Observei a mãe por um tempo e imaginei que ela era uma espécie de mamadeira em forma de mulher com seios grandes e estufados que jorravam leite. Isso me fez voltar a atenção novamente para a criança, que já se rendia a um cochilar hedonista. Me lembrei de quando era criança, da minha mãe.
Eu me projetei naquele pequeno ser, que inocente a todas as mazelas que estão por vir em sua vida de adulto, se esbanjava em estado de sonolência só possível naquela idade devido à sua condição de infanta no colo de sua mãe. A visão daquele bebê gerou em mim uma pulsão criativa que entre um breque e outro do ônibus me levou a pensar em ser novamente criança e, mais precisamente, um bebê. Fui olhando e caindo em um sono que me contagiou e me levou a sonhar. Sonhei que me tornava aquele bebê no colo daquela mãe peituda.
Mamãe começou a me balançar de um lado para o outro se ajeitando e se acomodando na cadeira dura do coletivo. Ela me jogou de banda e se levantou puxando a cordinha para o ônibus parar e ela descer me balançando um pouco mais, num trepidar desajeitado de seu andar sobre aquele salto alto de madeira que produzia um toc-toc e um arrastar de salto irritante que me fez chorar.
Comecei a sentir desconforto com a situação.
Ela foi pedindo:
Queta!
Queta!
Cala!
Quanto mais eu ouvia a sua voz mais eu chorava.
Cala menina! Percebi que eu era menina e não menino.
Chorei mais.
Queta! Pára de chorar porra!
Eu pensava:
Palavrão para um bebê não pode, não é certo. Eu tentava argumentar, mas só conseguia chorar. Chorei por ela e por mim. Eu ia crescer ouvindo aquelas palavras violentas e ia aprender a ser assim. E mais eu chorava e a minha mamãe ficava mais nervosa e lá vem choro e irritada ela chegava a me sacolejar e, claro, eu chorava mais.
Ela andou por alguns segundos entre gritos, balançadas e meu choro incessante até parar debaixo de uma árvore e me largar com truculência naquele gramado e à sombra.
Parei de chorar de súbito quando fui largado, ou melhor, largada, fui quase jogado debaixo daquela árvore, ou melhor, jogada.
Um longo tempo passou. Dez segundos, até eu perceber que estava só. E que minha mãe podia não voltar nunca mais. Pensei que sozinhos, eu e ela, - já que é só um sonho e eu não sou aquele bebê vou tratarmo-nos como nós – nós não sobreviveríamos aos mosquitos, às lagartas de fogo, aos pássaros, à chuva, aos cachorros do mato e ao que é pior, aos seres humanos que poderiam nos fazer mal. Alguém tinha que fazer alguma coisa, então, como eu era o mais velho e mais experiente ali, resolvi berrar.
Choramos juntos por longas horas, até que ao longe vindo em nossa direção a mamãe parecia uma Santa. Um alívio tomou conta de nossos corações no tempo em que ela voltava. Ela nos pegou no colo e sem mais delongas jogou o nosso corpinho em um saco preto e escuro. Por um tempo paramos de chorar até chorarmos com mais força ao percebermos que a mamãe não era Santa e queria na verdade se livrar da gente nos enfiando naquele saco de lixo preto e amarrando.
Começou a andar com a gente segurando o nó do saco e nos balançava como se carregasse um pedaço grande de carne. Antes os mosquitos, as lagartas de fogo, os pássaros, a chuva, os cachorros e o frio. Aquilo poderia ser o nosso fim.
Resolvemos para de chorar para ver se ela arrependia. Pensei que a culpa era minha por ter feito algo errado antes do sonho. Queria pedir desculpas, mamãe. Quando comecei a pedir desculpas um desespero tomou conta da gente e começamos a chorar muito e desesperadamente. Só ela poderia nos salvar e ela queria nos eliminar de forma cruel. Nossa mamãe irritada dava uns sopapos fortes no saco até nos calar com uma espécie de desmaio. O calor estava ficando insuportável naquele saco. Começamos a chorar novamente de sede e calor, além de fome que começávamos a sentir.
De repente tudo ficou meio fresquinho com um certo impacto freqüente que vinha de todos os lados e gerava um barulho ensurdecedor. Um certo alívio até chorarmos como loucos quando percebermos que nossa mamãe nos lançou ao rio.
Era o fim por asfixia ou afogamento. Este era nosso fim.
Parei pensei me vi como o líder ali e concluí que, se éramos dois eu não era aquele bebê de fato. Como aquilo era um sonho, cabia a mim, que era o mais velho naquele saco, acabar com o sonho, que já havia se tornado um pesadelo desmedido e trágico.
Acordei na penúltima parada de ônibus antes da minha e antes do afogamento ou asfixia. Procurei o bebê que eu observava antes de dormir e não o vi mais. A mãe desceu com ele e o levou a algum lugar.
Desejo sorte ao bebê.
Fui trabalhar aliviado por já ser adulto.
Fui trabalhar pensando na sorte dos bebês e de suas Santas mães.
Fiquei feliz pela sorte de ter tido uma mãe e um colo até aprender a andar e argumentar.
Rômulo Augusto 12/2007
2 comentários:
Poxa Rômulo que lindo! Mande seu material de divulgação que eu publico no meu blo com o maior prazer.
Abs
Moisa
Rômulo! Curti o texto mas eu tneho uma sugestão a fazer. Você precisar colcoar parágrafos mais espaçados. Especialmente como seus textos são longos, dificulta e fica um pouco cansativo para os olhos. Se fica mais espaçado é mais suave. =) Abração Michelle (fda)
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