“Criar personagens é, no meu modo de ver, principalmente observar e imaginar. Observo as pessoas interessantes - ou seja, as que me interessam vivamente por repulsa, atração ou qualquer envolvimento. Para criar ficção, aliás, não basta observar só as pessoas, mas ser observador de tudo. A observação informa de maneira viva, reveladora. Uma coisa é aprender, no primeiro ano de escola, que o ano tem quatro estações. Outra coisa é sentir as quatro estações na vida - a certa altura, até no próprio corpo. Para criar personagens parto, assim, da observação das pessoas - seu comportamento, suas expressões. Personagem é basicamente ação e signos (uma gravata, por exemplo, a expressar desde logo uma condição econômica). Assim também as ações têm de ser não ações quaisquer, mas ações expressivas. Por exemplo, falar é uma ação, bastante expressiva; mais ainda se flagrarmos as personagens falando coisas reveladoras de suas vidas, suas idéias e emoções, suas relações com a história toda. Mas é tão ou mais importante flagrar também os gestos, mesmo os menores - e até mais eles, bem como os olhares, tiques, roupas, detalhe: - que falam a seu modo. Contudo a observação, pelo menos no que me toca, não é feita como um trabalho regular, como sentar à máquina para escrever. Faz-se a todo o momento, alimentada pela curiosidade natural. Provavelmente há pessoas mais observadoras e captadoras do que muitos escritores. Acontece que o criador, além do que observa, pode imaginar. Além de compor personagens com pedaços, momentos ou informações de tipos observados, pode contar com as informações do estudo e as possibilidades da imaginação.”
Domingos Pellegrini
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