Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Política Cultural - Malabarismos dramáticos

Brasília, quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008



POLÍTICA CULTURAL
Malabarismos dramáticos

Funarte atrasa pagamento dos prêmios Myrian Muniz e Klauss Vianna e compromete o cronograma de produção das montagens de teatro e dança agraciadas com o incentivo


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Naiobe Quelem
Da equipe do Correio

Adauto Cruz/CB - 22/2/07



Adeilton lima: “Os recursos deveriam ter sido liberados no final do ano”


Murilo Meirelles/Divulgação



As Marias da Graça puseram os gastos na web: sem verba para quitação



O que deveria ser alento para quem conhece as limitações de viver de teatro no país transformou-se em dramático espetáculo de malabarismo e mágica protagonizado por diretores e grupos contemplados por editais da Funarte de fomento à cultura. Alguns dos prêmios – lançados em 14 de maio do ano passado pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, e pelo presidente da Funarte, Celso Frateschi – deveriam ter sido repassados até o final de 2007. Mas, até agora, parte dos agraciados não recebeu o dinheiro. O novo prazo previsto pela Funarte para pagamentos dos recursos – informado publicamente apenas nesta semana – é final de março. O problema é que, para cumprir a data limite de apresentação das montagens exigida pelo programa (até 4 de maio), muitos artistas tiveram que arcar com os custos das produções.

Diante do atraso, a Funarte prorrogou, na semana passada, os prazos para realização dos projetos em 249 dias, a contar do recebimento do prêmio, para os contemplados pelo Myrian Muniz e pelo Klauss Vianna. Mas a mudança veio tarde. Seguindo a programação, os grupos reservaram pautas nos teatros – alguns fizeram contratos que prevêem multas rescisórias – e outros não conseguiram remarcar as temporadas diante de agendas lotadas. Os casos envolvem grupos de diferentes estados e do Distrito Federal.

A Associação Brasiliense de Teatro, contemplada com o prêmio Myrian Muniz de R$ 30 mil para a realização do projeto Palco para nossos antepassados, conseguiu remarcar a apresentação para 19 de abril. Isso significa que, se a Funarte cumprir a nova data de repasse dos prêmios, planejada para o final de março, o grupo terá apenas 19 dias para providenciar cenários, figurinos, objetos de cena, iluminação, entre outros elementos necessários à produção de um espetáculo. “Como isso é praticamente inviável, estamos produzindo antes com nosso dinheiro ou emprestado”, conta o diretor e produtor teatral James Fensterseifer.

Apreensivo com o atraso, o ator brasiliense Adeilton Lima, também agraciado com o Myrian Muniz, tenta informações na Funarte desde dezembro. “Ligo na sede, no Rio de Janeiro, e os funcionários não sabem dizer o que está acontecendo. Apenas falam que o dinheiro sairá em breve. Mas era para o recurso ter sido liberado no final do ano passado”, diz um preocupado Adeilton, que estreará Diário de um louco em abril. “Não tenho muitos gastos com cenário, pois se trata de um monólogo. Mas há uma série de outras despesas, como iluminação, material de divulgação, assessoria de imprensa, pagamento de cachês para quem adaptou o texto e dirigiu o trabalho”, enumera.

Fora do Distrito Federal, a situação é até mais complexa. A Outra Companhia de Teatro, residente do Teatro Vila Velha, em Salvador, só receberá os recursos no final da temporada. “Temos uma programação a cumprir porque a pauta anual é feita a partir de uma reunião de colegiado. O único período disponível para apresentar nosso projeto, que é bem extenso, antes do dia 4 maio, era a partir de 6 de março”, conta o coordenador de produção do grupo baiano, Luiz Antônio Jr. Somem-se a isso os prejuízos ao projeto original. “Nosso cronograma foi se flexibilizando com o passar dos dias, assim como as ações propostas, até que a realização do projeto da forma como inscrevemos e como foi aprovado se tornasse inviável”, lamenta a companhia, em carta divulgada na internet em 11 de fevereiro.

Credibilidade
O manifesto foi seguido por outros protestos na rede mundial de computadores, como o da trupe carioca As Marias da Graça, composta por quatro palhaças. Desta vez, em tom sério, elas questionam: “Como ficaria a credibilidade do Prêmio Myrian Muniz e da Funarte perante os teatros se todos os contemplados começassem a adiar suas estréias? Assinamos um contrato com o espaço Sesc e resolvemos cumprir nossa palavra. Manteremos nossa estréia (em 14 de março) mesmo sem dinheiro.” E logo abaixo, sem perder o humor, elas listam planilha de custos do espetáculo. O pagamento, claro, só após o repasse do prêmio. “A carta foi enviada para a presidência da Funarte com cópia para os setores da Fundação envolvidos no assunto e ainda para o Ministério da Cultura, para o próprio ministro e para o gabinete executivo. Mas não obtivemos nenhuma resposta oficial”, lembra a clown Vera Lúcia Ribeiro.

Segundo a Funarte, o atraso ocorreu porque a fundação precisou apresentar à Petrobras – parceira nos prêmios – um nível maior de informações nos documentos para proceder ao pagamento. Desta vez, houve a exigência da Gefip, um documento fiscal detalhado, que não era exigido nos anos anteriores.

A Petrobras informou que a primeira parcela do patrocínio, estimada em 80% do valor total do prêmio, foi paga. Para receber os 20% restantes, é normal que a fundação apresente um relatório completo das atividades realizadas com a verba. A instituição patrocinadora lembra que a Gefip só é pedida quando há um período longo entre o pagamento da primeira parcela e a apresentação do relatório. Segundo a Petrobras, o relatório ainda não foi apresentado pela Funarte. A previsão é que tudo seja resolvido entre 30 e 45 dias e o dinheiro seja liberado. Do total de prêmios, resta pagar R$ 1,4 milhão a 33 grupos contemplados pelo Myrian Muniz e R$ 590 mil a 15 grupos agraciados com o Klauss Vianna.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Corpo Condutor - Distância e Proximidade

O ator, desempenhando um papel ou encarnando uma personagem, situa-se no próprio cerne do acontecimento teatral. Ele é o vínculo vivo entre o texto do autor, as diretivas de atuação do encenador e o olhar e a audição do espectador. Compreende-se que este papel esmagador tenha feito dele, na história do teatro, ora uma personagem adulada e mitificada, um “monstro sagrado”, ora um ser desprezado do qual a sociedade desconfia por um medo quase instintivo.

Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947


Até o início do século VII, o termo ator designava a personagem da peça; ele passou a ser, em seguida, aquele que tem um papel, o artesão da cena e o comediante. Na tradição ocidental, na qual o ator encarna sua personagem, fazendo-se passar por ela, ele é, antes de mais nada, uma presença física em cena, mantendo verdadeiras relações de “corpo-a-corpo” com o público, o qual é convidado a sentir o lado imediatamente palpável e carnal, mas também efêmero e impalpável de sua aparição.
O ator, ouve-se dizer com freqüência, é como que “habitado” e metamorfoseado por uma outra pessoa; não é mais ele mesmo, e sim uma força que o leva a agir sob os traços de um outro: mito romântico do ator de “direito divino”, que não estabelece diferença entre o palco e a vida.
Contudo, este é apenas um dos possíveis aspectos do vínculo entre ator e personagem: ele pode marcar também toda a distância que o separa do seu papel mostrando, como o ator brechtiano, sua construção artificial. Esta é uma velhíssima discussão entre os partidários de um ator sincero que sente e revive todas as emoções da personagem e um ator capaz de domina-las e simula-las, “fantoche maravilhoso cujos fios o poeta puxa e ao qual ele indica a cada linha a verdadeira forma que ele deve assumir” (DIDEROT, em Paradoxo Sobre o Comediante,1775).
A questão da sinceridade do ator assume às vezes a forma de um conflito entre duas concepções de criatividade no ator: ator/rei que improvisa e cria livremente, às vezes com os excessos do canastrão ou do “monstro sagrado”, ou o ator considerado como supermarionete (CRAIG) acionado por um encenador.

Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947

ATOR - Distância e Proximidade

Até o início do século VII, o termo ator designava a personagem da peça; ele passou a ser, em seguida, aquele que tem um papel, o artesão da cena e o comediante. Na tradição ocidental, na qual o ator encarna sua personagem, fazendo-se passar por ela, ele é, antes de mais nada, uma presença física em cena, mantendo verdadeiras relações de “corpo-a-corpo” com o público, o qual é convidado a sentir o lado imediatamente palpável e carnal, mas também efêmero e impalpável de sua aparição. O ator, ouve-se dizer com freqüência, é como que “habitado” e metamorfoseado por uma outra pessoa; não é mais ele mesmo, e sim uma força que o leva a agir sob os traços de um outro: mito romântico do ator de “direito divino”, que não estabelece diferença entre o palco e a vida. Contudo, este é apenas um dos possíveis aspectos do vínculo entre ator e personagem: ele pode marcar também toda a distância que o separa do seu papel mostrando, como o ator brechtiano, sua construção artificial. Esta é uma velhíssima discussão entre os partidários de um ator sincero que sente e revive todas as emoções da personagem e um ator capaz de domina-las e simula-las, “fantoche maravilhoso cujos fios o poeta puxa e ao qual ele indica a cada linha a verdadeira forma que ele deve assumir” (DIDEROT, em Paradoxo Sobre o Comediante,1775). A questão da sinceridade do ator assume às vezes a forma de um conflito entre duas concepções de criatividade no ator: ator/rei que improvisa e cria livremente, às vezes com os excessos do canastrão ou do “monstro sagrado”, ou o ator considerado como supermarionete (CRAIG) acionado por um encenador.

Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947

ATOR


“Criar personagens é, no meu modo de ver, principalmente observar e imaginar. Observo as pessoas interessantes - ou seja, as que me interessam vivamente por repulsa, atração ou qualquer envolvimento. Para criar ficção, aliás, não basta observar só as pessoas, mas ser observador de tudo. A observação informa de maneira viva, reveladora. Uma coisa é aprender, no primeiro ano de escola, que o ano tem quatro estações. Outra coisa é sentir as quatro estações na vida - a certa altura, até no próprio corpo. Para criar personagens parto, assim, da observação das pessoas - seu comportamento, suas expressões. Personagem é basicamente ação e signos (uma gravata, por exemplo, a expressar desde logo uma condição econômica). Assim também as ações têm de ser não ações quaisquer, mas ações expressivas. Por exemplo, falar é uma ação, bastante expressiva; mais ainda se flagrarmos as personagens falando coisas reveladoras de suas vidas, suas idéias e emoções, suas relações com a história toda. Mas é tão ou mais importante flagrar também os gestos, mesmo os menores - e até mais eles, bem como os olhares, tiques, roupas, detalhe: - que falam a seu modo. Contudo a observação, pelo menos no que me toca, não é feita como um trabalho regular, como sentar à máquina para escrever. Faz-se a todo o momento, alimentada pela curiosidade natural. Provavelmente há pessoas mais observadoras e captadoras do que muitos escritores. Acontece que o criador, além do que observa, pode imaginar. Além de compor personagens com pedaços, momentos ou informações de tipos observados, pode contar com as informações do estudo e as possibilidades da imaginação.”
Domingos Pellegrini