Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Frango de Asfalto

Antes mesmo de ser atraído pela rede de ligações entre as pessoas de seu meio, antes mesmo de ser capturado pelo caos urbano e pelas contrariedades fúteis do dia a dia, questionou o andamento da sua vida.
Tinha acordado tarde, estava atrasado e sem ânimo de lutar contra o atraso, então pensou que seu destino estava entregue às baratas. Não ligaria ao patrão para avisar e se sentaria ali até que alguma coisa acontecesse ou até que alguém lhe procurasse para mudar o curso do dia. A única coisa que sabia é que nada faria. Como um pacto consigo mesmo, não se moveria mecanicamente.
Estava disposto a só esperar e, mesmo assim, sem muita expectativa.
A sua expectativa era que alguém sentisse a sua falta no trabalho.
Por enquanto nada.
Mais um tempo e ainda nada.
Pensou que seria prudente planejar uma estratégia de ação que o redimisse de sua culpa no dia seguinte.
Mas não se sentia culpado de nada.
Dirá que estava doente. Mas não teria como conseguir um atestado médico, então pensou em dizer que houve um colapso mental e o plano de saúde não cobre médico psiquiatra, mas não sabia se ia colar.
Enquanto estava sentado, pensava em tudo o que fez na vida, nas coisas que possuía.
Seu pensamento continuava embaralhado e sem propósito.
Sabia que o emprego estava quase perdido.
Só lhe restava duas alternativas:
1-Continuar sentado até que endurecessem suas juntas, ou alguém resolvesse arrombar a porta e lhe tirar da passividade repugnante.
2-Levantar e enfrentar o patrão como o último ato de sobrevivência e dignidade.
Pensou muito e já não sabia se queria sobreviver, continuar nesta luta despropositada pela sobrevivência.
Seus filhos já criados...
Até pouco tempo não pensava duas vezes para levantar da cama, era automático.
Hoje, que ninguém depende dele...
Sabia que era melhor levantar, mas no dia anterior sua filha mais nova o visitou para contar que havia passado em um concurso para o Ministério público, o que estranhamente lhe causou uma espécie de revolta contida e inexprimível.
Sabia que aquilo era bom para ela. Ela, a menina do papai estava bem, conseguiu um emprego muito bom.
Pensou, pensou e quase gritou de raiva.
A filha tinha 24 anos completos e nunca havia trabalhado na vida e de um dia para o outro passou a ganhar mensalmente o quádruplo do que ele, seu pai, o financiador de seus estudos ganhava, e que já nem sabia se continuaria ganhando.
O fato é que a ascenção da filha provocou nele uma espécie de avaliação de sua própria vida e de seus desejos pessoais. Já não sabia mais se a sua dor era real ou fruto de sua maldade e mesquinharia. Pensou se realmente fez bem em se sacrificar tanto pelos filhos e fazê-los estudar e serem bem sucedidos.
Não quis nada na vida que não fosse uma transferência dos seus desejos irrealizados. O desejo dos filhos passou a ser, até aquele momento, sua razão de sobrevivência que agora acabou. Percebeu que agora ninguém vai mais procurá-lo, e que a sua força de trabalho não servia mais a ninguém a não ser a ele próprio. Então com certeza continuaria sentado ali, e sem direito à aposentadoria, e agora que mudou as regras ficou sabendo que teria que trabalhar até os 65 anos ou algo assim. Fez as contas do tanto que já trabalhou e o tanto que ainda trabalharia, somado o salário que era uma grande bosta que só lhe produzia dívidas no banco com juros altíssimos, quis continuar ali sentado e parar tudo.
E assim fez. Pensou, pensou e ficou um pouco mais puto com a capacidade de sua filha de passar em um concurso e ganhar tão bem. Será que ela saberá gastar esse dinheiro...
Pensou em pedir a tutela do salário, afinal a filha não tinha idade para ter um salário tão bom, logo, alguém tinha que cuidar daquela pequena fortuna mensal, e nada melhor que uma pessoa de confiança como o pai para uma tarefa tão ingrata. Como na infância, ela iria gastar tudo com balinha.
Pensou, pensou e se conformou, ela não ia topar um acordo.
Pensou, pensou e resolveu calcular a mesada que deu à filha durante tantos anos e o preço da faculdade o que lhe garantiria pelo menos metade do salário dela até a sua morte, a morte dele.
Pensou, pensou e não concluiu nada.
Sem condições para se levantar ficou olhando a fresta da porta do apartamento e viu a luz que se esforçava em entrar por baixo como um aviso de que havia uma luz no fim do túnel. Pensou, pensou e de repente viu os pés de alguém na fresta. Não bateram, não tocaram a campainha e nem falaram nada, enfiaram um envelope por baixo.
De longe, pareceu ser o boleto do aluguel.
Pensou, pensou e resolveu não apanhar o envelope.
Não tinha forças.
Não ia ter como pagar na data certa, então só olhou com desdém.
Devia ser umas onze da manhã quando começou a sentir um cheiro de frango assado, desses de calçada.
Como poderia?
Esses frangos de asfalto em geral são feitos em dias de feriado.
Será feriado?

Rômulo Augusto /Janeiro 2004

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