Faroeste Caboclo Cinema

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Foto de divulgação de Faroeste Caboclo. Direção de René Sampaio

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Classificados

Todos os dias, ao nascer do sol é possível ver uma revoada de pombos assustados saindo do beiral da janela do apartamento 207. Em horas variadas, às vezes mais de uma vez por dia, mas quase sempre ao nascer do sol. Os vizinhos sabem bem o motivo da revoada. A senhora, Amelita, moradora do 207 também sabe e sente na pele os pequenos sopapos de seu marido neurastênico que tomado por um de seus ataques de fúria, incisivo e bombástico acorda a sua senhora para fazer o café. Por vezes, os vizinhos pensavam em chamar a polícia ou invadir o apartamento para impedir a violência, mas o costume de ouvir os gritos tornavam as coisas normais e os vizinhos anestesiados, desistiam de tomar providências.
E sempre o Peixoto saía cuspindo fogo.
Ao entrar no elevador, de repente, se tornava outra pessoa: Bom dia! Que belo Dia!
Era sempre assim com o casal. Meia hora depois, saía dona Amelita, meio envergonhada, rumo à quitanda. Pensava no cardápio do almoço e andava de cabeça baixa até que uma poça d’água impede seu percurso em linha reta e ela é obrigada a olhar para o lado onde vê uma pequena loja de Classificados do jornal de maior circulação de sua cidade. Súbito resolve fazer um anúncio.
- Bom dia! Posso ajudá-la?
- Sim, eu gostaria de fazer um anúncio.
- Pois não.
- Eu vou falando e você escreve?
- Sim senhora, pode dizer.
- Vendo ou troco...excelente estado... forte, conservado... funciona perfeitamente quando manuseado com jeito... branco, troco por carro velho que ande ou vendo por dois mil reais... Tratar com Amelita.
- Só isto, Senhora?
- Só.
- Mas está incompleto.
- Como?
- A senhora deve botar o seu telefone e o que propriamente a senhora esta anunciando.
- O telefone eu digo. Agora a coisa? Tem que ser coisa?
- Como assim?
- Não pode ser pessoa?
- Não senhora!
Saiu daquele lugar bufando. Sentou por um instante no banco da praça com vários pombos em volta. Mirou um em particular que se movimentava com dificuldade, mio mancoeba, tomou distância e correu para a bicuda que pegou o pombo em cheio. O coitado voou por uns metros e caiu em seguida meio morto.
Ele não esperava uma reação como esta daquela senhora, que parecia tão pacata. Voltou para casa, não sem antes passar pela quitanda como sempre.
Na manhã seguinte com a habitual revoada de pombos só se ouviu o grito do seu Peixoto, que com aquela rotineira truculência não esperava ser o pombo da vez e levar de sua Senhora, tão pacata, uma bicuda certeira na região escrotal. Seu Peixoto nem saiu naquela manhã. Só dona Amelita saiu de casa hoje. Alegre e altiva ela cantarolava enquanto seguia rumo à quitanda e de olho nos pombos do caminho. Depois da quitanda pretendia sentar na praça para continuar seu treino, que agora seria diário.
Rômulo Augusto 29/03/2006

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