Faroeste Caboclo Cinema

Faroeste Caboclo Cinema
Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Colo de Mãe

Estava a caminho do trabalho, dentro do ônibus, e observando uma criança no colo de sua mãe senti um certo conforto. Tamanha segurança em seus olhos me despertou inveja. Na verdade quis ser ela ou ele, não sei ao certo o gênero do bebê, mas isto não tinha importância naquele momento.

Observei a mãe por um tempo e imaginei que ela era uma espécie de mamadeira em forma de mulher com seios grandes e estufados que jorravam leite. Isso me fez voltar a atenção novamente para a criança, que já se rendia a um cochilar hedonista. Me lembrei de quando era criança, da minha mãe.

Eu me projetei naquele pequeno ser, que inocente a todas as mazelas que estão por vir em sua vida de adulto, se esbanjava em estado de sonolência só possível naquela idade devido à sua condição de infanta no colo de sua mãe. A visão daquele bebê gerou em mim uma pulsão criativa que entre um breque e outro do ônibus me levou a pensar em ser novamente criança e, mais precisamente, um bebê. Fui olhando e caindo em um sono que me contagiou e me levou a sonhar. Sonhei que me tornava aquele bebê no colo daquela mãe peituda.


Mamãe começou a me balançar de um lado para o outro se ajeitando e se acomodando na cadeira dura do coletivo. Ela me jogou de banda e se levantou puxando a cordinha para o ônibus parar e ela descer me balançando um pouco mais, num trepidar desajeitado de seu andar sobre aquele salto alto de madeira que produzia um toc-toc e um arrastar de salto irritante que me fez chorar.
Comecei a sentir desconforto com a situação.

Ela foi pedindo:
Queta!
Queta!
Cala!
Quanto mais eu ouvia a sua voz mais eu chorava.
Cala menina! Percebi que eu era menina e não menino.
Chorei mais.
Queta! Pára de chorar porra!
Eu pensava:
Palavrão para um bebê não pode, não é certo. Eu tentava argumentar, mas só conseguia chorar. Chorei por ela e por mim. Eu ia crescer ouvindo aquelas palavras violentas e ia aprender a ser assim. E mais eu chorava e a minha mamãe ficava mais nervosa e lá vem choro e irritada ela chegava a me sacolejar e, claro, eu chorava mais.

Ela andou por alguns segundos entre gritos, balançadas e meu choro incessante até parar debaixo de uma árvore e me largar com truculência naquele gramado e à sombra.

Parei de chorar de súbito quando fui largado, ou melhor, largada, fui quase jogado debaixo daquela árvore, ou melhor, jogada.

Um longo tempo passou. Dez segundos, até eu perceber que estava só. E que minha mãe podia não voltar nunca mais. Pensei que sozinhos, eu e ela, - já que é só um sonho e eu não sou aquele bebê vou tratarmo-nos como nós – nós não sobreviveríamos aos mosquitos, às lagartas de fogo, aos pássaros, à chuva, aos cachorros do mato e ao que é pior, aos seres humanos que poderiam nos fazer mal. Alguém tinha que fazer alguma coisa, então, como eu era o mais velho e mais experiente ali, resolvi berrar.

Choramos juntos por longas horas, até que ao longe vindo em nossa direção a mamãe parecia uma Santa. Um alívio tomou conta de nossos corações no tempo em que ela voltava. Ela nos pegou no colo e sem mais delongas jogou o nosso corpinho em um saco preto e escuro. Por um tempo paramos de chorar até chorarmos com mais força ao percebermos que a mamãe não era Santa e queria na verdade se livrar da gente nos enfiando naquele saco de lixo preto e amarrando.
Começou a andar com a gente segurando o nó do saco e nos balançava como se carregasse um pedaço grande de carne. Antes os mosquitos, as lagartas de fogo, os pássaros, a chuva, os cachorros e o frio. Aquilo poderia ser o nosso fim.

Resolvemos para de chorar para ver se ela arrependia. Pensei que a culpa era minha por ter feito algo errado antes do sonho. Queria pedir desculpas, mamãe. Quando comecei a pedir desculpas um desespero tomou conta da gente e começamos a chorar muito e desesperadamente. Só ela poderia nos salvar e ela queria nos eliminar de forma cruel. Nossa mamãe irritada dava uns sopapos fortes no saco até nos calar com uma espécie de desmaio. O calor estava ficando insuportável naquele saco. Começamos a chorar novamente de sede e calor, além de fome que começávamos a sentir.

De repente tudo ficou meio fresquinho com um certo impacto freqüente que vinha de todos os lados e gerava um barulho ensurdecedor. Um certo alívio até chorarmos como loucos quando percebermos que nossa mamãe nos lançou ao rio.
Era o fim por asfixia ou afogamento. Este era nosso fim.

Parei pensei me vi como o líder ali e concluí que, se éramos dois eu não era aquele bebê de fato. Como aquilo era um sonho, cabia a mim, que era o mais velho naquele saco, acabar com o sonho, que já havia se tornado um pesadelo desmedido e trágico.

Acordei na penúltima parada de ônibus antes da minha e antes do afogamento ou asfixia. Procurei o bebê que eu observava antes de dormir e não o vi mais. A mãe desceu com ele e o levou a algum lugar.
Desejo sorte ao bebê.
Fui trabalhar aliviado por já ser adulto.
Fui trabalhar pensando na sorte dos bebês e de suas Santas mães.
Fiquei feliz pela sorte de ter tido uma mãe e um colo até aprender a andar e argumentar.

Rômulo Augusto 12/2007

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Mudança

Esta palavra quando era ouvida pelo nosso personagem servidor público, nível médio do Ministério das Minas e Energia, provocava nele uma espécie de depressão com arrepios seguidos de sono, muito sono. Ele sabia que qualquer tipo de mudança fazia sobrar mais trabalho para ele. Não que ele não fosse disposto a trabalhar e muito pelo contrario, na verdade o que o indignava era que sobrava mais trabalho para ele, justamente por ser ele um cara bem disposto. Não tinha o costume de observar a vida do outro, mas era inevitável perceber que quem ficava quieto no canto sem se dispor à nada acabava sendo beneficiado com o ócio.
Mudança de cargos implicava em mudança de nomes nos ofícios e memorandos, mudança de mobiliário e decoração. Ele adquiriu uma renite alérgica ao enfrentar quase anualmente quilos e mais quilos de poeira das freqüentes reformas feitas em seu local de trabalho. E, claro, sobrava para ele e seus colegas de nível médio carregar os papéis repletos de ácaros de um lado para o outro e sem deixar sumir nenhum processo ou documento.
Ele passou no concurso de nível médio, e tinha se formado em Direito. Tentou duas vezes o exame da Ordem dos Advogados sem sucesso e desistiu temporariamente de sua carreira de advogado. Soube naquela manhã que o Ministro iria cair. Pensou que mais mudanças iriam ocorrer. Tentou trabalhar no que estava fazendo, mas concluiu que seria inútil, pois não haveria continuidade. Ficou divagando por meio período e no outro período ficou jogando paciência. Logo veio a notícia de que a nova Coordenadora começaria no dia seguinte. Ele ficou imaginando que ela entraria na sala cheia de vontade de mudar tudo o que seu antecessor fez e sem saber se era um trabalho útil ou não, bom ou não. Parece que o importante no serviço público é isso mesmo, mudar a cara da repartição e estabelecer mudanças para que tudo mude ou pareça que esta mudando. Muda primeiro o gabinete, depois a disposição dos móveis e funcionários da seção e até mesmo o piso, que já está meio desgastado e o carpete, claro, provoca alergia. Ela chegou e iria se reunir com todos, individualmente, para inquirir cada um dos funcionários buscando mapear o perfil na perspectiva de ver quem daqueles iria ou não servir aos seus propósitos e quem ela poderia por à disposição para contratar uns companheiros que estão precisando trabalhar. Cargos de confiança. Cargo de confiança para os de fora. Quem confiaria nele? Um advogado que não passou no exame da Ordem dos Advogados e exerce cargo de nível médio, meio cabeludo e que não usa terno ou gravata, e ainda ajuda nas mudanças. Como alguém minimamente inteligente poderia ajudar a mudar uma coisa em seu desfavor? Quem ajudaria outro a mudar a sua própria vida para pior? O nosso companheiro Servidor sempre ajudou os outros a mudar a sua vida para pior. Teve uma vez que descobriram que ele conversava bem com o público. Começaram a enchê-lo de elogios. Os mais entusiastas queriam lançá-lo na política. Outros queriam que ele fosse o chefe. O que aconteceu foi que ele foi incumbido de representar o Ministério em uma daquelas feiras que ocorrem nos finais de semana onde os publicitários enchem a conta de dinheiro e nosso funcionário não ganha nem folga para compensar o trabalho no final de semana. Enfim, na sua primeira vez exerceu com estrema competência a nova função. Vaidoso falava melhor e com maior propriedade que o próprio Ministro, que ainda estava estudando o cargo, mas que já sabia que para o Ministério aparecer e gastar verba era necessário participar de feiras publicitárias. Enfim, o nosso companheiro era um faz tudo dos mais rasteiros. Como tinha competência até para ser Ministro todos sabiam que não chegaria nem a chefe de Divisão. Se considerarmos a sua alta disposição para o trabalho poderíamos supor que ele talvez fosse rebaixado aos serviços gerais ou a operador de telemarqueting. Ele era solteiro e morava só. Não tinha namorada ou amante. Corria um boato maldoso, típico de repartição pública, que o nosso companheiro era viado. Na verdade ele nunca foi viado e nem era religioso, como alguns pensavam. Por vezes, mais precisamente para provar que ele não é viado, quando saia o salário ele ia até a esquina de seu prédio para pegar uma ou duas prostitutas para uma farra compensadora, mas isto era sigiloso até para ele mesmo.
Coincidiu que depois da farra do mês ele chegou no trabalho um tanto relaxado e era o dia que a nova Coordenadora iria entrevistá-lo em particular. Ele e poucos de sua sala viram a Coordenadora e já corriam boatos diversos, que a elevavam aos píncaros da bondadade e aos rodapés da maldade.
A Coordenadora chegou na cidade às pressas, chamada pelo Ministro. Ela era uma mulher muito preparada. Sabia três línguas e além de economista era uma militante do Movimento Ecologista.
Estava hospedada em um hotel pequeno no Setor Hoteleiro Sul. Acordou às seis da manhã, tomou café e pegou um taxi:
– Parque da Cidade.
– Sim Senhora.
E que Senhora! Ela era uma Paulistana alta, esguia e ao mesmo tempo redonda. Todos os dias ela praticava esporte e era linda, realmente chamava a atenção quando passava. Ia ao salão de beleza toda semana para ficar ainda mais estonteante. Separada a mais de três anos estava decidida a não sair mais de Brasília e quem sabe até constituir família. Depois do esporte ela voltou para o hotel, tomou um banho, onde ouso apenas destacar que foi um banho especial para ela por se tratar de um banho onde ela usou o chuveirinho para relaxar se divertindo sexualmente. Passou um creme hidratante no corpo todo, vestiu a roupa de trabalho e partiu feliz. Como nada sei sobre moda feminina não saberia nomear com propriedade o tipo de roupa que vestia a Beldade.
Enfim, era uma saia preta justa e não muito curta com uma blusa azul clara decotada a exibir um colo perfeito pontilhado por sardas decorativas que só acrescentavam ao conjunto. Cabelos castanhos com mexas douradas ela era ainda por cima bem séria e sabia impor respeito. Simpática, apresentou-se e seguiu para seu gabinete. Iniciou a chamada por ordem alfabética. Levava cerca de cinco minutos com cada um e quando a pessoa saía do gabinete todos os outros queriam saber o que tinha acontecido. Tudo indicava que ela iria aproveitar a todos e que pelo fato de ser de outra cidade ela não teria gente dela para trabalhar.
– Senhor Thomas... Lá foi o nosso Companheiro com a auto-estima flutuante e visivelmente nervoso.
O tempo foi passando e ele não saía de dentro do gabinete. Entrou por volta das 10:30 da manhã e saíram os dois juntos para almoçar. Não voltou mais naquela tarde e no dia seguinte ele havia sido transferido para o gabinete do Ministro onde obteve um cargo de confiança e nunca mais foi visto na repartição em que trabalhava e muito menos em feiras publicitárias feitas pelo Ministério. Quem quizesse vê-lo teria que ir ao parque da cidade por volta das 7:00 da manhã onde estaria praticando esporte com sua mais nova namorada e quem sabe futura esposa.


Rômulo Augusto
11/2005

Classificados

Todos os dias, ao nascer do sol é possível ver uma revoada de pombos assustados saindo do beiral da janela do apartamento 207. Em horas variadas, às vezes mais de uma vez por dia, mas quase sempre ao nascer do sol. Os vizinhos sabem bem o motivo da revoada. A senhora, Amelita, moradora do 207 também sabe e sente na pele os pequenos sopapos de seu marido neurastênico que tomado por um de seus ataques de fúria, incisivo e bombástico acorda a sua senhora para fazer o café. Por vezes, os vizinhos pensavam em chamar a polícia ou invadir o apartamento para impedir a violência, mas o costume de ouvir os gritos tornavam as coisas normais e os vizinhos anestesiados, desistiam de tomar providências.
E sempre o Peixoto saía cuspindo fogo.
Ao entrar no elevador, de repente, se tornava outra pessoa: Bom dia! Que belo Dia!
Era sempre assim com o casal. Meia hora depois, saía dona Amelita, meio envergonhada, rumo à quitanda. Pensava no cardápio do almoço e andava de cabeça baixa até que uma poça d’água impede seu percurso em linha reta e ela é obrigada a olhar para o lado onde vê uma pequena loja de Classificados do jornal de maior circulação de sua cidade. Súbito resolve fazer um anúncio.
- Bom dia! Posso ajudá-la?
- Sim, eu gostaria de fazer um anúncio.
- Pois não.
- Eu vou falando e você escreve?
- Sim senhora, pode dizer.
- Vendo ou troco...excelente estado... forte, conservado... funciona perfeitamente quando manuseado com jeito... branco, troco por carro velho que ande ou vendo por dois mil reais... Tratar com Amelita.
- Só isto, Senhora?
- Só.
- Mas está incompleto.
- Como?
- A senhora deve botar o seu telefone e o que propriamente a senhora esta anunciando.
- O telefone eu digo. Agora a coisa? Tem que ser coisa?
- Como assim?
- Não pode ser pessoa?
- Não senhora!
Saiu daquele lugar bufando. Sentou por um instante no banco da praça com vários pombos em volta. Mirou um em particular que se movimentava com dificuldade, mio mancoeba, tomou distância e correu para a bicuda que pegou o pombo em cheio. O coitado voou por uns metros e caiu em seguida meio morto.
Ele não esperava uma reação como esta daquela senhora, que parecia tão pacata. Voltou para casa, não sem antes passar pela quitanda como sempre.
Na manhã seguinte com a habitual revoada de pombos só se ouviu o grito do seu Peixoto, que com aquela rotineira truculência não esperava ser o pombo da vez e levar de sua Senhora, tão pacata, uma bicuda certeira na região escrotal. Seu Peixoto nem saiu naquela manhã. Só dona Amelita saiu de casa hoje. Alegre e altiva ela cantarolava enquanto seguia rumo à quitanda e de olho nos pombos do caminho. Depois da quitanda pretendia sentar na praça para continuar seu treino, que agora seria diário.
Rômulo Augusto 29/03/2006

domingo, 16 de dezembro de 2007

Oscar

Minha sua mãe é cearense
Meu seu pai é mineiro
O sonho era Brasília
E por ela nasceu
Concreto
Nasci por um acaso político
Existo pelo concreto
Existo pelo moderno
Sonho verde
Da esperança
Verde coralit
Da minha kit


Rômulo 94

João de barro

Meu nome é João de barro
João de lágrimas nos olhos
João da cegueira louca por ti
João que não sabe não
João que não se entende
E que contente segue cantando
A canção
A canção vai ouvir
Cantar, cantar e cantar
E sofrer por você
Que não ouve a canção de pássaros cantando
Vai voando e cantando
Esperando o dia de ser feliz
E cantar e cantar e cantar
Encantar, encantar, encantar
E cantar e cantar e cantar
E assobiar na árvore dos frutos da terra da gente
E que não sente que nada vai passar
E passar e passar e passar
E passando e passando e passando
E passar e passar e passar
Amar o ar, ar, ar, ar, você
Que não cantou
Que não canta
E não se espanta
Com meu cantar
O cantar de João de barro

Rômulo 1990
Cabelo liso, loiro, leve, curto olhar no chão seco, que a faz coçar o nariz dos homens que chegam perto do cheiro que exala de sua pele branca e corada pelo sol amarelo sorriso a um ser invisível diante da presença e ela um gesto de boca que não beija fala horror de voz todos os olhares piscam voltam a correr, pegar, quebrar, virar, cair, chutar, gritar, falar, piscar.
A manhã vai
A tarde vem
À noite nem vê passar
E já é manhã
E lá vem ela
A mulher da voz horror
Calada.

Rômulo Augusto 12/93