Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Meninas (homenagem ao deputado Benício Tavares)

Fiquei muito molhada esta noite. Meu vestido se perdeu na água. O dinheiro voou no vento. Eu vi de longe Jéssica pequenininha e linda no colo da minha mãe. Ela não chorava, só me olhava como um anjo! Ela era anjo no colo de uma santa. Minha mãe é uma santa. Ela sempre vem no meu sonho vestida de branco. Acho que minha mãe ajuda Deus a cuidar da gente, lá no céu. Adoro sonhar com ela. Eu adoro sonhar. A Jéssica tem dois anos. Eu tenho quinze.
Eu parei de sentir frio quando sonhei um sonho muito bom. Sonhei com um homem lindo! Parecia um Príncipe de olhos verdes e era gentil. Cuidava da minha filha e levava a gente para tomar sorvete e brincar no parque. Brincava e ria com a gente o dia inteirinho. Cantava e lia histórias de um livro que não acabava nunca. Toda noite tinha mais história no livro. Toda noite eu fico esperando sonhar com ele para ouvir mais história do livro.
Não sei ler direito. Quando eu fiquei grávida da Jéssica eu parei de estudar. Ela nasceu no dia do aniversário da minha mãe. Quando ela entrar para a escola eu vou voltar a estudar também, que eu já esqueci quase tudo.
Toda vez que estou trabalhando eu tento pensar em coisa boa, assim a dor passa. Penso no príncipe dos meus sonhos e na minha mãe tirando piolho da minha cabeça. Eu lembro que ela ficava um tempão tirando piolho e era tão bom, que eu até dormia.
Hoje eu já deitei duas vezes.
Um velho mal cheiroso e um moço bonito e rápido.
Têm outro moço que sempre vêm na quarta e fica comigo até sexta. Ele é bom e paga bem.
Ele tem um caminhão que dentro parece uma casa, mas ele não dorme nele.
Acho que ele é rico. Teve uma vez que ele me levou pro hotel e disse que gostava de mim. Com ele eu ganho por três dias e me deito só um pouco. Ele é meio triste, não fala muito.
Na ultima vez eu brinquei bastante, contei até piada. Puxei assunto para ver se ele alegrava. Ele não arredou o pé. Tava triste de verdade. Eu fiquei com dó dele. Não sabia o que fazer para agradar. Aí eu comecei a contar história da minha filha. As gracinhas. Ela é bem bonitinha. Eu enfeito ela, ponho a roupinha, o sapatinho. Ela fica igual às bonecas da minha mãe.
Quando minha mãe morreu deixou dez bonecas para eu cuidar.
Quando eu morrer a Jéssica é que vai cuidar delas. Eu já tenho quinze bonecas. Quinze com as dez da minha mãe. Eu adoro brincar de boneca. Eu até converso com elas.
Teve uma noite que eu sonhei que elas falavam comigo. Elas respondiam tudo o que eu perguntava. Eu conto tudo para elas. Agora eu conto também para a Jéssica. A Jéssica ainda não fala, mas ela vai falar. Eu vou contar tudo para ela, para ela saber como é a vida. Eu não sei direito como é a vida, mas eu sei que tem coisa boa e coisa ruim nessa vida. Isso eu sei porque eu sei. Vivendo. Sem viver não dá pra saber.
Esse rapaz que eu contei é bom! Eu sei, eu olho nos olhos dele e vejo. Tem uns que eu olho e não vejo nada. Tem uns que chegam aqui, que eu vejo ruindade. Esses graças a Deus vão embora rápido. Às vezes não pagam. Dizem que não foi bom e não querem pagar. Aí eu chamo o soldado. O Soldado é um moço meio pancada que protege as meninas aqui e caminhoneiro que deita e não paga fica marcado. O Soldado bate no cara todinho se ele não pagar.
O Soldado não tem medo de ninguém. Um dia ele levou um tiro e não morreu. Acho que é por isso que ele não tem medo de nada. Eu acho que ele não é louco. Ele parece meio doido, mas não é. Quando alguém vai morrer e não morre fica corajoso. Eu não acho ele doido. Ele só é sozinho e é muito forte, corajoso. Ele é bom.
Eu já quis deitar com ele de graça, mas não agüentei, porque ele é muito grande. Acho que é por isso que ele é sozinho. Não têm mulher que agüenta ele.
Eu contava da Jéssica pro moço e ele chorava mais. Eu falei para ele que a Jéssica era alegre e que não era para chorar. Toda criança traz alegria para o mundo.
Minha mãe dizia que quando uma criança morria o céu ganhava mais um anjo em forma de estrela. Não é só quando morre que a criança vira anjo. A minha Jéssica é um anjo e ta viva.
Deus me livre, que se ela morrer eu morro também. Ele chorou muito, de soluçar. Eu respeito tristeza. Quando a gente tá triste não adianta. Eu quando fico triste fico e pronto! Não tem nada que me alegra, só a Jéssica. A tristeza de adulto eu acho que é maior que a de criança. A tristeza da criança passa com o tempo, porque criança é anjo. Eu sou criança, mas não sou mais anjo não. Quando eu deitei com o primeiro eu deixei de ser anjo e tô deixando de ser criança porquê eu to crescendo, tenho a Jéssica. Meus peitos tão cada dia maior. Mas eu ainda adoro boneca. Acho que eu nunca mais vou deixar de gostar de boneca. Ah! Coitado do moço! Chorou até dormir. Dormiu chorando. Acordou com pressa pagou e foi embora no caminhão. Fui para casa morrendo de saudades da Jéssica. Quando eu tô trabalhando ela fica com meu pai. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos e meu pai é que cuida de mim. Ele adora a Jéssica. Meu pai acha que eu trabalho na rua pedindo. Ele não sabe que eu me deito. Se sabe não fala. Eu nunca vou contar para ninguém, nem para a Jéssica. Eu não quero que ela deite com homem não. Eu quero que ela fique anjo até casar. Quero que ela estude.
Ontem, eu ganhei quinze reais. Vou comprar um pratinho e uma colher para ela comer. Depois eu vou comprar um vestido de renda branco para batizar ela na igreja. Vai ter uma festa no rio e com o dinheiro vai dar para comprar o vestido e pagar o padre. Festa no rio é bom que tem comida e a gente ganha mais e antes de subir. O dinheiro fica fora do barco e a gente ganha mais dinheiro dentro do barco. Eles são de outra cidade. Tem até estrangeiro.
Às vezes tem mulher. Pedem para a gente beijar mulher e isso eu só faço se me der dez, porque eu não gosto de beijar mulher. Eles pedem de tudo... por traz. Teve um dia que eu ganhei trezentos reais numa festa.
O barco tava parado no porto antes do sol se pôr e o pessoal entrando. O final da tarde era lindo como nos meus sonhos com a mamãe.
Eu estava com preguiça, mas pensei na Jéssica, no batismo. Subi no barco só pensando no batismo do meu anjo. O primeiro homem que vi foi o Soldado olhando o rio. Tinha muita gente no barco. Cada menina que entrava ganhava uma cerveja. Tinha um homem sentado numa cadeira de rodas com dois sacos cheios de notas de dez. Seu corpo tremia. Ele era estranho. Parecia um louco.
Quando o barco começou a navegar eu senti um alívio. Os homens gritaram e começaram a agarrar todo mundo. O homem da cadeira de rodas me chamava. Eu fugi dele. Deitei com uns cinco e fiz de tudo, tive até que beijar três meninas.
O Soldado ficava lá parado e olhando. Quando as coisas acalmaram um moço me pegou pela mão e me levou para o fundo do barco. Ele tinha olhos verdes e parecia um pouco com o príncipe dos meus sonhos. Ele me levou lá para baixo pela mão, sozinha. Ele me fez um carinho na cabeça e disse para eu dormir. Pegou um livro igual aquele do sonho e contou uma história de uma menina pequena, bem pequena, igual uma sementinha. Depois da história ele me disse que ia dar um presente para a Jéssica. Fui adormecendo e sonhando que estava mergulhando no rio e nadando bem lá para o fundo. Fui vendo minha mãe no fundo da água com um bebê no colo, eu achei que era a Jéssica e quando eu cheguei perto era um bebê muito parecido com ela, mas era eu. Aí o bebê sumiu e ela me abraçou. Nos braços da mamãe eu vi o Soldado me puxando pelos cabelos para cima e para fora da água. Vi descer até o fundo a cadeira de rodas do homem estranho. Muita madeira quebrada desceu pro fundo do rio. Vi várias meninas nadando e se divertindo com os peixes. Eu já estava rindo da brincadeira quando minha mãe me beijou e disse:
-Vai brincar com as outras meninas meu anjo.
E assim eu fui brincar com as meninas e os peixes. A minha mãe me chamou de anjo. Ela não sabia que eu deitava com os homens e achava que eu era anjo igual à Jéssica. Quando olhei para minha mãe vi Jéssica em seu colo feliz e tranqüila me dando adeus com a mãozinha. O livro desceu e caiu nos braços da mamãe, ela abriu e começou a contar história para a Jéssica. Acho que o presente que o príncipe disse que ia dar para a Jéssica era o livro.
Acho que agora as coisas iam mudar pra gente.
Rômulo Augusto
20/10/2005

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