-Pronto!
Ela me disse de forma sentencial.
-Acabou!
Começou a rir como que aliviada.
-O quê que acabou?
Perguntei admitindo surgir algum vestígio de alegria em mim.
Vou interromper essa história para relatar o dia que vivi até ela chegar em casa e dizer decidida: Pronto!
Acordei como sempre com o som do impertinente despertador. Comprei o Maldito, buscando de loja em loja o som de despertar menos intrometido. Depois de procurar muito acabei escolhendo, talvez, o pior e mais estranho som de despertador. Isso eu narrei para que percebam que após acordar ao som do despertador que comprei, o mau humor já têm permissão de pousar no dia. Mas eu decidi não dar autorização de pouso nesta manhã. Fiz um esforço e até achei graça, em meio ao ronronar das espreguiçadas de minha mulher, do som melado do despertador. Melada é a sensação que me provoca o som daquele filho da puta. Não sei explicar essa sensação de melado. E naquele dia o despertador não ia melar o meu humor. Desliguei o maldito sem mais delongas, beijei de leve a nega, que reclamou do bafo e se virou de lado, e fui tomar um banho bacana, onde tinha planos de fazer a barba depois de defecar e assim o fiz. Com a cara meio suja de espuma e com leves cortes, abri a torneira e esperei a água cair do chuveiro. Alguns segundos se passaram até que notei que parte dos meus planos foi por água abaixo, ou melhor, foram adiados, pois do chuveiro não caiu uma gota sequer. Senti meu sangue subir como água da chaleira e esbocei um palavrão contundente, que não escapou, pois lembrei que tomaria um café quente e tudo iria dar certo sem que eu me alterasse ou ficasse com raiva do governo local, que deixa que a água acabe sem aviso. Lembrei que poderia ser culpa do cínico do síndico. Limpei a cara com a toalha, olhei a nega meio despida na cama, inocente, ela mal sabia o que a esperava no banheiro. Resolvi não avisar, deixei fluir a maldade um pouco e a ataquei com um cheiro no cangote. Quando senti que ela correspondeu iniciei gradualmente uma siririca contundente que a fez gozar rápido. Larguei ela na cama e fui direto fazer o café. Peguei a chaleira e ouvi um grito dela no banheiro. Sorri, e já concluindo o óbvio, mudei de direção. Ia para a torneira e desisti desviando para a geladeira, porque não haveria água na torneira da cozinha também. Lá na geladeira busquei na garrafa de água gelada a última esperança de fazer o café. Dessa vez foi uma grande provação, pois não tinha água na geladeira, também. Alguém desatento e inconseqüente bebeu toda a água e não encheu a garrafa. Esbocei novamente um palavrão retumbante que controlei permitindo sair apenas um resmungo preso na garganta! Saí de casa rápido, sem me despedir dela, que ainda estava no banheiro, cantando uma musica chiclete que se instalou em minha memória para completar o início desse dia aziago.
Música chiclete é aquele tipo de música bem popular que toca nas rádios mais bregas. Música sertaneja, axé, pagode exportação ou música pop americana ou, ainda, aquelas promovidas pelo Gugu Liberato ou Faustão que são sempre e invariavelmente músicas chicletes. Louras burras e filhos de cantores endinheirados também fazem música chicletes de primeira qualidade, dessas que grudam e só saem com britadeira. Esse esclarecimento serve mais para quem gosta deste tipo de pseudomúsica. E se você é uma destas pessoas eu desejo que você morra com ela na cabeça e tocando em seu velório, seu burro consumidor de lixo cultural. Desculpe a minha petulância, mas é que sinto uma certa raiva, tenho o temperamento explosivo. Acho que seria um bom homem bomba brasileiro. A propósito isso que estou escrevendo é também lixo cultural.
Caro leitor, estava eu surfando no silêncio do metrô e tentando tirar a música chiclete da cabeça, lembrei dos mestres Cartola, Noel, Adoniran, Tom, Vinícius e Chico. De repente entra em uma estação uma morena de mini saia bem curta e com cara de disponível. Ela vem em minha direção me olhando nos olhos. Fico meio sem graça, olho para minha aliança desviando o olhar. Olho para ela e ela esta me olhando com um sorriso nos lábios. Fico meio nervoso, ou melhor, fico meio alerta, querendo voar na mulher e apertar as nádegas polpudas dela. Enquanto calculo o estrago que daria eu em cima da Mulata, percebo que a música chiclete saiu da minha cabeça como milagre, aí no tempo que concluo que esqueci a música chicletes percebo que a porra da música voltou para a cabeça novamente. E na estação seguinte desce a gostosona sem olhar para traz.
-Vagabunda! Nem olhou novamente, e eu que estava quase apaixonado.
Volto à realidade, à música chiclete e tudo o mais que tenho direito. De repente uma angustia me toma e lembro que o mês iniciou e o salário já acabou. Penso no salário da minha esposa que ainda não foi pago e me alivio um pouco. Lembro novamente da Mulata e fico novamente com tesão. Penso que seria certo mesmo eu ter descido na estação da Mulata e fugido com a gostosa. Não tenho filhos com minha esposa, o casamento é só pagar contas, brigar um pouco, família de um e do outro nos domingo, missa para pedir perdão dos supostos pecados e garantir uma vaga no céu, enfim, todas as mazelas de um típico casamento do século XXI. E, claro, sempre faltando o essencial a um casamento feliz: Dinheiro.
Desci na minha estação e caminhei até o trabalho. Trabalho no Banco Rural, serviço estafante e sobre pressão. E vez por outra ainda tenho que suportar umas piadinhas recentes sobre os escândalos que o banco está envolvido. Quase não tenho tempo para nada, nem para coçar o saco. Trato cada cliente como rei para que eles se sintam bem e demorem bastante em minha mesa. Conto histórias de outros clientes, apropriadas por mim e contadas como se fosse eu o sujeito das peripécias bancárias. Tudo isso eu faço para parecer importante e requisitado pelos clientes. Tática que aprendi quando trabalhei no Executivo. Serviço público é que é bom. A casa do vizinho é sempre a mais bonita. A mulher do próximo é que é boa.
Hoje as coisas pareciam bem diferentes. Sentia que algo de ruim iria acontecer. De repente uma notícia bombástica interrompe a música chiclete e o trabalho. Demissão. O banco iria fechar várias agências no Brasil por conta dos escândalos com o partido do governo. Acho que o que pagava meu salário era dinheiro sujo da política. Eu fui punido. Punido apesar de trabalhar honestamente. Punido por optar pelo trabalho honesto. Fui para casa pensando na política e em que tipo de país é o meu que pune inocentes por sua inocência. Acredito que se eu fosse um operador político do banco não seria demitido. Eu nem podia chantagear ninguém, pois não sabia nada de ninguém. Se eu fosse um deputado que recebeu mensalão do governo não seria demitido. Seria cassado? Talvez cassado. Entretanto a minha conta bancária no banco Rural, Real, Urbano etc estaria gorda e cheia de mensalão. Eu seria julgado em foro privilegiado. Lembrei com orgulho do meu falecido pai que me dava uma mesada, que ironicamente nós chamávamos de mesadinha. Meu pai se vangloriava aos berros de sua honestidade. Meu pai morreu pobre e pagando aluguel. Não teve poder nem dinheiro e tudo para ele foi suado. Ele mesmo assim se vangloriava de ser honesto. O partido do governo sempre se vangloriou de ser um partido honesto. Chegou ao poder e diferente do meu pai o partido roubou. FODA-SE! Quis gritar no metrô e me contive.
Me conformei voltando para casa.
Sentei no sofá da sala. Chamei, e ela não estava em casa. Comecei a chorar como se ainda recebesse mesada de meu saudoso pai. Pensei nele e reforçou-se em mim um sentimento de orgulho de ser, como meu pai, um homem honesto e trabalhador.
Aquele sentimento de limpeza de consciência me deixava calmo e esperançoso de que as coisas iam melhorar e que a recompensa de ser honesto ia chegar, nem que fosse ao morrer.
Pronto! Entrou gritando minha mulher, porta adentro, interrompendo minha meditação.
-Acabou!
-O quê que acabou?
-Pedi demissão! Não vou mais me submeter àqueles canalhas.
Pensei: Eis a recompensa de ser honesto.
Serviço público é que é bom.
A casa do vizinho é sempre a mais bonita.
A mulher do próximo é que é boa.
Fui pensando essas coisa e me despindo para tomar um banho.
Entrei, como de manhã no banheiro. Corri a porta do box, me posicionei abaixo do chuveiro e torci a torneira e nada da água cair.
Finalmente o palavrão saiu escolhido, retumbante e seguido de uma gargalhada nervosa:
-CARALHO DE GOVERNO!
E a água caiu dos meus olhos.
Rômulo Augusto
Outubro/2005
Ela me disse de forma sentencial.
-Acabou!
Começou a rir como que aliviada.
-O quê que acabou?
Perguntei admitindo surgir algum vestígio de alegria em mim.
Vou interromper essa história para relatar o dia que vivi até ela chegar em casa e dizer decidida: Pronto!
Acordei como sempre com o som do impertinente despertador. Comprei o Maldito, buscando de loja em loja o som de despertar menos intrometido. Depois de procurar muito acabei escolhendo, talvez, o pior e mais estranho som de despertador. Isso eu narrei para que percebam que após acordar ao som do despertador que comprei, o mau humor já têm permissão de pousar no dia. Mas eu decidi não dar autorização de pouso nesta manhã. Fiz um esforço e até achei graça, em meio ao ronronar das espreguiçadas de minha mulher, do som melado do despertador. Melada é a sensação que me provoca o som daquele filho da puta. Não sei explicar essa sensação de melado. E naquele dia o despertador não ia melar o meu humor. Desliguei o maldito sem mais delongas, beijei de leve a nega, que reclamou do bafo e se virou de lado, e fui tomar um banho bacana, onde tinha planos de fazer a barba depois de defecar e assim o fiz. Com a cara meio suja de espuma e com leves cortes, abri a torneira e esperei a água cair do chuveiro. Alguns segundos se passaram até que notei que parte dos meus planos foi por água abaixo, ou melhor, foram adiados, pois do chuveiro não caiu uma gota sequer. Senti meu sangue subir como água da chaleira e esbocei um palavrão contundente, que não escapou, pois lembrei que tomaria um café quente e tudo iria dar certo sem que eu me alterasse ou ficasse com raiva do governo local, que deixa que a água acabe sem aviso. Lembrei que poderia ser culpa do cínico do síndico. Limpei a cara com a toalha, olhei a nega meio despida na cama, inocente, ela mal sabia o que a esperava no banheiro. Resolvi não avisar, deixei fluir a maldade um pouco e a ataquei com um cheiro no cangote. Quando senti que ela correspondeu iniciei gradualmente uma siririca contundente que a fez gozar rápido. Larguei ela na cama e fui direto fazer o café. Peguei a chaleira e ouvi um grito dela no banheiro. Sorri, e já concluindo o óbvio, mudei de direção. Ia para a torneira e desisti desviando para a geladeira, porque não haveria água na torneira da cozinha também. Lá na geladeira busquei na garrafa de água gelada a última esperança de fazer o café. Dessa vez foi uma grande provação, pois não tinha água na geladeira, também. Alguém desatento e inconseqüente bebeu toda a água e não encheu a garrafa. Esbocei novamente um palavrão retumbante que controlei permitindo sair apenas um resmungo preso na garganta! Saí de casa rápido, sem me despedir dela, que ainda estava no banheiro, cantando uma musica chiclete que se instalou em minha memória para completar o início desse dia aziago.
Música chiclete é aquele tipo de música bem popular que toca nas rádios mais bregas. Música sertaneja, axé, pagode exportação ou música pop americana ou, ainda, aquelas promovidas pelo Gugu Liberato ou Faustão que são sempre e invariavelmente músicas chicletes. Louras burras e filhos de cantores endinheirados também fazem música chicletes de primeira qualidade, dessas que grudam e só saem com britadeira. Esse esclarecimento serve mais para quem gosta deste tipo de pseudomúsica. E se você é uma destas pessoas eu desejo que você morra com ela na cabeça e tocando em seu velório, seu burro consumidor de lixo cultural. Desculpe a minha petulância, mas é que sinto uma certa raiva, tenho o temperamento explosivo. Acho que seria um bom homem bomba brasileiro. A propósito isso que estou escrevendo é também lixo cultural.
Caro leitor, estava eu surfando no silêncio do metrô e tentando tirar a música chiclete da cabeça, lembrei dos mestres Cartola, Noel, Adoniran, Tom, Vinícius e Chico. De repente entra em uma estação uma morena de mini saia bem curta e com cara de disponível. Ela vem em minha direção me olhando nos olhos. Fico meio sem graça, olho para minha aliança desviando o olhar. Olho para ela e ela esta me olhando com um sorriso nos lábios. Fico meio nervoso, ou melhor, fico meio alerta, querendo voar na mulher e apertar as nádegas polpudas dela. Enquanto calculo o estrago que daria eu em cima da Mulata, percebo que a música chiclete saiu da minha cabeça como milagre, aí no tempo que concluo que esqueci a música chicletes percebo que a porra da música voltou para a cabeça novamente. E na estação seguinte desce a gostosona sem olhar para traz.
-Vagabunda! Nem olhou novamente, e eu que estava quase apaixonado.
Volto à realidade, à música chiclete e tudo o mais que tenho direito. De repente uma angustia me toma e lembro que o mês iniciou e o salário já acabou. Penso no salário da minha esposa que ainda não foi pago e me alivio um pouco. Lembro novamente da Mulata e fico novamente com tesão. Penso que seria certo mesmo eu ter descido na estação da Mulata e fugido com a gostosa. Não tenho filhos com minha esposa, o casamento é só pagar contas, brigar um pouco, família de um e do outro nos domingo, missa para pedir perdão dos supostos pecados e garantir uma vaga no céu, enfim, todas as mazelas de um típico casamento do século XXI. E, claro, sempre faltando o essencial a um casamento feliz: Dinheiro.
Desci na minha estação e caminhei até o trabalho. Trabalho no Banco Rural, serviço estafante e sobre pressão. E vez por outra ainda tenho que suportar umas piadinhas recentes sobre os escândalos que o banco está envolvido. Quase não tenho tempo para nada, nem para coçar o saco. Trato cada cliente como rei para que eles se sintam bem e demorem bastante em minha mesa. Conto histórias de outros clientes, apropriadas por mim e contadas como se fosse eu o sujeito das peripécias bancárias. Tudo isso eu faço para parecer importante e requisitado pelos clientes. Tática que aprendi quando trabalhei no Executivo. Serviço público é que é bom. A casa do vizinho é sempre a mais bonita. A mulher do próximo é que é boa.
Hoje as coisas pareciam bem diferentes. Sentia que algo de ruim iria acontecer. De repente uma notícia bombástica interrompe a música chiclete e o trabalho. Demissão. O banco iria fechar várias agências no Brasil por conta dos escândalos com o partido do governo. Acho que o que pagava meu salário era dinheiro sujo da política. Eu fui punido. Punido apesar de trabalhar honestamente. Punido por optar pelo trabalho honesto. Fui para casa pensando na política e em que tipo de país é o meu que pune inocentes por sua inocência. Acredito que se eu fosse um operador político do banco não seria demitido. Eu nem podia chantagear ninguém, pois não sabia nada de ninguém. Se eu fosse um deputado que recebeu mensalão do governo não seria demitido. Seria cassado? Talvez cassado. Entretanto a minha conta bancária no banco Rural, Real, Urbano etc estaria gorda e cheia de mensalão. Eu seria julgado em foro privilegiado. Lembrei com orgulho do meu falecido pai que me dava uma mesada, que ironicamente nós chamávamos de mesadinha. Meu pai se vangloriava aos berros de sua honestidade. Meu pai morreu pobre e pagando aluguel. Não teve poder nem dinheiro e tudo para ele foi suado. Ele mesmo assim se vangloriava de ser honesto. O partido do governo sempre se vangloriou de ser um partido honesto. Chegou ao poder e diferente do meu pai o partido roubou. FODA-SE! Quis gritar no metrô e me contive.
Me conformei voltando para casa.
Sentei no sofá da sala. Chamei, e ela não estava em casa. Comecei a chorar como se ainda recebesse mesada de meu saudoso pai. Pensei nele e reforçou-se em mim um sentimento de orgulho de ser, como meu pai, um homem honesto e trabalhador.
Aquele sentimento de limpeza de consciência me deixava calmo e esperançoso de que as coisas iam melhorar e que a recompensa de ser honesto ia chegar, nem que fosse ao morrer.
Pronto! Entrou gritando minha mulher, porta adentro, interrompendo minha meditação.
-Acabou!
-O quê que acabou?
-Pedi demissão! Não vou mais me submeter àqueles canalhas.
Pensei: Eis a recompensa de ser honesto.
Serviço público é que é bom.
A casa do vizinho é sempre a mais bonita.
A mulher do próximo é que é boa.
Fui pensando essas coisa e me despindo para tomar um banho.
Entrei, como de manhã no banheiro. Corri a porta do box, me posicionei abaixo do chuveiro e torci a torneira e nada da água cair.
Finalmente o palavrão saiu escolhido, retumbante e seguido de uma gargalhada nervosa:
-CARALHO DE GOVERNO!
E a água caiu dos meus olhos.
Rômulo Augusto
Outubro/2005
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