Até o início do século VII, o termo ator designava a personagem da peça; ele passou a ser, em seguida, aquele que tem um papel, o artesão da cena e o comediante. Na tradição ocidental, na qual o ator encarna sua personagem, fazendo-se passar por ela, ele é, antes de mais nada, uma presença física em cena, mantendo verdadeiras relações de “corpo-a-corpo” com o público, o qual é convidado a sentir o lado imediatamente palpável e carnal, mas também efêmero e impalpável de sua aparição. O ator, ouve-se dizer com freqüência, é como que “habitado” e metamorfoseado por uma outra pessoa; não é mais ele mesmo, e sim uma força que o leva a agir sob os traços de um outro: mito romântico do ator de “direito divino”, que não estabelece diferença entre o palco e a vida. Contudo, este é apenas um dos possíveis aspectos do vínculo entre ator e personagem: ele pode marcar também toda a distância que o separa do seu papel mostrando, como o ator brechtiano, sua construção artificial. Esta é uma velhíssima discussão entre os partidários de um ator sincero que sente e revive todas as emoções da personagem e um ator capaz de domina-las e simula-las, “fantoche maravilhoso cujos fios o poeta puxa e ao qual ele indica a cada linha a verdadeira forma que ele deve assumir” (DIDEROT, em Paradoxo Sobre o Comediante,1775). A questão da sinceridade do ator assume às vezes a forma de um conflito entre duas concepções de criatividade no ator: ator/rei que improvisa e cria livremente, às vezes com os excessos do canastrão ou do “monstro sagrado”, ou o ator considerado como supermarionete (CRAIG) acionado por um encenador.
Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – 1947
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