantendo verdadeiras relações de “corpo-a-corpo” com o público, o qual é convidado a sentir o lado imediatamente palpável e carnal, mas também efêmero e impalpável de sua aparição.
O ator, ouve-se dizer com freqüência, é como que “habitado” e metamorfoseado por uma outra pessoa; não é mais ele mesmo, e sim uma força que o leva a agir sob os traços de um outro: mito romântico do ator de “direito divino”, que não estabelece diferença entre o palco e a vida.
Contudo, este é apenas um dos possíveis aspectos do vínculo entre ator e personagem: ele pode marcar também toda a distância que o separa do seu papel mostrando, como o ator brechtiano, sua construção artificial. Esta é uma velhíssima discussão entre os partidários de um ator sincero que sente e revive todas as emoções da personagem e um ator capaz de domina-las e simula-las, “fantoche maravilhoso cujos fios o poeta puxa e ao qual ele indica a cada linha a verdadeira forma que ele deve assumir” (DIDEROT, em Paradoxo Sobre o Comediante,1775).
A questão da sinceridade do ator assume às vezes a forma de um conflito entre duas concepções de criatividade no ator: ator/rei que improvisa e cria livremente, às vezes com os excessos do canastrão ou do “monstro sagrado”, ou o ator considerado como supermarionete (CRAIG) acionado por um encenador.

Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947

ATOR - Distância e Proximidade

Até o início do século VII, o termo ator designava a personagem da peça; ele passou a ser, em seguida, aquele que tem um papel, o artesão da cena e o comediante. Na tradição ocidental, na qual o ator encarna sua personagem, fazendo-se passar por ela, ele é, antes de mais nada, uma presença física em cena, mantendo verdadeiras relações de “corpo-a-corpo” com o público, o qual é convidado a sentir o lado imediatamente palpável e carnal, mas também efêmero e impalpável de sua aparição. O ator, ouve-se dizer com freqüência, é como que “habitado” e metamorfoseado por uma outra pessoa; não é mais ele mesmo, e sim uma força que o leva a agir sob os traços de um outro: mito romântico do ator de “direito divino”, que não estabelece diferença entre o palco e a vida. Contudo, este é apenas um dos possíveis aspectos do vínculo entre ator e personagem: ele pode marcar também toda a distância que o separa do seu papel mostrando, como o ator brechtiano, sua construção artificial. Esta é uma velhíssima discussão entre os partidários de um ator sincero que sente e revive todas as emoções da personagem e um ator capaz de domina-las e simula-las, “fantoche maravilhoso cujos fios o poeta puxa e ao qual ele indica a cada linha a verdadeira forma que ele deve assumir” (DIDEROT, em Paradoxo Sobre o Comediante,1775). A questão da sinceridade do ator assume às vezes a forma de um conflito entre duas concepções de criatividade no ator: ator/rei que improvisa e cria livremente, às vezes com os excessos do canastrão ou do “monstro sagrado”, ou o ator considerado como supermarionete (CRAIG) acionado por um encenador.

Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947

ATOR


“Criar personagens é, no meu modo de ver, principalmente observar e imaginar. Observo as pessoas interessantes - ou seja, as que me interessam vivamente por repulsa, atração ou qualquer envolvimento. Para criar ficção, aliás, não basta observar só as pessoas, mas ser observador de tudo. A observação informa de maneira viva, reveladora. Uma coisa é aprender, no primeiro ano de escola, que o ano tem quatro estações. Outra coisa é sentir as quatro estações na vida - a certa altura, até no próprio corpo. Para criar personagens parto, assim, da observação das pessoas - seu comportamento, suas expressões. Personagem é basicamente ação e signos (uma gravata, por exemplo, a expressar desde logo uma condição econômica). Assim também as ações têm de ser não ações quaisquer, mas ações expressivas. Por exemplo, falar é uma ação, bastante expressiva; mais ainda se flagrarmos as personagens falando coisas reveladoras de suas vidas, suas idéias e emoções, suas relações com a história toda. Mas é tão ou mais importante flagrar também os gestos, mesmo os menores - e até mais eles, bem como os olhares, tiques, roupas, detalhe: - que falam a seu modo. Contudo a observação, pelo menos no que me toca, não é feita como um trabalho regular, como sentar à máquina para escrever. Faz-se a todo o momento, alimentada pela curiosidade natural. Provavelmente há pessoas mais observadoras e captadoras do que muitos escritores. Acontece que o criador, além do que observa, pode imaginar. Além de compor personagens com pedaços, momentos ou informações de tipos observados, pode contar com as informações do estudo e as possibilidades da imaginação.”
Domingos Pellegrini