Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Picolé de uva



O transporte público da minha cidade é muito precário. É bem ruim... É mesmo uma catástrofe. Os ônibus não passam com assiduidade, são velhos e quebram no meio do caminho. Alguns emperram e a porta trava e só abre com a ajuda do trocador, ou segue de porta aberta até acabar o roteiro do dia. Além disto são tão barulhentos que não se pode nem trocar uma idéia dentro do ônibus e o pobre motorista acaba se tornando, com o tempo, ou surdo ou louco. Nas paradas de ônibus o espaço é disputado com truculência pelos motoristas de vans, carros particulares, táxis fazendo lotação e claro o nosso protagonista o gigante ônibus. Uma vez avistei, depois de esperar muito, o meu ônibus. Aquele letreiro era quase explicito em minhas retinas: “casa”. Feliz, acenei para ele parar e do nada se enfiou em minha frente uma van espaçosa que impede que o motorista do ônibus perceba meu aceno. O resultado foi que além de eu ter perdido o tão esperado ônibus fui obrigado a entrar naquela lotação pequena e velha, depois da insistência daquele cobrador mal educado, que me pegou pelo braço quase provocando uma luta corporal. A saga continuou. A van estava abarrotada de homens. Uns perfumados e outros realmente fedidos. Todos espremidos e com cara de mal. Seguimos disfarçando as escoradas e fingindo certa naturalidade. O perueiro empurrava mais pessoas para dentro, até que alguém protestou irritado: Não cabe mais não porra! Esse protesto desencadeou uma revolta conjunta que obrigou o perueiro a parar de botar gente para dentro. A cada parada, todos que se aglutinavam na porta eram obrigados a descer da van para que os que estavam atrás pudessem sair. Enfim, uma situação que só se vê aqui na minha cidade. Será?
Toda manhã, rezo para passar ônibus e não van. Acho que colocar Deus nesses assuntos de transporte coletivo é uma heresia sem medida, mas às vezes se faz necessário quando preciso ir a alguma reunião importante e a necessidade de usar uma roupa mais elegante é premente, não sendo possível entrar em uma van fétida e apertada e sair todo amarrotado.
Não pensem que os ônibus são bons e limpos. Existem ônibus de quinze anos, dez anos iguais aos meus filhos e ao contrário do meu adolescente os ônibus parecem velhos decrépitos e moribundos com acessos de tosse e paradas cardíacas manifestadas sem nenhum aviso prévio aos passageiros, que são obrigados a descer e esperar a próxima condução que, talvez, venha atrás.
Existe uma empresa que ironicamente possui alguns ônibus novos e até mesmo confortáveis. E graças as minhas rezas, eles estão sempre na linha que atende o percurso do meu trabalho. Entro no veículo e me sinto um magnata até o motorista arrancar e demonstrar a sua absoluta falta de delicadeza com aquele automóvel quase de luxo e com este passageiro de estilo. Apresentados cenário e circunstâncias vou aos fatos. Certa vez, fui aos píncaros da cidadania quando sentado em uma das últimas cadeiras, perto da porta de saída, vejo do lado de fora uma menina gordinha de uns doze anos sentada em sua cadeira de rodas, chupando um picolé de uva, empurrada pela mãe com a intenção de subir no ônibus. Mais que depressa desço, apanho a menina no colo e em sincronia perfeita a mãe apanha a cadeira de rodas. Subo com a menina no colo com um certo receio de me sujar com o picolé de uva e pensando que ela ao invés de estar se esbanjando com um picolé daqueles deveria pensar em uma dieta urgente para emagrecer e facilitar situações como aquelas. Mãe e filha me agradeceram muito, muitíssimo, após eu, com muito esforço, ter colocado a gordinha na poltrona. Toda a situação me fez feliz e quase chorei comovido com a minha iniciativa solidária. Veio-me um arrependimento profundo de ter pensado em uma dieta para aquela pobre menina que, privada da alegria de correr e pular como as outras crianças, estava se lambuzando feliz com aquele inocente picolé. Realmente estava sendo frio e egoísta em querer privá-la de tal prazer degustativo. Em questão de segundos a minha opinião mudou ao sentir um certo frio na perna que estava com duas gotas de picolé de uva na calça bege. Quase reclamei com a mãe da menina, mas isto tiraria o brilho da minha boa ação. Aquelas gotas poderiam despertar o interesse de alguém no trabalho e eu poderia narrar os fatos e até ganhar um elogio rasgado. Ficaria no lucro apesar da calça suja de picolé de uva. Uns meses depois estava feliz novamente por ter embarcado naquela linha de ônibus. Entrei, dei bom dia ao motorista e ao cobrador ao qual paguei feliz a maior tarifa do Brasil e segui civilizadamente para o fundo do ônibus, sem esquecer de proferir um sincero e rotineiro obrigado.
Desde pequeno costumo observar as pessoas. Hoje ainda as observo, até por precaução. Observei que havia no ônibus vários passageiros bem fortes. Esta observação parece inútil, entretanto vai servir no percurso da história.
Depois de alguns quilômetros o ônibus pára e aparece um cadeirante na porta com um sorriso amarelo direcionado a mim, que estava justamente na direção da porta. Prontamente me levantei para ajudar e ao mesmo tempo retardo minha ação esperando um pouco para que os robustos em volta tenham alguma reação antes da minha. Nada. Aquele homem do lado de fora não precisaria se humilhar para nenhum troglodita. Se dependesse de mim ele não seria excluído. Sou um cidadão e garanto os direitos dos outros cidadãos. Desci observando o olhar alheio daqueles nutridos e inertes senhores. Alguns ao perceberem a situação e a minha prontidão diante dos fatos viraram o rosto olhando a paisagem na janela e ignorando a urgência da situação.
Perguntei ao cadeirante como poderia ajudar:
- Me pega aqui.
O cara respondeu apreensivo observando meu corpo franzino. Acho que teve medo de eu não agüentar o peso, mas como ele não estava, definitivamente, em condições de escolher um melhor ajudante e apesar de meus 60 quilos meu semblante inspirava confiança, teve que aceitar.
Peguei o cara no colo com jeito e lembrei com saudades da gordinha do picolé que parecia uma pena em comparação com o cara. Senti que poderia não agüentar o peso do rapaz, mas não tinha como voltar atrás. Seria uma humilhação desistir e pedir ajuda aos robustos trogloditas. Respirei fundo e subi. No segundo degrau senti uma forte fisgada na lombar direita. Quase soltei o indivíduo, mas novamente respirei fundo e fui até o fim. Depositei o homem na cadeira e ajeite suas pernas rapidamente caindo na minha cadeira ofegante. Logo em seguida um dos robustos se deu ao trabalho de pegar a cadeira e sem jeito entregá-la ao moço paraplégico que só sabia agradecer. Eu fiquei disfarçando a dor e resolvi perguntar:
- Quantos quilos?
- Setenta... normalmente.
Não sei bem o que ele quis dizer com “normalmente”. Normalmente para mim não era algo que se assemelhava ao normal ou comum. Aquele peso definitivamente não era normal. Pensei, depois do ocorrido, que eu deveria mudar certas praticas no ato de ir e vir.
Em primeiro lugar eu não me sentaria próximo à porta traseira dos ônibus.
Em segundo lugar seria menos atento e observador.
Em terceiro lugar eu não seria mais tão prestativo em coletivos.
Em quarto eu não poria mais Deus nestes assuntos, pois o fato de rezar atraiu para mim os necessitados de ajuda. Aconteceu uma espécie de milagre da caridade ao meu redor. Ainda me recupero da dor. Acho que as minhas limitações físicas impedem certas praticas caridosas. Ia me esquecendo de concluir que o transporte público da minha cidade é uma merda e não foi feito para todos os que precisam dele. Parece óbvio, mas não é para todos. Vai aí um recado para os políticos: Para saber o sabor do picolé de uva é necessário chupá-lo.
Rômulo
01/02/2006

2 comentários:

Rômulo Augusto disse...

real

Ana Paula disse...

Gostei. Você agora é escritor também, Rômulo? Uau :)