Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

domingo, 30 de setembro de 2007

Amor sem avalista

Recebi na porta do trabalho um panfleto de empréstimo pessoal. Coisa muito comum nos dias de hoje e também antes de Dom Pedro II, quando resolveu acabar com a, dita, farra da agiotagem no Brasil instituindo a agiotagem oficial. Ele inaugurou, assim, a Caixa Econômica Federal e proibiu a agiotagem pirata. Entrou para a história concedendo empréstimo até para escravos, com a anuência de seus senhores, claro, e tudo dentro da lei e dos conformes. Assim, como na época de Dom Pedro II, temos que apresentar contra-cheque, avalista, comprovante de residência, SERASA, SPC e autorização do cônjuge para conseguir dinheiro na Caixa Econômica Federal.
Entretanto, como antes de Pedro II, a coisa corre frouxa. Lê-se nos panfletos : Rápido, fácil e sem avalista. Sem avalista? Raciocinava apreensivo:
-Se eu não pagar quem vai pagar por mim? Se eu morrer quem paga? Se eu não pagar o que acontece? E se eu sumir? Desconto em folha? Agilidade na liberação. Agilidade é sem dúvida uma grande vantagem. Quando precisamos de dinheiro é necessário agilidade. É bem verdade que quem têm pressa acaba comendo cru e quente. E acaba negociando precipitadamente juros mais altos que o concorrente.
Um desses panfletos dizia: compramos dívidas de outras consignatárias. Que incrível! Estão comprando dívidas. Acho que eu vou vender minhas dívidas e me mudar para o Caribe. Quem em seu juízo perfeito compraria uma dívida minha? A minha mãe talvez. Resolvi parar de pensar nessas coisas e jogar o panfleto no lixo. Do nada, como um sinal o celular toca e do outro lado ouço uma voz doce e macia que me deixa meio eufórico.
-Alô... quem é?
-Você não me conhece.
Delícia de voz feminina! Uma frase misteriosa. Com uma voz dessas eu até compro uma dívida bem alta.
-Como é seu nome, meu bem?
-Jandira Figueira, senhor.
-Realmente eu não te conheço, mas adoraria te conhecer.
Ela sorriu do outro lado da linha abrindo passagem para minhas intenções.
-O senhor teria cinco minutos?
Pensei que em cinco minutos não daria tempo para dar o devido tratamento à princesa.
-Não só teria como tenho todo o tempo do mundo para a voz mais encantadora do mundo!
Acho que ela até se arrepiou. Eu me arrepiei.
-O senhor está sendo muito gentil... Bom, eu queria estar mostrando para o senhor a nova e diferente maneira do senhor estar fazendo o seu empréstimo pessoal. O senhor gostaria de estar ouvindo a proposta?
Ao som de tantos gerúndios o meu tesão abaixou, mas eu ainda estava disposto a pegar aquela voz gostosa de jeito. Acho que na hora H ela ia gemer sem o Gerúndio.
-Não só gostaria como também quero estar ouvindo, enfim vai, fala meu bem....
Ela iniciou aquela ladainha de gerúndios intermináveis e eu fui lembrando que o salário já havia acabado e eu não tinha como convidá-la para sair, para jantar ou mesmo para aplacá-la num motel agradável.
-O senhor está aí?
Aquela pergunta direta e sem gerúndio me despertou.
-Sim, ao seu dispor. Pode estar continuando.
O gerúndio saiu meio artificial da minha boca, me fazendo refletir sobre até que ponto eu poderia chegar para comer alguém.
-Se o senhor estiver ocupado eu poderia estar ligando outra hora para estar passando as informações...
-A senhora pode falar agora mesmo, eu to praticamente desocupado. Alias eu to interessado mesmo é...
Pensei em dizer a verdade, mas a verdade mesmo no gerúndio poderia estar assustando a moça.
...em fazer um empréstimo. Qual é a taxa?
A partir daí eu notei que ela mudou o tom de voz. A velocidade aumentou e os gerúndios diminuíram. Resolvi tomar as rédeas da conversa e marcar um encontro pessoal.
-A moça não gostaria...
-O senhor não se preocupe que o seu cadastro será aprovado na hora e sem avalista. Não estaremos pesquisando a sua situação nos órgãos de proteção de crédito....
Como eu vou propor um encontro sem dinheiro? Acho que vou pedir logo este empréstimo e resolver o resto pessoalmente com ela.
-Ok, como faço para efetuar o empréstimo e obter o seu telefone para a gente gastar tudo juntos?
-...
-E aí? A senhora ta aí ainda? Como é, vai ou não me emprestar o dinheiro?
-Bom de quanto o senhor precisa?
-De uns...
Pensei em quinhentos para uma boa farra com a dona. Depois achei que se eu pedisse pouco ela não ia me dar o telefone, pois acharia que não valeria a pena sair com um cara duro como eu.
-Mil e quinhentos reais.
Nem pensei em como pagar, depois eu venderia a dívida.
Passei todos os dados esperando os dados dela. Minhas expectativas eram de dados novos e suculentos como devem ser os dados de uma mulher realmente apreciável e que vale o investimento de uma dívida.
-Agora é a sua vez!
-Desculpe senhor?
-Não têm do que se desculpar. Passa logo os seus dados para a gente se acertar.
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada. Gostaria de estar passando para o senhor o nosso endereço para que o senhor possa estar nos fazendo uma visita e assinando os papeis.
-Eu quero é o seu endereço, gata.
-O senhor pode estar anotando?
-Na hora.
Ela ditou com todos os gerúndios aquele endereço e se despediu cheia de gerúndios, que retribuí cheio de beijinhos de amor.
Fui direto na floricultura comprei meia dúzia de rosas vermelhas e corri para o endereço. Fui pensando em Jandira Figueira a suposta gata do tele-marqueting que eu iria conhecer e quem sabe um dia me casar.
-Boa tarde! Vim aqui concluir um empréstimo pessoal que fiz por telefone com a Jandira Figueira.
-Como é o seu nome?
Comecei a desconfiar que a Jandira Figueira não estaria lá. E que talvez eu não a conhecesse nunca mais.
-Eu queria concluir o empréstimo com a moça que me ligou.
-Senhor, esta não seria a função dela.
-Pois então agora é.
-Mas senhor, o senhor poderá estar fazendo este empréstimo com qualquer um de nós.
-Eu não poderia nem posso...escute eu só quis fazer este empréstimo por causa dela e vem você me dizer...
-Está certo senhor. O senhor não precisa estar se exaltando por isso. Nós vamos estar procurando a senhora...como seria mesmo o nome dela?
-O nome dela é Jandira Figueira. Jandira Figueira!
-O senhor poderia estar se sentando, que eu estarei providenciando um cafezinho na nossa copa...
-Vai...Vai.
-O senhor aceitaria um café?
-Eu aceito. Agora busca a moça.
Fiquei esperando. Esperei ansiosamente pela gata e nada. Depois de exatos dez minutos a mesma moça volta sem o café e diz:
-Eu poderia estar ajudando o senhor?
-Você poderia? A senhora não saiu daqui para buscar a Jandira Figueira?
-Desculpe senhor?
-Não desculpo. A senhora não saiu desta sala para buscá-la?
-A sim, claro! Que cabeça a minha!
-E então?
-Então o que senhor?
-Cadê a Jandira?
-Senhor, eu só poderei estar encontrando essa senhora se ainda estiver dentro do horário do respectivo turno dela.
Isso tudo ela falou olhando a tela do computador. Aquilo me deixou meio indignado. Levantei-me joguei as flores no banco em que estava sentado e disse:
-Ou a senhora chama a Jandira ou eu não faço empréstimo nenhum.
-Para o senhor estar anulando o seu empréstimo é necessário que o senhor esteja ligando para o nosso tele-atendimento para que possamos estar descadastrando o seu empréstimo.
-A senhora não estaria dificultando as coisas? Eu só queria estar falando com a Jandira Figueira.
-Porque o senhor não disse antes? Para o senhor estar falando com nossos atendentes o senhor deve estar ligando no número 0800800666, onde o senhor poderá estar fazendo novos empréstimos ou anulando este que o senhor acabou de fazer e que não está concluído. Eu poderia estar fazendo uma pergunta para o senhor?
-Faz, vai.
-Por qual motivo o senhor estaria querendo anular o empréstimo?
-Porra! A senhora é louca?
-O senhor estaria me ofendendo?
-Não senhora, eu não estaria te ofendendo. Eu estou lhe ofendendo. Sua louca! Imprestável. Jandira!
Gritei seu nome algumas vezes bem alto em tom desesperado, até que o segurança da empresa veio me acalmar com um aperto na nuca que me fez calar e ajoelhar rapidamente e discretamente no tapete. Quase rezei ao sentir o peso daquela mão competente.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
O gigante falou bem perto do meu ouvidinho com aquela bocona cheia de dentes e uma voz grossa e retumbante.
-Não. Obrigado!
Respondi fino e com um meio sorriso tímido.
Saí de lá depois de ser afagado por aquele gentil senhor e voltei humilhado para o trabalho, sem almoçar, com as rosas murchas na mão, e os gerundios do gigante ressoando em meu cérebro. O pior é que agora ou eu concluía o empréstimo ou anulava por telefone. Liguei pro telefone e atendeu uma voz masculina que me fez lembrar os carinhos do segurança da empresa. Desliguei e tentei novamente. Duas, três vezes até que de repente Jandira Figueira atende com aquela voz de veludo.
-Meu amor!
Saiu naturalmente. Eu estava apaixonado.
-Desculpe senhor?
-Não desculpo.
-O senhor poderia estar passando o seu nome, telefone e endereço para que eu possa estar...
-Pára de falar assim Jandira. Eu quero te ver...
-Senhor, esta ligação esta sendo gravada.
-Ótimo! Assim esses canalhas vão saber que não podem esconder você de mim.
-Assim o senhor está me prejudicando.
-Eu te amo e não posso viver sem você.
-...
-Fala alguma coisa.
-O senhor estaria precisando de alguma coisa?
-De você Jandira.
-...
-JANDIRA!
De repente uma voz masculina atende o telefone e em tom grave, que me fez lembrar a docilidade dos seguranças, proferiu a sentença:
-O senhor tem quarenta e oito horas para efetuar ou não o seu empréstimo. Temos aqui o seu cadastro e os registros em vídeo de sua truculenta visita à nossa empresa. O senhor desejaria mais alguma coisa?
-...
-O senhor está aí? Após este prazo estaremos efetuando o arquivamento de seus dados.
-...
-Aguardamos a sua visita e desejamos uma boa tarde!
-...
Passadas as quarenta e oito horas resolvi não estar contraindo nenhum empréstimo e não estar mais me apaixonando por uma voz desconhecida. Acabou, assim, acabando tudo entre mim e ela.


Rômulo Augusto
06/10/2005