Esta palavra quando era ouvida pelo nosso personagem servidor público, nível médio do Ministério das Minas e Energia, provocava nele uma espécie de depressão com arrepios seguidos de sono, muito sono. Ele sabia que qualquer tipo de mudança fazia sobrar mais trabalho para ele. Não que ele não fosse disposto a trabalhar e muito pelo contrario, na verdade o que o indignava era que sobrava mais trabalho para ele, justamente por ser ele um cara bem disposto. Não tinha o costume de observar a vida do outro, mas era inevitável perceber que quem ficava quieto no canto sem se dispor à nada acabava sendo beneficiado com o ócio.
Mudança de cargos implicava em mudança de nomes nos ofícios e memorandos, mudança de mobiliário e decoração. Ele adquiriu uma renite alérgica ao enfrentar quase anualmente quilos e mais quilos de poeira das freqüentes reformas feitas em seu local de trabalho. E, claro, sobrava para ele e seus colegas de nível médio carregar os papéis repletos de ácaros de um lado para o outro e sem deixar sumir nenhum processo ou documento.
Ele passou no concurso de nível médio, e tinha se formado em Direito. Tentou duas vezes o exame da Ordem dos Advogados sem sucesso e desistiu temporariamente de sua carreira de advogado. Soube naquela manhã que o Ministro iria cair. Pensou que mais mudanças iriam ocorrer. Tentou trabalhar no que estava fazendo, mas concluiu que seria inútil, pois não haveria continuidade. Ficou divagando por meio período e no outro período ficou jogando paciência. Logo veio a notícia de que a nova Coordenadora começaria no dia seguinte. Ele ficou imaginando que ela entraria na sala cheia de vontade de mudar tudo o que seu antecessor fez e sem saber se era um trabalho útil ou não, bom ou não. Parece que o importante no serviço público é isso mesmo, mudar a cara da repartição e estabelecer mudanças para que tudo mude ou pareça que esta mudando. Muda primeiro o gabinete, depois a disposição dos móveis e funcionários da seção e até mesmo o piso, que já está meio desgastado e o carpete, claro, provoca alergia. Ela chegou e iria se reunir com todos, individualmente, para inquirir cada um dos funcionários buscando mapear o perfil na perspectiva de ver quem daqueles iria ou não servir aos seus propósitos e quem ela poderia por à disposição para contratar uns companheiros que estão precisando trabalhar. Cargos de confiança. Cargo de confiança para os de fora. Quem confiaria nele? Um advogado que não passou no exame da Ordem dos Advogados e exerce cargo de nível médio, meio cabeludo e que não usa terno ou gravata, e ainda ajuda nas mudanças. Como alguém minimamente inteligente poderia ajudar a mudar uma coisa em seu desfavor? Quem ajudaria outro a mudar a sua própria vida para pior? O nosso companheiro Servidor sempre ajudou os outros a mudar a sua vida para pior. Teve uma vez que descobriram que ele conversava bem com o público. Começaram a enchê-lo de elogios. Os mais entusiastas queriam lançá-lo na política. Outros queriam que ele fosse o chefe. O que aconteceu foi que ele foi incumbido de representar o Ministério em uma daquelas feiras que ocorrem nos finais de semana onde os publicitários enchem a conta de dinheiro e nosso funcionário não ganha nem folga para compensar o trabalho no final de semana. Enfim, na sua primeira vez exerceu com estrema competência a nova função. Vaidoso falava melhor e com maior propriedade que o próprio Ministro, que ainda estava estudando o cargo, mas que já sabia que para o Ministério aparecer e gastar verba era necessário participar de feiras publicitárias. Enfim, o nosso companheiro era um faz tudo dos mais rasteiros. Como tinha competência até para ser Ministro todos sabiam que não chegaria nem a chefe de Divisão. Se considerarmos a sua alta disposição para o trabalho poderíamos supor que ele talvez fosse rebaixado aos serviços gerais ou a operador de telemarqueting. Ele era solteiro e morava só. Não tinha namorada ou amante. Corria um boato maldoso, típico de repartição pública, que o nosso companheiro era viado. Na verdade ele nunca foi viado e nem era religioso, como alguns pensavam. Por vezes, mais precisamente para provar que ele não é viado, quando saia o salário ele ia até a esquina de seu prédio para pegar uma ou duas prostitutas para uma farra compensadora, mas isto era sigiloso até para ele mesmo.
Coincidiu que depois da farra do mês ele chegou no trabalho um tanto relaxado e era o dia que a nova Coordenadora iria entrevistá-lo em particular. Ele e poucos de sua sala viram a Coordenadora e já corriam boatos diversos, que a elevavam aos píncaros da bondadade e aos rodapés da maldade.
A Coordenadora chegou na cidade às pressas, chamada pelo Ministro. Ela era uma mulher muito preparada. Sabia três línguas e além de economista era uma militante do Movimento Ecologista.
Estava hospedada em um hotel pequeno no Setor Hoteleiro Sul. Acordou às seis da manhã, tomou café e pegou um taxi:
– Parque da Cidade.
– Sim Senhora.
E que Senhora! Ela era uma Paulistana alta, esguia e ao mesmo tempo redonda. Todos os dias ela praticava esporte e era linda, realmente chamava a atenção quando passava. Ia ao salão de beleza toda semana para ficar ainda mais estonteante. Separada a mais de três anos estava decidida a não sair mais de Brasília e quem sabe até constituir família. Depois do esporte ela voltou para o hotel, tomou um banho, onde ouso apenas destacar que foi um banho especial para ela por se tratar de um banho onde ela usou o chuveirinho para relaxar se divertindo sexualmente. Passou um creme hidratante no corpo todo, vestiu a roupa de trabalho e partiu feliz. Como nada sei sobre moda feminina não saberia nomear com propriedade o tipo de roupa que vestia a Beldade.
Enfim, era uma saia preta justa e não muito curta com uma blusa azul clara decotada a exibir um colo perfeito pontilhado por sardas decorativas que só acrescentavam ao conjunto. Cabelos castanhos com mexas douradas ela era ainda por cima bem séria e sabia impor respeito. Simpática, apresentou-se e seguiu para seu gabinete. Iniciou a chamada por ordem alfabética. Levava cerca de cinco minutos com cada um e quando a pessoa saía do gabinete todos os outros queriam saber o que tinha acontecido. Tudo indicava que ela iria aproveitar a todos e que pelo fato de ser de outra cidade ela não teria gente dela para trabalhar.
– Senhor Thomas... Lá foi o nosso Companheiro com a auto-estima flutuante e visivelmente nervoso.
O tempo foi passando e ele não saía de dentro do gabinete. Entrou por volta das 10:30 da manhã e saíram os dois juntos para almoçar. Não voltou mais naquela tarde e no dia seguinte ele havia sido transferido para o gabinete do Ministro onde obteve um cargo de confiança e nunca mais foi visto na repartição em que trabalhava e muito menos em feiras publicitárias feitas pelo Ministério. Quem quizesse vê-lo teria que ir ao parque da cidade por volta das 7:00 da manhã onde estaria praticando esporte com sua mais nova namorada e quem sabe futura esposa.
Rômulo Augusto
11/2005
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